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De volta em linha reta

Os anos sem escrever parece não terem acontecido. Quando eu criei esse blog eu tinha uma única certeza: eu só existiria no mundo se eu nunca deixasse de fazer a única coisa que eu sempre soube fazer: escrever. Eu nunca fui boa com testes de matemática ou de lógica. Não aprendi a calcular e não sei gerir o meu dinheiro. Sou uma boa escritora, uma ótima conselheira e uma cozinheira mais ou menos. Com isso, queria sair pelo mundo como Bukowski, como Kerouac. Cheguei a planejar isso com um namoradinho aos dezesseis anos, mas aí eu pisquei e estava em um escritório, a placa colada na mesa tinha o meu nome e eu já falava coisas como “vou te dar um feedback” ou “tive aqui um insight”.

Eu deixei de existir. Parei de escrever. Dia desses, me apaixonei por um cara e tentei uma crônica sobre nós dois. Não sei se deixei de ver poesia no cotidiano, mas não consegui enviar nada pra ele. O pavor de parecer vulnerável e de mostrar o ser humano atrás das fórmulas do Excel congelou os meus dedos e aí já não dava mais. Eu sequer sei se minha letra é feia ou bonita, porque eu nunca mais senti necessidade de pegar um caderno e escrever: “Viviane, hoje no seu dia você conheceu alguém incrível”. Te juro, eu fazia isso quando era adolescente e, hoje, a maioria das pessoas incríveis que eu conheço estão descritas nesses cadernos. Como é que eu posso não conseguir sequer escrever uma crônica pra um novo amor? A ideia que me toma de assalto é que vou parecer ridícula. Porque aos dezesseis a paixão é avassaladora, e aos vinte e dois ela é só ridícula.

Eu entrei na faculdade pra ser socióloga e mudar o mundo. Agora eu queria ter dinheiro pra comprar um amaciante melhor, queria comer alguma coisa que não fosse frango e atum e queria que, por um único dia, eu pudesse tomar sorvete sem achar que é um capricho idiota que vai me custar no espelho amanhã. Eu gostava de Velvet Underground e The Smiths e mês passado fiquei feliz em um show do Wesley Safadão. Eu achava que nunca ia precisar dirigir, eu sei andar de bicicleta, esse é o século XXI e já inventaram o trem, o metrô, o avião. Essa semana me inscrevi na auto-escola porque não aguento mais pagar táxi pra ir ao médico em uma daquelas consultas de cinco minutos que me garantem até a próxima dor de cabeça que eu não vou morrer antes dos trinta.

Dia desses eu fui pra São Paulo e encontrei um cara com quem eu ficava no primeiro ano de faculdade. A gente ficou feliz em se ver e fomos beber uma cerveja. Falamos da vida. Do engenheiro e da socióloga. Por trás das máscaras, nada. Queria um assunto que não fosse sobre o que eu faço, mas sobre o que eu gosto de fazer quando não estou respondendo meus e-mails. Não deu. Depois de um tempo não existe mais eu, mais você, mais passado, presente ou futuro: existem as pessoas que nos tornamos e o que fazemos pra sustentar os traumas que Freud explica. O que vai pagar aquela camiseta que eu não pude ter, aquele sapato, aquele rímel… Não vamos perder nosso precioso tempo quebrando paradigmas e falando de coisas idiotas, como lidar com a velhice dos próprios pais, como sair de casa e não conseguir pagar o aluguel às vezes ou como ter medo da morte. Não dá tempo de falar de literatura, cinema, teatro. Vamos falar dos nossos projetos, dos treinamentos, das metas.

Parece que agora o mundo se divide em duas categorias de pessoas: as que vivem nas lembranças e as que, assim como eu, viraram só um fantasma daquilo que elas mesmas já foram. Eu não quero mais ser um fantasma. Eu sei quem eu sou, eu sei o que eu gosto de ouvir, os meus valores, os meus livros preferidos, o que me faz querer acordar amanhã. Eu quero existir. E pra isso eu tenho que escrever, tenho que enviar a crônica pro cara da paixão, tenho que manter esse blog. A despeito da placa na mesa eu sou um poema em linha reta.

 

 

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Líder aqui é palavra feminina!

Quero começar esse texto com um desabafo: fiquei todo o mês de Junho pensando no quanto eu gostaria de escrever algo novo (quiçá brilhante) nesse blog e me frustrei por não conseguir. O fluxo de trabalho – no novo emprego e na faculdade – não permitiram. E aí agora sou obrigada a voltar aqui no meio de Julho pra escrever sobre um tema que detesto: homens no feminismo.

