Memorável

O sol ia se pondo atrás do mar, e o céu se transmudava na mescla de tons de azul e laranja que logo virariam constelações a te observar. Seus passos tímidos brincavam com a água salgada que a maré trazia até os nossos pés.
O que era claro e se transformava em escuridão estava apenas no exterior. Aqui dentro, o processo inverso – aguardado em silêncio ao longo de tanto tempo – já se dava: toda a escuridão se clareava e toda a quietude se fazia em palavras. Quando alguém sorri com os olhos, o mundo sorri com a lua cheia e a vida parece indubitavelmente bonita.
A imensidão de todas as coisas que nos cercavam não era maior do que o infinito daquilo que sentíamos. E entre as risadas infantis que arrancamos um do outro e a seriedade dos assuntos sobre nossas vidas, sempre há de pairar a sensação de que pouco (ou nada) importa se estamos falando sobre Marx ou Proudhon, sobre ir pra Montevidéu ou estudar na Europa, sobre o passado enorme que ficou na memória ou o futuro que pretendemos compartilhar. Sempre prevalecerá a sensação de que os gestos dizem todo o essencial e a verborragia de taberna das nossas conversas é apenas pretexto para fazer a caminhada maior e o toque das mãos mais duradouro.
Nós caminhamos pela orla o máximo que pudemos e os fogos de ano novo brilharam no céu. O fim de algo é inevitavelmente o começo do novo, e entre tantas idas, vindas, perdas e dores, restamos eu e você, como sempre e para sempre – assim como me dissestes enquanto eu me perdia no seu abraço. A propósito, não tenho certeza se de fato ouvi essas palavras, ou apenas senti o que você pensava. Sei que o meu lugar está posto e confortavelmente nos espalhamos no espaço que a vida reservou pra assistir a eternidade gostar de nós dois.

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Obrigada, 2012

Toda proporcionalidade é demonstrada nos ciclos de vivência. 2011 fora um ano incrível, portanto, já era de se esperar que 2012 fosse ruim.
Foram três meses sem emprego, cinco meses sem aula. Perdi minha avó, o meu cachorro e um colega de faculdade em menos de 60 dias. Terminei um namoro de dois anos em uma tarde. Números, dias, horas… que eu não esquecerei. Palavras que vão ficar ecoando por sabe-se lá quantos anos aqui dentro da minha mente.
Além, é claro, das promessas que eu fiz e não vou poder cumprir e das juras que me fizeram, mas humanamente não puderam se tornar reais. Não vou chorar. Nada disso foi em essência mau. Tudo foi extremamente agregador, desde que parei de encarar a vida como algo potencialmente triste. A vida é uma chance única pra aprender com erros, já que estes são inevitáveis. É uma chance única de aprender com as perdas, já que essas independem da nossa vontade – e assim, é uma chance de aprender que nem tudo o que não é exatamente a nossa maneira, é terrivelmente cruel.
Com os três meses sem trabalho, aprendi a valorizar cada dia de suor. Com os cinco meses sem aula, aprendi a valorizar cada segundo dentro da universidade. Eram coisas que antes eu desprezava, talvez por serem corriqueiras. Mas entendi que mesmo quando fui demitida e chutada como um cão, eu estava crescendo. Que mesmo quando eu chorei por quase cinco horas sem parar por ter errado nas minhas perspectivas políticas, eu estava crescendo. O que importa? As pessoas que trabalharam comigo puderam dividir o seu cotidiano ao meu lado, e isso é por excelência lindo. Os que firmaram alianças de greve comigo me renderam a chance de ouvir coisas que eu jamais tinha pensado e de criar uma malícia de quem já viu a humanidade de perto ao menos uma vez. Permanecem eternizados, mesmo que na memória. Ocupam um espaço que está cristalizado e flutuam nas lembranças elegivelmente boas, junto com minha avó, meu cachorro, o colega de faculdade e o ex namorado.
2012 foi um ano de respeito. Eu me respeito muito mais do que me respeitava quando pensava que o significado de dar-se ao respeito era sentar de pernas fechadas e mentir o número de homens que tive na cama. Eu me respeito porque todo dia de manhã eu tenho a responsabilidade de pagar as minhas próprias contas, de galgar meus próprios degraus, de vencer minhas próprias limitações. E não estou mais potencialmente suicida por isso. Estou feliz.
Descobri, assim, que viver e morrer são dois lados de uma mesma coisa. Os ganhos são advindos do que se vai e já que o que mais prezo é a liberdade, existe uma beleza especial em deixar ir para ver chegar. Existe alegria e força em saber perder, em não achar que merece tudo, em não querer segurar o mundo sobre os próprios ombros.
E dentro destes dias datados com o número doze ao final, houve toda a sinceridade possível e cabível, todo o esforço e dedicação, toda a vitalidade e a renovação. Não vou me queixar, apenas agradecer. Obrigada, 2012. Quem eu seria sem tudo isso além de a mesma adolescente idiota dos anos de colégio? Bem vindo, 2013. Cada dia será lucubrado com o peso de quem já muito sabe, muito viu e nada pretende (além é claro, de receber todas as dádivas do destino iluminado por cada raio de sol e gota de chuva em cada manhã).

