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Líder aqui é palavra feminina!

Quero começar esse texto com um desabafo: fiquei todo o mês de Junho pensando no quanto eu gostaria de escrever algo novo (quiçá brilhante) nesse blog e me frustrei por não conseguir. O fluxo de trabalho – no novo emprego e na faculdade – não permitiram. E aí agora sou obrigada a voltar aqui no meio de Julho pra escrever sobre um tema que detesto: homens no feminismo.

Pronto. Desabafo feito, é bom eu me explicar pra que vocês não me entendam mal. Não é que eu deteste homens no feminismo. O que eu detesto mesmo é debater o tema. O motivo? Vai ter alguém pra dizer que mulheres e homens merecem o mesmo espaço de liderança e o mesmo contraste entre suas vozes dentro do movimento feminista. E isso me irrita. Isso me faz arrancar os cabelos e pular em um pé só em cima de uma cama de pregos de tanto ódio. 

O primeiro motivo pra que eu refute tão veementemente essa ideia, é a meritocracia. Tudo na sociedade contemporânea funciona por esse sistema. Você tem um emprego porque merece, você tem um bom cargo porque lutou pra isso, você conseguiu entrar no curso mais concorrido de uma universidade pública porque é bom o suficiente. Quem questionaria isso?

Os movimentos sociais questionam. Porque esse sistema é falho e falacioso. A meritocracia é um sistema dos opressores para justificar suas opressões. É um sistema que ignora as forças histórico-sociais que agem à margem da realidade tangível. Dessa forma, a meritocracia ignora o racismo, o machismo, a homofobia e todas as demais dificuldades impostas a grupos minoritários, como se a sociedade agisse magicamente em prol do esforço, e não houvesse no seio da compreensão coletiva postulados que confrontam as capacidades de pessoas negras, de mulheres ou de pessoas da comunidade LGBT.

Desta forma, me soa absurdo dizer que um homem pode ocupar o espaço de uma mulher dentro do movimento feminista por ser um melhor orador, ou melhor-qualquer-coisa-que-seja. APENAS NÃO! O movimento feminista é sobre lutar para mulheres. É sobre transgredir as regras do patriarcado. Não é sobre uma reprodução da sociedade que está lá fora. Não é sobre dar visibilidade aos homens. 

E por falar em visibilidade dos homens…
Os homens tem construído todo o mundo. A História foi feita pelos homens. A Ciência foi feita pelos homens. Será isso uma coincidência? Será isso dado como prova da irrefutável proeminência do pensar masculino sobre o feminino? Será a mesma estranha força que age em prol dos brancos e confina os negros? 

Acho que se você se considera feminista, sabe que todas as respostas para essas perguntas são um sonoro e gritante NÃO. Os homens são os beneficiários diretos do sistema patriarcal. Sistema esse que nos coloca para competir em desvantagem com o gênero masculino. Esse sistema que é justamente o alvo do movimento feminista!

E é aí que está o ponto: se já temos um mundo de homens, feito por e para homens, discutido por homens, não precisamos tê-los liderando e ditando rumos nos nossos espaços. O feminismo é e deve ser um espaço autônomo de mulheres e para mulheres. Para subverter a lógica patriarcal, deve estar em íntimo contato com as mazelas femininas, afim de pensá-las coletivamente e solucioná-las.

Faça um exercício: quantas vezes por dia uma mulher é silenciada? Quantas vezes por dia uma mulher é coagida? Quantas vezes por dia uma mulher é violentada físico ou psicologicamente?
Não tenho dúvidas de que são muitas. Inúmeras. E pra quem desconfia disso, fikdik: O MACHISMO MATA. É só clicar no link e dar uma conferida no quanto. 

Portanto, enquanto suplência das nossas demandas, enquanto espaço para nos firmarmos, o feminismo precisa ser liderado por mulheres. Precisa que mulheres digam o que as oprime. Precisa que mulheres digam o que querem fazer, por onde caminhar e como lutar. Porque dizer o que mulheres devem fazer, é tudo o que os homens já fazem lá fora.

Mas aí vão me perguntar aquela clássica questão. Aquela, que faz os meus ouvidos arderem: “Viviane, mas e os homens?” (também conhecida como “Viviane, mas e uzomeeeee?”) Tá, dessa vez pela última vez eu vou responder:

Os homens não são meus inimigos. Os homens não são inimigos do movimento feminista. Os homens podem ser aliados, não protagonistas (como disse brilhantemente – Henrique Marques- Samyn – um homem, vejam só!)
Os homens podem pegar aquele espacinho que só eles podem ocupar, chamado resto do mundo, e fazer dele um espaço feminista. Podem doutrinar os amiguinhos. Podem conversar com os parentes. Podem ensinar em sala de aula. Podem falar no trabalho. Podem expor o feminismo por todo canto! Podem dizer em todo lugar o quanto valorizam e lutam pelas mulheres! 
Isso nos ajudaria muito e seria de grande valia, caras! Mas ditar suas regras no feminismo, tomando mais uma vez o espaço das mulheres, não soa por si anti-feminista? (atenção: essa pergunta é retórica.)

Assim eu decreto que na minha vida está encerrado o espaço para as male tears. Não vou parabenizar os homens que lavam a louça ou que não mexem com mulheres na rua. Não vou dar um biscoitinho por isso. É sua obrigação enquanto ser humano, portanto, continue cumprindo-a nos espaços onde você já é pleno de direitos, e deixe as mulheres construírem sua própria luta, pautada em nossas necessidades e demandas. 

E tchau.

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