Pronto. Desabafo feito, é bom eu me explicar pra que vocês não me entendam mal. Não é que eu deteste homens no feminismo. O que eu detesto mesmo é debater o tema. O motivo? Vai ter alguém pra dizer que mulheres e homens merecem o mesmo espaço de liderança e o mesmo contraste entre suas vozes dentro do movimento feminista. E isso me irrita. Isso me faz arrancar os cabelos e pular em um pé só em cima de uma cama de pregos de tanto ódio. 

O primeiro motivo pra que eu refute tão veementemente essa ideia, é a meritocracia. Tudo na sociedade contemporânea funciona por esse sistema. Você tem um emprego porque merece, você tem um bom cargo porque lutou pra isso, você conseguiu entrar no curso mais concorrido de uma universidade pública porque é bom o suficiente. Quem questionaria isso?

Os movimentos sociais questionam. Porque esse sistema é falho e falacioso. A meritocracia é um sistema dos opressores para justificar suas opressões. É um sistema que ignora as forças histórico-sociais que agem à margem da realidade tangível. Dessa forma, a meritocracia ignora o racismo, o machismo, a homofobia e todas as demais dificuldades impostas a grupos minoritários, como se a sociedade agisse magicamente em prol do esforço, e não houvesse no seio da compreensão coletiva postulados que confrontam as capacidades de pessoas negras, de mulheres ou de pessoas da comunidade LGBT.

Desta forma, me soa absurdo dizer que um homem pode ocupar o espaço de uma mulher dentro do movimento feminista por ser um melhor orador, ou melhor-qualquer-coisa-que-seja. APENAS NÃO! O movimento feminista é sobre lutar para mulheres. É sobre transgredir as regras do patriarcado. Não é sobre uma reprodução da sociedade que está lá fora. Não é sobre dar visibilidade aos homens. 

E por falar em visibilidade dos homens…
Os homens tem construído todo o mundo. A História foi feita pelos homens. A Ciência foi feita pelos homens. Será isso uma coincidência? Será isso dado como prova da irrefutável proeminência do pensar masculino sobre o feminino? Será a mesma estranha força que age em prol dos brancos e confina os negros? 

Acho que se você se considera feminista, sabe que todas as respostas para essas perguntas são um sonoro e gritante NÃO. Os homens são os beneficiários diretos do sistema patriarcal. Sistema esse que nos coloca para competir em desvantagem com o gênero masculino. Esse sistema que é justamente o alvo do movimento feminista!

E é aí que está o ponto: se já temos um mundo de homens, feito por e para homens, discutido por homens, não precisamos tê-los liderando e ditando rumos nos nossos espaços. O feminismo é e deve ser um espaço autônomo de mulheres e para mulheres. Para subverter a lógica patriarcal, deve estar em íntimo contato com as mazelas femininas, afim de pensá-las coletivamente e solucioná-las.

Faça um exercício: quantas vezes por dia uma mulher é silenciada? Quantas vezes por dia uma mulher é coagida? Quantas vezes por dia uma mulher é violentada físico ou psicologicamente?
Não tenho dúvidas de que são muitas. Inúmeras. E pra quem desconfia disso, fikdik: O MACHISMO MATA. É só clicar no link e dar uma conferida no quanto. 

Portanto, enquanto suplência das nossas demandas, enquanto espaço para nos firmarmos, o feminismo precisa ser liderado por mulheres. Precisa que mulheres digam o que as oprime. Precisa que mulheres digam o que querem fazer, por onde caminhar e como lutar. Porque dizer o que mulheres devem fazer, é tudo o que os homens já fazem lá fora.

Mas aí vão me perguntar aquela clássica questão. Aquela, que faz os meus ouvidos arderem: “Viviane, mas e os homens?” (também conhecida como “Viviane, mas e uzomeeeee?”) Tá, dessa vez pela última vez eu vou responder:

Os homens não são meus inimigos. Os homens não são inimigos do movimento feminista. Os homens podem ser aliados, não protagonistas (como disse brilhantemente – Henrique Marques- Samyn – um homem, vejam só!)
Os homens podem pegar aquele espacinho que só eles podem ocupar, chamado resto do mundo, e fazer dele um espaço feminista. Podem doutrinar os amiguinhos. Podem conversar com os parentes. Podem ensinar em sala de aula. Podem falar no trabalho. Podem expor o feminismo por todo canto! Podem dizer em todo lugar o quanto valorizam e lutam pelas mulheres! 
Isso nos ajudaria muito e seria de grande valia, caras! Mas ditar suas regras no feminismo, tomando mais uma vez o espaço das mulheres, não soa por si anti-feminista? (atenção: essa pergunta é retórica.)