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A morte, a fugacidade e a antropologia

Passei o dia dentro daquela repartição claustrofóbica, ouvindo as reclamações que não me convém e bebendo o café preto, forte e amargo que servem na copa. Logo pela manhã, dizia à minha colega que eu acredito na existência de diversas dimensões que dividem tempo/espaço de forma desigual, fazendo com que passemos por diferentes experiências em uma única vida, sem que isso chegue ao nosso conhecimento e perpasse a nossa memória.
O que eu pretendia com isso às dez da manhã de uma inconveniente quarta-feira ensolarada, era repetir como um mantra mental que algum lugar da existência me reservava um espaço melhor na colocação do status social, onde eu estaria sentada sobre as pedras de uma praia deserta, curiosamente experimentando um drink de rum e pêssego e lendo Eduardo Galeano.

Na cidade ao lado, quase conurbada pela grande metrópole paulista, ele devia estar chegando ao trabalho e colocando sua gravata amarela de atendimento.  Algum inconveniente deveria estar por se suceder – porque essa é a rotina de pessoas que trabalham com as piores coisas do mundo: gente e dinheiro.  Acho que ao contrário de mim, não bebia café. Talvez água, pra esquecer que a imbecilidade das formalidades humanas lhe obrigava a trabalhar de terno em um calor de quase quarenta graus.
Jamais poderei dizer o que ele pensou ou disse nas horas que se estenderam nesse dia tão impreciso, mas estou certa de que nada do que tenha proferido seria o suficiente, se ele soubesse – como eu também não sabia – a forma esdrúxula como nossa existência seria encaminhada ao incerto nos próximos momentos.

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Do outro lado da tela, alguém me importunava com inconvenientes que não me interessam, e eu me sentia empapuçada, exausta, desgostosa. Queria findar a conversa lamentável que decorria, e para isso, fechei os programas abertos, peguei meu livro: “Ah, mas que droga de vida! Eu não vou entender Lévi-Strauss nem em uma vida, quanto mais em um dia!”
Meu telefone tocou. Do outro lado da linha, ele me fez o convite que qualquer pessoa faria às vésperas de uma prova sobre a escola antropológica estruturalista: “Você quer estudar comigo?”
Olhei o relógio. Dezessete horas e eu não tinha lido nem a metade das páginas que deveria ler. Olhei a tela. Eu não tinha escrito nem a metade dos argumentos que poderia usar naquela discussão.  Não me restaram dúvidas: “Sim, eu quero.”

