Tag Archives: beauvoir

A gente não sabe militar

Uma garota branca, cissexual e moradora do estado mais rico da federação acha por bem criar uma página denominada “Feminismo de Redes Sociais”, na qual busca denegrir a imagem de um movimento que vem se construindo e superando barreiras. Deliberadamente, faz chacota envolvendo a sociedade patriarcal e sexismo, como se as militantes feministas fossem loucas, histéricas e exageradas.
Nada consta de novo nessa perspectiva, que é um clássico revisto do machismo tátil da sociedade. Mas algo ainda me surpreende: na descrição da página, a frase “nada contra o verdadeiro feminismo” salta à minha percepção. É claro, quem além de alguém que claramente nunca pesquisou sobre o tema, e que sequer se sente oprimido por estar imerso em um mundo cômodo de privilégios, poderia nos contar o que é o verdadeiro feminismo? A pretensão teórica, sociológica e política que tal frase carrega é uma insígnia de desconhecimento e não de desonestidade intelectual.

Concomitantemente, surge na minha timeline um colega de faculdade bradando contra os camaradas que compartilhavam em tempo real, imagens da Aldeia Maracanã e dos protestos em prol dos indígenas, expulsos de suas terras para a construção da Copa do Mundo de 2014.
O escrito dizia que nós, mulheres e homens da cidade grande, deveríamos nos preocupar com os bolivianos presos em trabalhos escravos, costurando para grandes marcas como Zara ou Marisa, e não com os índios, distante realidade.
Dessa vez, a contradição histórica exposta não é só desonesta, como reflete uma sugestão implícita: escolha um único tema e milite por ele. Porque é claro, lutar pelos índios te impede em completo de ser a favor da liberdade de bolivianos, você não sabia? (ative o alarme da ironia, por favor)
Mais uma vez, temos aqui uma falácia. Quem escolhe porquê e quando militar é o indivíduo, sujeito histórico imerso em seu tempo. E facilmente digo: quem detém o privilégio se mostra pífio quando tenta calar o oprimido.

Ainda no tema, venho relembrar o desfile de Ronaldo Fraga. Palha de aço na cabeça de modelos, em sua maioria brancas, e para o estilista, temos uma homenagem aos negros. Os negros não gostam dessa homenagem. Os negros se sentem ofendidos e eles tem licença para tal, porque qualquer pessoa tem, e com minorias não é diferente.
Mas a Revista Marie Claire não gosta que os negros não tratem como homenagem um ato que repete visualmente a ofensa que eles tem ouvido ao longo de toda a vida. E a revista, com seu público branco da classe média, resolve defender Fraga. Publica então que o movimento negro – movimento de lutas, de conquistas, de vitórias – cochilou durante todos esses anos em que modelos brancas estiveram nas passarelas. Como se o fato de elas estarem na passarela com bom-bril nos cabelos limasse o fato de elas estarem lá, e como se toda a luta para que os negros pudessem ocupar espaços antes meramente brancos (inclusive a moda!) não estivesse em curso há décadas e adivinhem: exatamente agora!

Essa é a realidade: nós não sabemos militar. Nós não existimos.
Porque as minorias são ridicularizadas pelos “verdadeiros revolucionários”. Porque não basta não concordar, não basta refutar no nível das ideias. É necessário ridicularizar, é necessário ofender, é necessário fazer chacota.
Porque não é suficiente estabelecer considerações e contradizer argumentos. É necessário decidir pelo que, quando e quem pode defender algo.
Rever estruturas incomoda. Mexer no status quo deixa os brios em polvorosa. Mas o meu consolo vem na reflexão: a qualidade dessas declarações é tão fugaz quanto os privilégios: passa, se realoca e basta um pouco de conhecimento histórico para torná-los mentira e reduzi-los a pó.

A nós, mulheres, negros, índios e privilegiados em busca de um mundo sem privilégios, resta a luta. Porque ninguém decide por ninguém e não perco a chance de citar Beauvoir: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.”Imagem

Com as etiquetas , , , , , ,