Assim eu decreto que na minha vida está encerrado o espaço para as male tears. Não vou parabenizar os homens que lavam a louça ou que não mexem com mulheres na rua. Não vou dar um biscoitinho por isso. É sua obrigação enquanto ser humano, portanto, continue cumprindo-a nos espaços onde você já é pleno de direitos, e deixe as mulheres construírem sua própria luta, pautada em nossas necessidades e demandas. 

E tchau.

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Velhos textos – parte I.

Já não faço a mais remota ideia de que dia ou mês nós estamos. Sei o ano, porque é o ano em que nos conhecemos, e não me lembro de ter rompido nenhuma fase importante ou crucial desde a primeira vez que os nossos olhos se cruzaram.

Eis o primeiro engano desta carta: desde a primeira vez que nossos olhos se cruzaram eu já consegui saber seu nome, te dar um beijo e te perder. Devem ser fases importantes, mas nenhuma delas teve champagne pra comemorar. Na verdade, sequer você me pagou uma cerveja, porque pelo que percebo agora, no auge dessa lucidez incômoda, eu não valho mesmo nenhuma aula de Política desperdiçada na mesa do bar da esquina.

Engraçado. Antes eu achava que aquele bar sujo e os meus amigos revolucionários da Vila Madalena é que estavam longe de merecer a sua presença, que quase brilha e ofusca as demais coisas. Mas depois de ter a minha visão quase cegada pelo anel prateado que você leva novamente na sua mão direita, só me restaram mesmo as bebidas baratas do bar do Luizão, e aquele rádio velho disputado entre os estudantes e os bêbados para ver quem consegue ser mais pedante escolhendo uma estação FM.

O que sei é que neste mês desconhecido, neste dia desconhecido, estou comemorando a minha falta de emprego, de dinheiro pra pinga com canela e essencialmente de você, com o pouco de chocolate que minha irmã deixou na geladeira e com Shakira tocando nos auto falantes. Ela pergunta: “who would have thought that you could hurt me the way you’ve done it?” e eu não sei responder.

Porque quando você ficava me prendendo entre um corredor e outro de uma aula e outra, você parecia bastante satisfeito com a minha presença. E quando você sussurrava aquelas coisas indecentes no meu ouvido, e beijava os meus seios, parecia de fato que você gostava de mim. E agora eu sei que eu sou jovem e burra demais pra distinguir os olhos de paixão dos olhos de libido.

Então que culpa eu tenho, também, se todo o resto do universo fez um pacto de mediocridade contigo, e ninguém me contou que eu era apenas o seu brinquedo, enquanto ela era nada menos que a sua mulher? Ninguém me contou que você notava em mim a beleza de uma menininha de dezessete anos, e nada mais.

E a própria música autodestrutiva responde: “you don’t even know the meaning of the words ‘I’m sorry’” e eu chego à conclusão de que é isso: você não tinha como me pedir desculpas por não querer estar comigo. Não tinha como me pedir desculpas por ter uma vida ao seu redor, enquanto tudo o que eu tenho pra mim são meus adesivos colados no armário e as minhas cópias de clássicos teóricos que aprendi a ler há pouco. Acho que devo encarar as coisas como elas são e não mais como eu queria que fossem, e com um pouco de tequila pra dentro, decidir sozinha e por nós dois que isso não foi, nem pôde ser uma história a ser dividida. Essa é a história que eu queria ter construído, mas você não. É algo novo pra mim, mas não pra você.

Doeu, dilacerou, e está me matando por dentro. Te ver todos os dias é o tipo de tortura lenta e dolorosa, que dá prazer a quem faz. E eu vejo o prazer nos seus olhos quando finge que me quer por um segundo, só pra me obrigar a lembrar que eu não tive e nem nunca terei você por inteiro.

Freud deve explicar. É uma pena eu ter deixado de ir às aulas de filosofia da memória nas últimas semanas apenas pra não te encontrar assim, logo na segunda-feira.

Felicidades, é o que eu te desejo. A música acabou e as últimas palavras que ouvi, antes de pular entre os meus travesseiros e odiar você, sua cidade, essa rotina e a minha vida, foi “should be illegal to decive a woman’s heart”.