Depois de empenharmos alguns esforços em conjuntamente ler aquela coisa maçante e cheia de termos em francês, apreendemos finalmente a busca pela lei universal das culturas. E eu ainda tive tempo pra brevemente pensar que isso era uma coisa idiota.  “O que pode ser universal?”  – pensava eu.
Entrei no carro. Ele dirigia do único jeito que sabe: com a mão esquerda no volante, e a direita sobre a perna. No rádio, o jogo do nosso São Paulo pela Sulamericana nos manteve em silêncio por boa parte do caminho. É necessário atenção quando o seu time joga, e o dobro de atenção quando o seu time joga uma competição latino americana. Essa regra aprendi com o meu pai desde cedo. O locutor disse em um tom de voz jocoso “O São Paulo Futebol Clube vem se esforçando para perder esse jogo tão simples, não acha?” – “Sim, eu acho!” ele disse, usando um tom de voz ainda mais irônico. Nós sorrimos.
O calor tinha se condensado em uma chuva torrencial, e todo o escaldante tom amarelo do sol tinha se transformado em cinza e em poças. Os semáforos da avenida que me traz até em casa estavam quebrados. Ainda estávamos sorrindo.
No instinto idiota que nos faz agir como se fossemos nós o próprio motorista, nos tornando copilotos de quem faz tal proeza melhor que nós, olhei os dois lados do cruzamento. Olhamos, melhor dizendo. Nada. Ele pisou no acelerador e de repente, eu só vi a luz. Quando você está prestes a ser esmagada por ônibus, posso lhes assegurar: a luz dos faróis é a representação exata, contundente e lúdica do fim da vida.
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Não sei direito quanto tempo se passou. Talvez nenhum segundo completo, apenas milésimos de. Mas foi como se eu tivesse visto ao mesmo tempo, toda a vida que eu gostaria de ter vivido, e toda a vida que eu tive. Consegui também de súbito cerrar os olhos em um instinto que me dizia que se eu não enxergasse, não morreria. Tudo parou de se mover, inclusive eu.
Forçosamente, levantei as pálpebras. Eu não sentia o meu corpo, e então, tudo o que eu pensei foi que havia uma única opção: eu estava morta. Queria ter conseguido mover as mãos e tocar meu próprio corpo, mas eu não conseguia. O cérebro não respondia mais aos estímulos, e de tal maneira, não me restou dúvida alguma: eu estava realmente morta.
Tudo o que se passou até que ele ligasse novamente o carro e andássemos mais alguns metros, pra longe daquele ônibus e de todo o horror daquela circunstância, fica embaçado na minha mente, como se não tivesse existido. Sei que só quando senti que alguma coisa se movimentava, é que eu consegui também mexer minhas mãos e de forma insana eu apalpava minhas pernas e braços, e olhava para a falange dos meus dedos, me perguntando pelo sangue e pela dor. Não havia nada.
Olhei pra ele e ele estava chorando. Minha normatividade nesse tipo de situação é perguntar o porquê das lágrimas, mas dessa vez fiz outra pergunta. Eu apenas questionei se eu estava de fato viva, e ele disse que ao que parecia, sim.  E aparentemente, era verdade. Eu estava viva e um pouco em estado de choque. Assim, também em questão de poucos minutos eu senti vontade de chorar e de rir compulsivamente; de mandar todas as pessoas que eu odeio à merda e de abraçar todas as pessoas que eu amo. Senti vontade também de ter morrido e podido reencontrar o meu cachorro, que partira do mundo no sábado anterior.

O que posso dizer é que mesmo diante do portão da minha casa, ainda dentro do carro, eu não sabia se estava viva ou morta. Foi um estado de suspensão. Por um lado, eu estava ao lado de alguém que conheço há anos, e ele era uma garantia de que eu estava salvaguardada e de que o pior havia passado. Por outro, ele também estava dentro daquele carro, e também poderia ter morrido. Podíamos, portanto, estar os dois mortos e em outro plano. Afinal, quem escapa por um milímetro de um acidente com um ônibus? Ninguém. Muito menos dois ateus, sarcásticos e cínicos como nós.
Saltei do carro me despedindo e fiz o pedido mais idiota que poderia fazer. Perguntei se ele poderia me enviar uma mensagem quando chegasse em casa. A razão: pessoas mortas não recebem sms, e eu não poderia ler algo tão concreto em um celular. Pessoas mortas não tem celulares!
Mas mesmo a mensagem tendo chegado em pouco mais de trinta minutos, eu ainda não me convenci de que estou viva. Eu ainda sequer me convenci de que tudo isso de fato aconteceu. É como se uma parte inventiva do meu inconsciente tivesse impulsionado tudo isso, com a finalidade única de me fazer passar um tempo presa nessa realidade onde o céu de baunilha é mais próximo do chão do que aquele acidente esteve próximo do tangível.

Fui sugestionada a reconstituir tudo isso para concluir que em alguma dimensão eu morri. Morri ao lado de um dos meus melhores amigos, de forma que seremos pra sempre nessa dimensão uma estagiária depressiva e um escriturário de banco.
Também concluí que em algum lugar, eu nunca estive estudando antropologia, porque estava sim bebendo e lendo sobre as feridas abertas da pátria grande, e por consequência, do meu próprio ego.
Encontrei a força motriz para compreender a lei universal que inspirado por Saussure, buscava o velho Claude: os homens são arbitrariamente obrigados a se verem diante do inexistente, do inconstante. A vida e a morte são um meio fio entre o nunca e o agora, e um desafio arriscado que te obriga a ver que nada é findável, tampouco infinito.
Passei a linha tênue entre querer compreender o mundo ou vive-lo. Essa é a única ciência do concreto.

