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Sentido Algum

Estava tentando me lembrar daquela frase do Milan Kundera sobre a vida ser como um script lido uma única vez pelo ator de uma peça, que é obrigado a executar sua estréia sem nunca tê-la ensaiado. Não me lembro de ter atribuído tanto sentido à Insustentável Leveza do Ser desde que tive quatorze anos, mas algo que corre por fora do curso da vida cotidiana me faz retomar ao clássico da minha adolescência conturbada e dificultosa, e questionar se por vezes, o melhor a se oferecer de súbito à sutileza da vida posta não é justamente a capacidade de nada oferecer.
Existe algo no meio-fio entre existir e dedicar-se à existência que paira sobre o âmago do que eu sou de fato e daquilo que esmerei me tornar. Voltar quantos anos parecem necessários a um passado que emana incertezas não é garantia de compreendê-lo, tampouco mudá-lo. E os ecos produzidos a priori por uma personalidade tão latente, vívida e impulsiva como a desta que vos fala é como compreender o sórdido, surpreendente e inevitável teatro em único ato da vida: não há chance pra dizer que a chance se fora.
Gostaria de poder dizer que teria feito diferente, a diferença e à diferença, mas sei que genuinamente reitero o que galguei, e estabeleceria duas vezes ou mais os mesmos axiomas, por mais estúpidos que o sejam.
Endosso o fracasso, a fraqueza e a franqueza, e por isso tudo me dói e quase tudo me custa. Mas deixo arder.

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Sobre cansaço e solidão

A rua está vazia, o vento cortante e as pálpebras pesando sobre a íris dos olhos. Os livros a tiracolo, a echarpe insistindo em se espalhar pelo pescoço e os cabelos se emaranhando em si mesmos.

Apalpo o bolso e procuro um cigarro: havia me esquecido que não uso nicotina há dois meses e instantaneamente me desespero. Eu devo estar fazendo algo muito errado desta vida para estar aqui agora, sem um puto e sem Marlboro às vésperas de uma reunião importantíssima no partido e um ato decisivo para a militância. Mas que importa? Tenho doado a existência aos outros, mas essencialmente agora, quero encontrar algo que seja exclusivamente meu.

Penso em pegar minha bicicleta e pedalar por alguns quilômetros pra que a mente cheia de endorfina se esvazie das tormentas e para que o prazer dos músculos latejantes me faça esquecer que o peito também lateja, na ardência do meu coração vagabundo que insiste em tanto doar, sem nada pedir em troca. Lembro-me que a bicicleta foi vendida pra pagar uma dívida antiga, e me questiono o porquê gastei meu dinheiro, se ando economizando vida.

Ainda há a chance de escrever, porque essa é a última coisa que me resta. Talvez a única, dentre tantas minúcias furtadas da minha personalidade inventiva, que insiste em não condizer com o ego de quem quer ser único em um mundo de iguais. Pra ser sincera, sequer isso tem alguma importância agora.

O essencial é que na ausência dos cigarros e da bicicleta, escrever fosse suficiente. Mas infelizmente, o que me faria completa agora não figura entre as coisas tangivelmente tocáveis e eu me sinto pela metade. Sorrio ao pensar que assim sou completa: completamente dividida entre o vazio e o ser pensante que beira a esquizofrenia.

Sento de frente pra janela, e os carros continuam a passar. Sinto falta do imaginário furtivo que poria um futuro bonito diante dos meus olhos agora. Tudo o que vejo transcorrer é solidão, como se me olhasse no espelho dia após dia. A  solidão tem me impedido de ser narcisista.

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Velhos textos – parte I.

Já não faço a mais remota ideia de que dia ou mês nós estamos. Sei o ano, porque é o ano em que nos conhecemos, e não me lembro de ter rompido nenhuma fase importante ou crucial desde a primeira vez que os nossos olhos se cruzaram.