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Obrigada, 2012

Toda proporcionalidade é demonstrada nos ciclos de vivência. 2011 fora um ano incrível, portanto, já era de se esperar que 2012 fosse ruim.
Foram três meses sem emprego, cinco meses sem aula. Perdi minha avó, o meu cachorro e um colega de faculdade em menos de 60 dias. Terminei um namoro de dois anos em uma tarde. Números, dias, horas… que eu não esquecerei. Palavras que vão ficar ecoando por sabe-se lá quantos anos aqui dentro da minha mente.
Além, é claro, das promessas que eu fiz e não vou poder cumprir e das juras que me fizeram, mas humanamente não puderam se tornar reais. Não vou chorar. Nada disso foi em essência mau. Tudo foi extremamente agregador, desde que parei de encarar a vida como algo potencialmente triste. A vida é uma chance única pra aprender com erros, já que estes são inevitáveis. É uma chance única de aprender com as perdas, já que essas independem da nossa vontade – e assim, é uma chance de aprender que nem tudo o que não é exatamente a nossa maneira, é terrivelmente cruel.
Com os três meses sem trabalho, aprendi a valorizar cada dia de suor. Com os cinco meses sem aula, aprendi a valorizar cada segundo dentro da universidade. Eram coisas que antes eu desprezava, talvez por serem corriqueiras. Mas entendi que mesmo quando fui demitida e chutada como um cão, eu estava crescendo. Que mesmo quando eu chorei por quase cinco horas sem parar por ter errado nas minhas perspectivas políticas, eu estava crescendo. O que importa? As pessoas que trabalharam comigo puderam dividir o seu cotidiano ao meu lado, e isso é por excelência lindo. Os que firmaram alianças de greve comigo me renderam a chance de ouvir coisas que eu jamais tinha pensado e de criar uma malícia de quem já viu a humanidade de perto ao menos uma vez. Permanecem eternizados, mesmo que na memória. Ocupam um espaço que está cristalizado e flutuam nas lembranças elegivelmente boas, junto com minha avó, meu cachorro, o colega de faculdade e o ex namorado.
2012 foi um ano de respeito. Eu me respeito muito mais do que me respeitava quando pensava que o significado de dar-se ao respeito era sentar de pernas fechadas e mentir o número de homens que tive na cama. Eu me respeito porque todo dia de manhã eu tenho a responsabilidade de pagar as minhas próprias contas, de galgar meus próprios degraus, de vencer minhas próprias limitações. E não estou mais potencialmente suicida por isso. Estou feliz.
Descobri, assim, que viver e morrer são dois lados de uma mesma coisa. Os ganhos são advindos do que se vai e já que o que mais prezo é a liberdade, existe uma beleza especial em deixar ir para ver chegar. Existe alegria e força em saber perder, em não achar que merece tudo, em não querer segurar o mundo sobre os próprios ombros.
E dentro destes dias datados com o número doze ao final, houve toda a sinceridade possível e cabível, todo o esforço e dedicação, toda a vitalidade e a renovação. Não vou me queixar, apenas agradecer. Obrigada, 2012. Quem eu seria sem tudo isso além de a mesma adolescente idiota dos anos de colégio? Bem vindo, 2013. Cada dia será lucubrado com o peso de quem já muito sabe, muito viu e nada pretende (além é claro, de receber todas as dádivas do destino iluminado por cada raio de sol e gota de chuva em cada manhã).

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Diálogo dessa madrugada

“A única coisa que vale a pena lutar é por si mesmo. Pelo resto, não. O resto – a palavra já diz tudo – é resto. Ninguém entende os nossos anseios, os nossos desejos. Para que, então, lutar por eles? A passividade prova a luta vã que é esta. A chance de você perder integridade física é grande… e a troco de que? Será que ela faria isto por você? Não que isto conte alguma coisa… mas, é algo pra se pensar um minuto.”

“Eu não espero a retribuição. Isso é até estranho pra mim. Ter esse tipo de interesse…
Queria parar mesmo de expor os meus anseios e de colocar a voz pra fora. Me sinto mal com esse meu jeito impulsivo de ser, e completamente compreendo a sua fala.
Só fico em dúvida com essa sua frase, sobre lutar por si mesmo. Tá…e pra que fazemos Ciências Sociais, então? Produzimos uma ciência que se propõe sugerir rumos sociais. Não é possível que esses rumos sejam regidos pelo nosso interesse único em nós mesmos. Ou é?”