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NÓS NÃO NOS CALAMOS: O MACHISMO NÃO PASSOU

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Esse é só um agradecimento. Um jeito de dizer muito obrigada pelo barulho que todos os setores acadêmicos nos ajudaram a fazer. Foi muito bonito e extremamente agregador ver gente de todos os tipos de pensamento político se unir pra gritar que “a luta é todo dia, contra o machismo, racismo e homofobia”.
Obrigada pelo papel de cada um no debate, na confecção dos cartazes e no batuque encantador que rolou durante a marcha. “Olha a Geni na pista, não pense com a sua pica, não pense com a sua pica, não precisa ser viril: cem por cento desse mundo foi as puta que pariu.”
E essa é história do dia em que o machismo não passou.

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Diálogo dessa madrugada

“A única coisa que vale a pena lutar é por si mesmo. Pelo resto, não. O resto – a palavra já diz tudo – é resto. Ninguém entende os nossos anseios, os nossos desejos. Para que, então, lutar por eles? A passividade prova a luta vã que é esta. A chance de você perder integridade física é grande… e a troco de que? Será que ela faria isto por você? Não que isto conte alguma coisa… mas, é algo pra se pensar um minuto.”

“Eu não espero a retribuição. Isso é até estranho pra mim. Ter esse tipo de interesse…
Queria parar mesmo de expor os meus anseios e de colocar a voz pra fora. Me sinto mal com esse meu jeito impulsivo de ser, e completamente compreendo a sua fala.
Só fico em dúvida com essa sua frase, sobre lutar por si mesmo. Tá…e pra que fazemos Ciências Sociais, então? Produzimos uma ciência que se propõe sugerir rumos sociais. Não é possível que esses rumos sejam regidos pelo nosso interesse único em nós mesmos. Ou é?”

“ Por isto que me “arrependo” de não ter feito filosofia. Ao meu ver, toda a luta por povos se mostra superficial e arrogante: o que sabemos, realmente, dos anseios da nação? Não estaríamos fazendo o papel de “Deus” tentando salvar o mundo? Aliás, quantos seres humanos sabem realmente daquilo que lhe é ausente? O que cada um realmente acredita e quer para si? O que eu quero para mim de verdade e o que você quer para si? Respondendo por mim, tenho apenas vinte anos e ainda não sei ao certo o que quero. Como eu, alguém que não sabe o que quer de verdade, pode responder aos anseios de uma massa? Por isso que o lutar por si mesmo me parece algo sensato, mas não menos trabalhoso do que o nosso curso propõe a fazer. Não se sinta mal. Pense que a maior revolução que você pode fazer é a revolução dentro de si. Talvez, comentando sobre os interesses… que toda a nossa história tenha sido feita por homens vaidosos. Vendo por mim, a minha vaidade é conseguir respeito. Uns querem dinheiro, outros outras coisas… eu quero respeito. É o preço de minha vaidade. Acho que é comum ao ser humano ter; só que uns descobrem e outros não.”

“Analisando a sua fala, só posso crer que você propõe uma normatividade social de indivíduos silenciosos. Não sei se isso seria bom ou ruim, porque nem vinte anos eu tenho ainda, e nisso estamos de acordo – ninguém tem certeza do que quer pra sempre nem aos vinte e nem nunca dessa vida.
Mas é impossível passar incólume pelas forças que agem externamente a nossa vivência pessoal. Os homens vaidosos (também estou de acordo em relação a isso) que construíram a história escravizaram outros homens para manter sua vaidade e para legitimar suas atitudes. Os homens vaidosos que construíram a história subjugaram todo um gênero aos seus postulados, e dessa forma, continuamos vivendo sob premissas que não foram construídas por nós, mas que moldam nossos caráteres, nossos desejos. A partir do momento em que você começa a se emancipar, a fugir do senso-comum, simplesmente descobre que é fruto de uma imersão, de um repasse de valores. A maior revolução então é dentro de si mesmo – mas quais os motivos para não externalizar essa revolução? Não estou dizendo que os meus axiomas são verdades universais. Mas são as minhas verdades. E me furtar ao debate, é me furtar a dizer que acredito na possibilidade de uma mudança, e de uma mudança positiva.
Já disse inúmeras vezes que detesto quando colocam a sociedade, ou qualquer indivíduo/entidade no papel de deus. Estou convicta da não-necessidade de deuses ou líderes para conduzir qualquer tipo de necessidade coletiva. O que penso é que a convivência produz, indubitavelmente e incontestavelmente, sensações comuns aos seres enquadrados em um modelo. E se esse modelo nunca é questionado, não há história, não há filosofia e não há progresso humano. Eu apenas me proponho a questionar. Se o que digo será aceito ou não, só o debate e o tempo dirão.
Não tenho dúvidas de que o meu anseio (mesmo que oculto por vezes) ao me expor dessa forma, é construir parte da história. Sou uma mulher com uma vaidade também: a liberdade. É essa vaidade que me impede de calar-me.”