Eis o primeiro engano desta carta: desde a primeira vez que nossos olhos se cruzaram eu já consegui saber seu nome, te dar um beijo e te perder. Devem ser fases importantes, mas nenhuma delas teve champagne pra comemorar. Na verdade, sequer você me pagou uma cerveja, porque pelo que percebo agora, no auge dessa lucidez incômoda, eu não valho mesmo nenhuma aula de Política desperdiçada na mesa do bar da esquina.

Engraçado. Antes eu achava que aquele bar sujo e os meus amigos revolucionários da Vila Madalena é que estavam longe de merecer a sua presença, que quase brilha e ofusca as demais coisas. Mas depois de ter a minha visão quase cegada pelo anel prateado que você leva novamente na sua mão direita, só me restaram mesmo as bebidas baratas do bar do Luizão, e aquele rádio velho disputado entre os estudantes e os bêbados para ver quem consegue ser mais pedante escolhendo uma estação FM.

O que sei é que neste mês desconhecido, neste dia desconhecido, estou comemorando a minha falta de emprego, de dinheiro pra pinga com canela e essencialmente de você, com o pouco de chocolate que minha irmã deixou na geladeira e com Shakira tocando nos auto falantes. Ela pergunta: “who would have thought that you could hurt me the way you’ve done it?” e eu não sei responder.

Porque quando você ficava me prendendo entre um corredor e outro de uma aula e outra, você parecia bastante satisfeito com a minha presença. E quando você sussurrava aquelas coisas indecentes no meu ouvido, e beijava os meus seios, parecia de fato que você gostava de mim. E agora eu sei que eu sou jovem e burra demais pra distinguir os olhos de paixão dos olhos de libido.

Então que culpa eu tenho, também, se todo o resto do universo fez um pacto de mediocridade contigo, e ninguém me contou que eu era apenas o seu brinquedo, enquanto ela era nada menos que a sua mulher? Ninguém me contou que você notava em mim a beleza de uma menininha de dezessete anos, e nada mais.

E a própria música autodestrutiva responde: “you don’t even know the meaning of the words ‘I’m sorry’” e eu chego à conclusão de que é isso: você não tinha como me pedir desculpas por não querer estar comigo. Não tinha como me pedir desculpas por ter uma vida ao seu redor, enquanto tudo o que eu tenho pra mim são meus adesivos colados no armário e as minhas cópias de clássicos teóricos que aprendi a ler há pouco. Acho que devo encarar as coisas como elas são e não mais como eu queria que fossem, e com um pouco de tequila pra dentro, decidir sozinha e por nós dois que isso não foi, nem pôde ser uma história a ser dividida. Essa é a história que eu queria ter construído, mas você não. É algo novo pra mim, mas não pra você.

Doeu, dilacerou, e está me matando por dentro. Te ver todos os dias é o tipo de tortura lenta e dolorosa, que dá prazer a quem faz. E eu vejo o prazer nos seus olhos quando finge que me quer por um segundo, só pra me obrigar a lembrar que eu não tive e nem nunca terei você por inteiro.

Freud deve explicar. É uma pena eu ter deixado de ir às aulas de filosofia da memória nas últimas semanas apenas pra não te encontrar assim, logo na segunda-feira.

Felicidades, é o que eu te desejo. A música acabou e as últimas palavras que ouvi, antes de pular entre os meus travesseiros e odiar você, sua cidade, essa rotina e a minha vida, foi “should be illegal to decive a woman’s heart”.

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A morte, a fugacidade e a antropologia

Passei o dia dentro daquela repartição claustrofóbica, ouvindo as reclamações que não me convém e bebendo o café preto, forte e amargo que servem na copa. Logo pela manhã, dizia à minha colega que eu acredito na existência de diversas dimensões que dividem tempo/espaço de forma desigual, fazendo com que passemos por diferentes experiências em uma única vida, sem que isso chegue ao nosso conhecimento e perpasse a nossa memória.
O que eu pretendia com isso às dez da manhã de uma inconveniente quarta-feira ensolarada, era repetir como um mantra mental que algum lugar da existência me reservava um espaço melhor na colocação do status social, onde eu estaria sentada sobre as pedras de uma praia deserta, curiosamente experimentando um drink de rum e pêssego e lendo Eduardo Galeano.

