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Sobre sororidade: breve história de como me tornei feminista

*Prometi esse texto e estou cumprindo. Para a linda e brilhante Emmanuele Aldine, que tem muito de mim quando eu era uma menina, e tudo pra ser uma mulher melhor do que eu sou.

Na minha adolescência eu fui uma menina triste. Parei de dançar ballet lesionada aos 13 anos de idade. Dos 53 kg passei aos 65, e ninguém me contou o que era body positive nessa época. Não me contaram também que a sociedade era preconceituosa, e que cortar os meus cabelos bem curtos e pintá-los de roxo, depois de vermelho fogo, não ajudariam a evitar que eu ouvisse todos os dias alguma gracinha sobre a minha aparência.

Ninguém me disse também que decisões como começar/terminar um namoro, ou aderir a coisas ditas “masculinas” como gostar de rock’n roll ou jogar sinuca me tornariam uma “vadia”, e que por isso eu merecia ser xingada/hostilizada/escrotizada. Eu chorei muito. Eu só queria fazer coisas que eu escolhi pra mim, mas o patriarcado já agia sobre a minha vida, e eu já tentava resistir, dar de ombros. Parecia tão impossível e infindável…

Mas aos 17 anos, já universitária (já que me tolheram o amor próprio e a livre sexualidade em boa parte da minha vidinha, estudar foi uma grande saída), a primeira palestra de boas vindas aos calouros que fui assistir era sobre gênero. Até então tudo o que eu sabia sobre gênero era o famoso bordão “concordo em gênero, número e grau” e foda-se. Sentada na palestra, ouvi uma militante da Marcha Mundial das Mulheres falando sobre a sub-representação e a objetificação das mulheres na literatura, nos filmes e nas propagandas. Olhei a vida com uma abordagem mais crítica. Me culpei menos. Ela foi a primeira mulher que mudou minha vida, embora eu nunca mais a tenha visto.

Aí precisei ganhar dinheiro. Um amigo (salve Higor Valente!) me ligou em uma quarta-feira cinza pra caralha e falou “e aí, tô com um estágio, você topa?”. Eu topei. Era um estágio em um Centro de Cidadania da Mulher.

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(Eu e o Higor nos tempos de estágio. Lutando e construindo a igualdade de gênero.)

Lá, confrontei a minha realidade de mulher branca e pequeno-burguesa, com a realidade das mulheres negras e pobres. Vi a feminização da pobreza. Vi o racismo, a misoginia. Vi mulheres que jogaram água fervendo em seus maridos depois de vinte ou mais anos de agonia, sofrimento, dor. E no dia do meu aniversário, vi uma mulher entrar por aquela porta em meio ao sangue e sem lágrimas pra nos dizer “meu marido me esfaqueou”. Essa foi a segunda mulher que mudou a minha vida, embora eu sequer saiba o seu nome. Eu precisei me aprofundar no tema, porque minha concepção rasa já não era suficiente. Eu queria dizer algo mais que “espere o defensor público”. E eu consegui. Até o fim do meu estágio, várias vezes eu repeti: “você é capaz, todas nós somos”, e acho que essa era a melhor coisa que eu podia dizer naqueles momentos.

Depois do estágio, já me considerava feminista. Já tinha lido sobre o tema, mas eu ainda era solitária. Não tinha coragem de chegar em uma mulher e dizer “alô, você é minha irmã, vamos marchar pela nossa liberdade”. Me faltava coragem pra falar sobre as agressões físicas, verbais e psicológicas que eu já tinha sofrido em diversos espaços. Faltava gritar que meu corpo não é um espaço público, que não sou um espaço que tem como finalidade o prazer, e que não pedi a opinião de ninguém sobre meu peso ou minha depilação. Faltava orgulho de dizer que sim, uai, sou feminista, sou mulher, SOU LIVRE. Doa a quem doer e custe o que custar.

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Um dia, casualmente, fui a uma festa universitária. Lá, vi uma mulher apanhar. O agressor se “justificou”: ela gritava! Mesma justificativa que usaram pra me bater, há exatos cinco anos atrás. Me calei. Não enfiei as mãos na fuça dele, não a acompanhei a delegacia. Ela era Marta, a terceira mulher que mudou a minha vida, embora nunca tenhamos sido amigas íntimas.

Isso ficou martelando na minha cabeça: qual a finalidade do feminismo acadêmico, se ele não virar militância? Eu precisava ir pro espaço público. Eu precisava ocupar as ruas pra gritar que elas eram minhas. Eu queria e era uma necessidade, ajudar todas essas mulheres que fizeram algo por mim, mesmo sem saber. Pelas mulheres que lutaram por um futuro prodigioso e de auto-gestão pra mim e para todas as mulheres.

Li muito. Conheci muita gente. Fui me infiltrando, quase que como uma formiga, nos grupos, nos coletivos, nas festas. Não me calei diante das outras violências de gênero que presenciei, e embora agora eu tenha quem me ameasse, me orgulho de assumir posições.
Então eu precisei de ajuda. Eu precisava chorar um tipo de situação que não se chora com qualquer pessoa. E essa foi a primeira vez que eu me senti fragilizada e podada como mulher. Essa foi a primeira vez que eu pensei “hoje eu preciso de uma feminista”. Liguei pra Carolina, e ela foi a quarta mulher que mudou a minha vida. Nunca tínhamos nos visto pessoalmente, mas no mesmo dia ela se materializou na minha frente como em um passe de mágica, e desde então, não quero (e não vou) desgrudá-la.

A partir daí eu ganhei a firmeza que me faltava pra entender que temos que estar na rua, e temos que estar na universidade. Temos que estar nas empresas, e temos que estar em casa. Temos que estar na Marcha das Vadias, e temos que estar nos grupos online. Temos que estar, enfim, EM TODOS OS LUGARES.

Porque a sororidade me salvou. Porque a sororidade me libertou, me engrandeceu e quebrou o meu silêncio sem nunca me cobrar nada em troca. E então quero poder dizer pra todas as mulheres que passarem pelo meu caminho: você se pertence.
Por isso nessa MdV 2013, escrevi no corpo apenas “SOU MINHA” – claro, simples, minimalista. Porque é sendo minha que posso ser de luta.
E se eu tenho algo a dizer, pra encerrar esse texto, é: LEVANTE, MULHER! Não tenha medo. Tenha empatia. Você é linda, forte, capaz e plena.

Imagem(Marcha das Vadias de São Paulo 2013, em companhia dxs lindxs do Machismo Chato de Cada Dia)

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