“Nossa, bonito o que você escreveu.”

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A SOCIEDADE NÃO QUER HOMEM QUE BATE EM MULHER

À Universidade Federal de São Paulo
seus gestores e corpo estudantil:

Na última sexta-feira, nosso campus acadêmico pode presenciar um dos acontecimentos mais lamentáveis e dignos de repúdio já presenciados. Um de seus discentes agrediu a colega de graduação, com quem tivera um relacionamento no passado. Presentes no recinto, alguns guardas, contratados teoricamente para assegurar fisicamente os alunos que convivem naquele espaço, nada fizeram. Outros colegas que assistiram a deplorável cena tentaram auxiliar, afastando os envolvidos.
Não me contento em perpassar esse breve relato sobre a cena, que não presenciei pessoalmente, mas a qual me foi contada pela própria vítima, minha amiga pessoal. Quero expressar aqui, minha indignação imensurável perante os que estiveram presentes durante todo o ocorrido e não se dignificaram a auxiliá-la antes que ela pudesse sofrer flagelo – ou seja, presenciaram a violência verbal, as palavras ofensivas e machistas proferidas pelo rapaz e continuaram imóveis. Venho relembrar um antigo grito utilizado pelas feministas: “em briga de marido e mulher, se mete a colher”. Digo isso, pois tenho convicção de que toda a sociedade deve se responsabilizar pelas desigualdades que carrega, já que estas são produzidas por todos nós. Portanto, tratemos de nos indignar, tratemos de ver que isso não é normal e de carregarmos conosco a possibilidade de mudar essa triste realidade através de nossas atitudes e do repúdio à violência e discriminação, incluindo quando esses engodos são ligados ao gênero.
O envolvimento intrínseco que temos todos nós com esse caso, se dá por alguns fatos que pontuarei a seguir:
Primeiramente, gostaria de relembrar essencialmente aos graduandos um episódio ocorrido durante nosso tenso período de greve. Lembram-se da aluna que foi chamada de ‘vadia’ por um membro da Associação Atlética Unifesp Guarulhos? Durante esse tempo, vi incontáveis manifestações sobre o assunto e propostas de linchamento público estavam inclusas. Embora eu tenha sido contra tais proposições, não fui complacente com a atitude e sugeri que os poderes públicos fossem envolvidos para que a lei resolvesse a questão. Pois bem, não sei dizer se isso foi feito. Mas o que quero dizer relembrando esse caso, é que os grupos de esquerda souberam se organizar e demonstrar suas posições de repúdio ao machismo. Questiono: onde estão estas pessoas agora que o agressor é parte do próprio movimento estudantil e fez parte da greve supracitada? Gostaria, sinceramente, que esse silêncio fúnebre que se encontra entre nós desde o ocorrido fosse quebrado. Não existe companheiro que bate em mulher. O machista de esquerda, direita, centro e o apolítico são absolutamente a mesma coisa. Apelo para a não omissão de cada organização presente no seio de nossa autonomia estudantil.
Agora, quero dirigir-me à gestão desta universidade. A questão que relatei aqui aconteceu dentro do campus, no espaço público federal onde estudamos. Isso não pode ser tratado como um problema pessoal da vítima, principalmente tendo em vista as afirmações de que o agressor tem problemas psicológicos que necessitam de tratamento. A universidade tem uma Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE). Pois bem, este é um assunto estudantil delicadíssimo, que envolve traumas e dissonâncias, e creio que essa instância deve apurar o ocorrido e oferecer segurança institucional para sua aluna agredida. Aluna esta, que lembro aos senhores, produz ciência por esta instituição. Portanto, os vínculos acadêmicos dos envolvidos não podem ser ignorados, de modo que aguardo ansiosamente pelo processo de sindicância e pela resposta oferecida pela Unifesp, que não pode simplesmente obrigar uma mulher agredida a conviver com seu agressor. Ressalto, para que não repitam o argumento, que a justiça utilizada por todos os civis será também acionada nesse caso. O que quero dizer quando peço a intervenção da Universidade Federal de São Paulo, é que essa instituição está indissoluvelmente ligada com essa questão, já que a mesma ocorreu dentro do campus e sob os olhos de todos nós. Quando janelas são quebradas, alunos sofrem sindicância. Quando mulheres apanham, nada se passa?
Por fim, pontuo os meus motivos e minha ideologia, que fazem essa carta ser redigida:
Quando uma mulher é agredida, eu também sou agredida. Quando uma mulher é violentada, eu também sou violentada. Todas as mulheres são.
Então não vou me calar, porque quando a lei nada oferece a essa mulher, a lei garante que nada oferecerá para mim. E defendo a ideia de que quando a instituição onde estão inseridos vítima e agressor não toma partido em favor do oprimido, ela legitima a violência que ocorre sob o seu teto – ela está sendo conivente, omissa – e com efeito, pífia. Uma universidade é espaço de emancipação. Negar a violência e lutar contra a mesma é o maior ato de emancipação e autonomia que conheço.
Nada justifica a agressão, a violência de gênero, a desforra. Não é distúrbio psicológico algum, ou o álcool, ou qualquer entorpecente que há de justificar que uma mulher tenha cerceado seu direito de ir e vir, que continue a sofrer a violência histórica que se estende desde tempos imemoriais. Nada é capaz de tornar isso plausível. Mas isso se torna essencialmente inaceitável em um espaço de produção do conhecimento, um espaço que deve questionar o status quo e prezar pela primazia do diálogo e pelo poder das ideias.
Não vou me cegar, não vou silenciar. Previamente digo que eu vou incomodar todos vocês que viram e nada fizeram. Vou incomodar todos vocês que permanecem em silêncio, que negam a justiça e o direito de manifestação. Vou incomodar, beirar a inconveniência com todos vocês que compõe essa instituição, sua burocracia e seu corpo acadêmico, e que nada estão fazendo para mobilizar suas instâncias em favor de uma causa que grita ao mundo a necessidade de libertação de todo um gênero.
Não há persona que possa se enquadrar fora do estigma de machista quando está reproduzindo a cultura do patriarcado. O rótulo de estudante nesse caso, vale menos que as desculpas escusas usadas de forma tacanha pelas supracitadas pessoas e órgãos, para tentar nos calar.
Por fim, convoco a todos que estão realizando essa leitura: somos muitos, inúmeros. Vamos nos fazer companhia, vamos mostrar que somos coesos. – MEXEM COM UMA, MEXEM COM TODXS! E se a UNIFESP não nos amparar, e se os ‘companheiros libertários’ tentarem tampar nossas vozes em nome de uma unidade no movimento estudantil, não vamos aceitar, não vamos nos omitir. Essa é a nossa causa, e nós somos a frente, a base e o coração dela. SOMOS TODXS KATHLEEN! Vamos fazer um barulho intenso que venha a incomodar e expulsar os agressores e seus convivas. Costumo dizer “mulher, não se cale”. Desta vez vou fazer melhor: comunidade acadêmica: NÃO SE CALE.