Na cidade ao lado, quase conurbada pela grande metrópole paulista, ele devia estar chegando ao trabalho e colocando sua gravata amarela de atendimento.  Algum inconveniente deveria estar por se suceder – porque essa é a rotina de pessoas que trabalham com as piores coisas do mundo: gente e dinheiro.  Acho que ao contrário de mim, não bebia café. Talvez água, pra esquecer que a imbecilidade das formalidades humanas lhe obrigava a trabalhar de terno em um calor de quase quarenta graus.
Jamais poderei dizer o que ele pensou ou disse nas horas que se estenderam nesse dia tão impreciso, mas estou certa de que nada do que tenha proferido seria o suficiente, se ele soubesse – como eu também não sabia – a forma esdrúxula como nossa existência seria encaminhada ao incerto nos próximos momentos.

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Do outro lado da tela, alguém me importunava com inconvenientes que não me interessam, e eu me sentia empapuçada, exausta, desgostosa. Queria findar a conversa lamentável que decorria, e para isso, fechei os programas abertos, peguei meu livro: “Ah, mas que droga de vida! Eu não vou entender Lévi-Strauss nem em uma vida, quanto mais em um dia!”
Meu telefone tocou. Do outro lado da linha, ele me fez o convite que qualquer pessoa faria às vésperas de uma prova sobre a escola antropológica estruturalista: “Você quer estudar comigo?”
Olhei o relógio. Dezessete horas e eu não tinha lido nem a metade das páginas que deveria ler. Olhei a tela. Eu não tinha escrito nem a metade dos argumentos que poderia usar naquela discussão.  Não me restaram dúvidas: “Sim, eu quero.”

Depois de empenharmos alguns esforços em conjuntamente ler aquela coisa maçante e cheia de termos em francês, apreendemos finalmente a busca pela lei universal das culturas. E eu ainda tive tempo pra brevemente pensar que isso era uma coisa idiota.  “O que pode ser universal?”  – pensava eu.
Entrei no carro. Ele dirigia do único jeito que sabe: com a mão esquerda no volante, e a direita sobre a perna. No rádio, o jogo do nosso São Paulo pela Sulamericana nos manteve em silêncio por boa parte do caminho. É necessário atenção quando o seu time joga, e o dobro de atenção quando o seu time joga uma competição latino americana. Essa regra aprendi com o meu pai desde cedo. O locutor disse em um tom de voz jocoso “O São Paulo Futebol Clube vem se esforçando para perder esse jogo tão simples, não acha?” – “Sim, eu acho!” ele disse, usando um tom de voz ainda mais irônico. Nós sorrimos.
O calor tinha se condensado em uma chuva torrencial, e todo o escaldante tom amarelo do sol tinha se transformado em cinza e em poças. Os semáforos da avenida que me traz até em casa estavam quebrados. Ainda estávamos sorrindo.
No instinto idiota que nos faz agir como se fossemos nós o próprio motorista, nos tornando copilotos de quem faz tal proeza melhor que nós, olhei os dois lados do cruzamento. Olhamos, melhor dizendo. Nada. Ele pisou no acelerador e de repente, eu só vi a luz. Quando você está prestes a ser esmagada por ônibus, posso lhes assegurar: a luz dos faróis é a representação exata, contundente e lúdica do fim da vida.
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Não sei direito quanto tempo se passou. Talvez nenhum segundo completo, apenas milésimos de. Mas foi como se eu tivesse visto ao mesmo tempo, toda a vida que eu gostaria de ter vivido, e toda a vida que eu tive. Consegui também de súbito cerrar os olhos em um instinto que me dizia que se eu não enxergasse, não morreria. Tudo parou de se mover, inclusive eu.
Forçosamente, levantei as pálpebras. Eu não sentia o meu corpo, e então, tudo o que eu pensei foi que havia uma única opção: eu estava morta. Queria ter conseguido mover as mãos e tocar meu próprio corpo, mas eu não conseguia. O cérebro não respondia mais aos estímulos, e de tal maneira, não me restou dúvida alguma: eu estava realmente morta.
Tudo o que se passou até que ele ligasse novamente o carro e andássemos mais alguns metros, pra longe daquele ônibus e de todo o horror daquela circunstância, fica embaçado na minha mente, como se não tivesse existido. Sei que só quando senti que alguma coisa se movimentava, é que eu consegui também mexer minhas mãos e de forma insana eu apalpava minhas pernas e braços, e olhava para a falange dos meus dedos, me perguntando pelo sangue e pela dor. Não havia nada.
Olhei pra ele e ele estava chorando. Minha normatividade nesse tipo de situação é perguntar o porquê das lágrimas, mas dessa vez fiz outra pergunta. Eu apenas questionei se eu estava de fato viva, e ele disse que ao que parecia, sim.  E aparentemente, era verdade. Eu estava viva e um pouco em estado de choque. Assim, também em questão de poucos minutos eu senti vontade de chorar e de rir compulsivamente; de mandar todas as pessoas que eu odeio à merda e de abraçar todas as pessoas que eu amo. Senti vontade também de ter morrido e podido reencontrar o meu cachorro, que partira do mundo no sábado anterior.