Viviane Sanchez
Universidade Federal de São Paulo
Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Ciências Sociais, 3º termo

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Primeiro Conto

Sentindo que acordaria naquela manhã perdida como de costume, cerrei meus olhos, e por mais que eles quisessem se abrir, eu insisti em não permitir. Não sei precisar o tempo que passei deitada no chão da sala, me encolhendo entre os muitos cacos de toda a louça que quebrei na noite anterior. Sei que gastei todo esse tempo pensando em teu rosto.

Não sabia se estaríamos juntos ou não, visto que a solidão sempre foi aquilo o que nos unia. Todos os meus medos estavam lá, mas com os olhos fechados eu não os via. Todas as lágrimas estavam lá, mas com a dor latente causada pelos profundos cortes que fiz rolando a noite toda entre os pedaços da porcelana, eu não as sentia. Tudo estava quieto, e a vida deveria continuar a passar, tudo deveria ser bonito como um dia foi o meu rosto no espelho. Mas a nossa história estava à sombra disso: Tudo é beleza e completude, exceto nós.

Eu poderia ter explorado a minha capacidade de amar, mas como sou às avessas, quis vingança. Eu gostaria imensamente de ter aprendido a usar minha beleza a meu favor, mas como sempre, disse demais. O espelho do nosso quarto estava quebrado, como tudo naquela casa e como nós dois. Ainda assim, me dirigi até ele e toquei meu reflexo. Olhei no fundo dos meus próprios olhos. Meus olhos… Eles haviam me ludibriado! Eu tinha os olhos mais bonitos de todo o mundo. Mas onde antes estava a minha força, eu só encontrei o delírio.