O que posso dizer é que mesmo diante do portão da minha casa, ainda dentro do carro, eu não sabia se estava viva ou morta. Foi um estado de suspensão. Por um lado, eu estava ao lado de alguém que conheço há anos, e ele era uma garantia de que eu estava salvaguardada e de que o pior havia passado. Por outro, ele também estava dentro daquele carro, e também poderia ter morrido. Podíamos, portanto, estar os dois mortos e em outro plano. Afinal, quem escapa por um milímetro de um acidente com um ônibus? Ninguém. Muito menos dois ateus, sarcásticos e cínicos como nós.
Saltei do carro me despedindo e fiz o pedido mais idiota que poderia fazer. Perguntei se ele poderia me enviar uma mensagem quando chegasse em casa. A razão: pessoas mortas não recebem sms, e eu não poderia ler algo tão concreto em um celular. Pessoas mortas não tem celulares!
Mas mesmo a mensagem tendo chegado em pouco mais de trinta minutos, eu ainda não me convenci de que estou viva. Eu ainda sequer me convenci de que tudo isso de fato aconteceu. É como se uma parte inventiva do meu inconsciente tivesse impulsionado tudo isso, com a finalidade única de me fazer passar um tempo presa nessa realidade onde o céu de baunilha é mais próximo do chão do que aquele acidente esteve próximo do tangível.

Fui sugestionada a reconstituir tudo isso para concluir que em alguma dimensão eu morri. Morri ao lado de um dos meus melhores amigos, de forma que seremos pra sempre nessa dimensão uma estagiária depressiva e um escriturário de banco.
Também concluí que em algum lugar, eu nunca estive estudando antropologia, porque estava sim bebendo e lendo sobre as feridas abertas da pátria grande, e por consequência, do meu próprio ego.
Encontrei a força motriz para compreender a lei universal que inspirado por Saussure, buscava o velho Claude: os homens são arbitrariamente obrigados a se verem diante do inexistente, do inconstante. A vida e a morte são um meio fio entre o nunca e o agora, e um desafio arriscado que te obriga a ver que nada é findável, tampouco infinito.
Passei a linha tênue entre querer compreender o mundo ou vive-lo. Essa é a única ciência do concreto.

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Primeiro Conto

Sentindo que acordaria naquela manhã perdida como de costume, cerrei meus olhos, e por mais que eles quisessem se abrir, eu insisti em não permitir. Não sei precisar o tempo que passei deitada no chão da sala, me encolhendo entre os muitos cacos de toda a louça que quebrei na noite anterior. Sei que gastei todo esse tempo pensando em teu rosto.