Vendo a minha própria imagem, eu não pude mais enganar minha percepção: senti as lágrimas caindo sobre minha boca. Senti o gosto do sal quando eu queria ter sentido o teu gosto. Eu me enganei. Eu vi em ti o desejo, quando em ti só havia o medo e a solidão. Eu queria fugir, mas não havia lugar que me abrigasse. Agora que o barulho se foi, não havia mais nada. Não havia mais medo e não havia mais razão para lágrimas: só havia o silêncio.

Ganhei algum tempo para limpar toda a sujeira que havia feito. Todo o vidro misturado aos minúsculos pedaços de papéis e fotos que passei a noite toda rasgando minuciosamente e espalhando por todos os cômodos. Peguei o seu revólver. 9mm, e você sempre dizia “Esta arma, minha pequena, é capaz de fazer um buraco enorme no coração de um homem, como você faz.” Talvez você estivesse errado sobre a maneira como o sexo oposto me vê. Mas estava completamente certo sobre o estrago que uma arma deste porte faz.

Todos dizem que na hora da morte você vê sua vida passar atrás de seus olhos. Isso é mentira. Se a sua vida tivesse passado atrás dos olhos teus, eu também teria visto. Mas a única coisa que vi no seu olhar, foi o arrependimento por nunca ter me amado.

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Considerações sobre o Governo Representativo: autogoverno e classes sociais para John Stuart Mill

John Stuart Mill, utilitarista inglês, visava assim como os demais admiradores de Jeremy Bentham, tencionar uma ideologia capaz de introduzir – com efeito – a maior quantidade de felicidade para o maior número de pessoas. Para tal finalidade, à pluralidade da sociedade-civil é atribuída grande consideração positiva, tomando por princípio a liberdade (sobretudo a de expressão) e a diversidade política como direitos por excelência de um governo com funcionamento exemplar.

Portanto, em Considerações Sobre o Governo Representativo (1861), Mill trabalha com a perspectiva de que não cabe ao Estado delegar um axioma de modus operandi para a vida social, pois é tarefa de cada indivíduo a livre escolha sobre como conduzir-se. Desta forma, o Estado não é um mero meio de coerção social dos sujeitos sociais e sim deve ser gerido por esses últimos e de acordo com as características da sociedade em questão, pois como posto por Mill (1861. Pág. 30) “[…] toda a educação que visa fazer os homens se tornarem máquinas acaba, a longo prazo, fazendo que eles clamem pelo controle de suas próprias ações […]”. A isso, podemos chamar de autogoverno coletivo, já que os cidadãos seriam responsáveis pelas funções administrativas e jurídicas das instituições públicas.

Seguindo a linha de raciocínio proposta pelo autor – o qual demonstra estar de acordo com a possibilidade de um aprimoramento moral das faculdades humanas – pode-se afirmar, então, que uma sociedade com indivíduos moralmente desenvolvidos e que buscam um bem-estar coletivo será mais bem sucedida em sua empreitada de autogestão em comparação a uma sociedade de indivíduos ignorantes, egoístas e consequentemente propensos à corrupção. Contudo, o autogoverno é uma solução viável até mesmo para estas sociedades moralmente rebaixadas, já que para Mill, o processo de participação política é educativo e capaz de desenvolver as qualidades necessárias para a ocupação social de um poder governamental. Destaco o excerto:

Todo o governo que visa ser bom é uma organização de parte das boas qualidades existentes nos indivíduos membros da comunidade para a condução de seus assuntos. Uma constituição representativa é um meio de levar o nível geral de inteligência e honestidade na comunidade, a inteligência e virtude individuais de seus membros mais sábios, a pesar mais diretamente sobre o governo, investindo-os de maior influência sobre ele, muito mais do que geralmente teriam sob qualquer outro tipo de organização; na verdade, essa influência, qualquer que seja a organização, é a fonte de todo bem existente no governo, e o obstáculo a todo o mal que lhe é estranho. Quanto maior o número de boas qualidades que as instituições de um país conseguirem organizar, e quanto melhor o tipo de organização, melhor será o governo. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 20)

É importante ainda ressaltar, que devido a vasta extensão geográfica de diversos territórios, a melhor forma de fazer vigorar esta que seria a gestão coletiva da sociedade, é o governo representativo, haja vista a característica marcante deste tipo de governo: o caráter de paridade entre as distintas classes que podem se fazer ouvir através da igualdade de cargos de seus representantes.

Porém, ao admitir as classes sociais como uma divisão entre maiorias e minorias, Mill percebe a possibilidade de um vício à democracia e ao governo representativo. Esse vício consiste na possibilidade de uma das classes conquistar o poder de forma una, criando um engodo entre a necessidade de participação e representação igualitárias para o sucesso do governo em questão, e o domínio de uma maioria sobre as demais classes presentes no corpo político, como é possível notar no trecho:

Um dos maiores perigo, portanto, da democracia, bem como de todas as outras formas de governo, consiste nos interesses sinistros dos detentores do poder; é o perigo da legislação de classe; do governo que visa (com sucesso ou não) o benefício imediato da classe dominante, em perpétuo detrimento da massa. E uma das questões que mais merecem consideração, quando se pretende determinar a constituição de um governo representativo, é como reunir precauções eficazes contra esse mal. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 68)

Para sanar a questão, Mill propõe o modelo de governabilidade de Thomas Hare, o qual garantiria proporcionalidade representativa sem deixar de manter a vigência da contraposição entre as classes – o que é benéfico à democracia, já que o poder de um único tipo de interesses é considerado ditatorial e nada agrega ao bem comum.

É possível concluir portanto, que as classes devem portar a mesma possibilidade de voz no governo representativo, não havendo maneira de subjugarem-se umas às outras. De forma a garantir que o governo seja em vias de regra igualitário e uma gestão própria de todo o demos, onde maiorias e minorias podem fazer valer suas opiniões e ocupar as funções de seu interesse no domínio público. Ou nas palavras do próprio autor:

É evidente que a neutralização total da minoria não é consequência natural nem necessária da liberdade; esta neutralização está diametricamente oposta ao primeiro princípio a democracia, ou seja, a representação proporcional aos números. O fato de que as minorias devam ser adequadamente representadas é parte essencial da democracia. Sem isto, não será possível uma verdadeira democracia – haverá apenas uma falsa aparência de democracia. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 74)

Em síntese, Mill propõe que o governo ideal, ou autogoverno dado por representação deve possuir espaço para a participação por sufrágio e para opinião de todos os concidadãos que independentemente do fato de pertencerem a classes sociais distintas, serão capazes de como trabalhadores ou patrões, diluir suas tensões causadas por interesses particulares através do aprimoramento trazido pela união na busca de justiça e verdade social. Ou seja: serão plurais enquanto indivíduos, mas representados enquanto gestores e intelectuais do corpo político e do próprio Estado em questão.

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1998

Talvez dizer que gostaria de esquecer o passado fosse um exagero, mesmo naquele momento tão incerto em uma vida que o tempo todo tinha sido escrita sobre pautas. Era uma projeção daquilo que estava a um passo atrás, não havia maneira de negar-se. Não queria esquecer. Só queria não ter que se lembrar.

Estava esperando pelo momento de fazer o que era necessário, embora soubesse que esse momento não chegaria como versam as providências divinas. Oh, céus, mais esse fardo: saber que não há um deus nos vigiando torna tudo ao mesmo tempo mais permissivo e mais impreciso. É a dor de ver-se como parte de um plano cartesiano entre felicidade e vazio.

Só queria balbuciar algumas palavras, que embora poucas, seriam capazes de desfazer a nódoa de sua garganta, de desmistificar o engodo que pairava sob sua cabeça e de lhe retirar o fardo dos ombros. Como se em um simples ato cotidiano e cercado de simplicidades banais, pudesse resolver todos os problemas que os séculos de humanidade sequer chegaram perto de solucionar.

Era apenas um homem, um acumulado de experiências. Mil obras não diriam nada, todos os amigos nada seriam capazes de representar. Era apenas um homem rodeado de sua consciência – hora ingrata, hora conformista. Nada lhe sugeria signos de virtude ou progresso, mas apenas de acúmulo inútil de conhecimentos perpassados. Concluiu: tudo é um legado de possibilidades e nada é mais silencioso, mortal e sublime que o afago tranquilo de pensar por si próprio.

Não esqueceu. Não fez. Não disse. Perpassou. Retribuiu. Finalizou. Deixou-se. E foi…

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Entre Extremos

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Perus, São Paulo/SP

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Centro Acadêmico UNIFESP-EFLCH – Pimentas, Guarulhos/SP

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Piqueri, São Paulo/SP

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“Prédio Novo” – Escola de Filosofia Letras e Ciências Humanas, UNIFESP. Guarulhos/SP

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Memorial da América Latina. Barra Funda, São Paulo/SP

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O que acontece com quem ousa ser livre na Universidade Federal de São Paulo.

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Estrada entre Mogi das Cruzes/Bertioga – SP