Não sabia se estaríamos juntos ou não, visto que a solidão sempre foi aquilo o que nos unia. Todos os meus medos estavam lá, mas com os olhos fechados eu não os via. Todas as lágrimas estavam lá, mas com a dor latente causada pelos profundos cortes que fiz rolando a noite toda entre os pedaços da porcelana, eu não as sentia. Tudo estava quieto, e a vida deveria continuar a passar, tudo deveria ser bonito como um dia foi o meu rosto no espelho. Mas a nossa história estava à sombra disso: Tudo é beleza e completude, exceto nós.

Eu poderia ter explorado a minha capacidade de amar, mas como sou às avessas, quis vingança. Eu gostaria imensamente de ter aprendido a usar minha beleza a meu favor, mas como sempre, disse demais. O espelho do nosso quarto estava quebrado, como tudo naquela casa e como nós dois. Ainda assim, me dirigi até ele e toquei meu reflexo. Olhei no fundo dos meus próprios olhos. Meus olhos… Eles haviam me ludibriado! Eu tinha os olhos mais bonitos de todo o mundo. Mas onde antes estava a minha força, eu só encontrei o delírio.

Vendo a minha própria imagem, eu não pude mais enganar minha percepção: senti as lágrimas caindo sobre minha boca. Senti o gosto do sal quando eu queria ter sentido o teu gosto. Eu me enganei. Eu vi em ti o desejo, quando em ti só havia o medo e a solidão. Eu queria fugir, mas não havia lugar que me abrigasse. Agora que o barulho se foi, não havia mais nada. Não havia mais medo e não havia mais razão para lágrimas: só havia o silêncio.

Ganhei algum tempo para limpar toda a sujeira que havia feito. Todo o vidro misturado aos minúsculos pedaços de papéis e fotos que passei a noite toda rasgando minuciosamente e espalhando por todos os cômodos. Peguei o seu revólver. 9mm, e você sempre dizia “Esta arma, minha pequena, é capaz de fazer um buraco enorme no coração de um homem, como você faz.” Talvez você estivesse errado sobre a maneira como o sexo oposto me vê. Mas estava completamente certo sobre o estrago que uma arma deste porte faz.

Todos dizem que na hora da morte você vê sua vida passar atrás de seus olhos. Isso é mentira. Se a sua vida tivesse passado atrás dos olhos teus, eu também teria visto. Mas a única coisa que vi no seu olhar, foi o arrependimento por nunca ter me amado.

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1998

Talvez dizer que gostaria de esquecer o passado fosse um exagero, mesmo naquele momento tão incerto em uma vida que o tempo todo tinha sido escrita sobre pautas. Era uma projeção daquilo que estava a um passo atrás, não havia maneira de negar-se. Não queria esquecer. Só queria não ter que se lembrar.

Estava esperando pelo momento de fazer o que era necessário, embora soubesse que esse momento não chegaria como versam as providências divinas. Oh, céus, mais esse fardo: saber que não há um deus nos vigiando torna tudo ao mesmo tempo mais permissivo e mais impreciso. É a dor de ver-se como parte de um plano cartesiano entre felicidade e vazio.

Só queria balbuciar algumas palavras, que embora poucas, seriam capazes de desfazer a nódoa de sua garganta, de desmistificar o engodo que pairava sob sua cabeça e de lhe retirar o fardo dos ombros. Como se em um simples ato cotidiano e cercado de simplicidades banais, pudesse resolver todos os problemas que os séculos de humanidade sequer chegaram perto de solucionar.

Era apenas um homem, um acumulado de experiências. Mil obras não diriam nada, todos os amigos nada seriam capazes de representar. Era apenas um homem rodeado de sua consciência – hora ingrata, hora conformista. Nada lhe sugeria signos de virtude ou progresso, mas apenas de acúmulo inútil de conhecimentos perpassados. Concluiu: tudo é um legado de possibilidades e nada é mais silencioso, mortal e sublime que o afago tranquilo de pensar por si próprio.

Não esqueceu. Não fez. Não disse. Perpassou. Retribuiu. Finalizou. Deixou-se. E foi…

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