“ Por isto que me “arrependo” de não ter feito filosofia. Ao meu ver, toda a luta por povos se mostra superficial e arrogante: o que sabemos, realmente, dos anseios da nação? Não estaríamos fazendo o papel de “Deus” tentando salvar o mundo? Aliás, quantos seres humanos sabem realmente daquilo que lhe é ausente? O que cada um realmente acredita e quer para si? O que eu quero para mim de verdade e o que você quer para si? Respondendo por mim, tenho apenas vinte anos e ainda não sei ao certo o que quero. Como eu, alguém que não sabe o que quer de verdade, pode responder aos anseios de uma massa? Por isso que o lutar por si mesmo me parece algo sensato, mas não menos trabalhoso do que o nosso curso propõe a fazer. Não se sinta mal. Pense que a maior revolução que você pode fazer é a revolução dentro de si. Talvez, comentando sobre os interesses… que toda a nossa história tenha sido feita por homens vaidosos. Vendo por mim, a minha vaidade é conseguir respeito. Uns querem dinheiro, outros outras coisas… eu quero respeito. É o preço de minha vaidade. Acho que é comum ao ser humano ter; só que uns descobrem e outros não.”

“Analisando a sua fala, só posso crer que você propõe uma normatividade social de indivíduos silenciosos. Não sei se isso seria bom ou ruim, porque nem vinte anos eu tenho ainda, e nisso estamos de acordo – ninguém tem certeza do que quer pra sempre nem aos vinte e nem nunca dessa vida.
Mas é impossível passar incólume pelas forças que agem externamente a nossa vivência pessoal. Os homens vaidosos (também estou de acordo em relação a isso) que construíram a história escravizaram outros homens para manter sua vaidade e para legitimar suas atitudes. Os homens vaidosos que construíram a história subjugaram todo um gênero aos seus postulados, e dessa forma, continuamos vivendo sob premissas que não foram construídas por nós, mas que moldam nossos caráteres, nossos desejos. A partir do momento em que você começa a se emancipar, a fugir do senso-comum, simplesmente descobre que é fruto de uma imersão, de um repasse de valores. A maior revolução então é dentro de si mesmo – mas quais os motivos para não externalizar essa revolução? Não estou dizendo que os meus axiomas são verdades universais. Mas são as minhas verdades. E me furtar ao debate, é me furtar a dizer que acredito na possibilidade de uma mudança, e de uma mudança positiva.
Já disse inúmeras vezes que detesto quando colocam a sociedade, ou qualquer indivíduo/entidade no papel de deus. Estou convicta da não-necessidade de deuses ou líderes para conduzir qualquer tipo de necessidade coletiva. O que penso é que a convivência produz, indubitavelmente e incontestavelmente, sensações comuns aos seres enquadrados em um modelo. E se esse modelo nunca é questionado, não há história, não há filosofia e não há progresso humano. Eu apenas me proponho a questionar. Se o que digo será aceito ou não, só o debate e o tempo dirão.
Não tenho dúvidas de que o meu anseio (mesmo que oculto por vezes) ao me expor dessa forma, é construir parte da história. Sou uma mulher com uma vaidade também: a liberdade. É essa vaidade que me impede de calar-me.”

“Nossa, bonito o que você escreveu.”

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1998

Talvez dizer que gostaria de esquecer o passado fosse um exagero, mesmo naquele momento tão incerto em uma vida que o tempo todo tinha sido escrita sobre pautas. Era uma projeção daquilo que estava a um passo atrás, não havia maneira de negar-se. Não queria esquecer. Só queria não ter que se lembrar.

Estava esperando pelo momento de fazer o que era necessário, embora soubesse que esse momento não chegaria como versam as providências divinas. Oh, céus, mais esse fardo: saber que não há um deus nos vigiando torna tudo ao mesmo tempo mais permissivo e mais impreciso. É a dor de ver-se como parte de um plano cartesiano entre felicidade e vazio.

Só queria balbuciar algumas palavras, que embora poucas, seriam capazes de desfazer a nódoa de sua garganta, de desmistificar o engodo que pairava sob sua cabeça e de lhe retirar o fardo dos ombros. Como se em um simples ato cotidiano e cercado de simplicidades banais, pudesse resolver todos os problemas que os séculos de humanidade sequer chegaram perto de solucionar.

Era apenas um homem, um acumulado de experiências. Mil obras não diriam nada, todos os amigos nada seriam capazes de representar. Era apenas um homem rodeado de sua consciência – hora ingrata, hora conformista. Nada lhe sugeria signos de virtude ou progresso, mas apenas de acúmulo inútil de conhecimentos perpassados. Concluiu: tudo é um legado de possibilidades e nada é mais silencioso, mortal e sublime que o afago tranquilo de pensar por si próprio.

Não esqueceu. Não fez. Não disse. Perpassou. Retribuiu. Finalizou. Deixou-se. E foi…

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Pra que não haja dúvidas: o machismo nos OPRIME.

COPO DE CAFÉ

Domingo cinzento em São Paulo, domingo de jogos universitários. Ao longo do dia, jovens se reúnem para praticar esportes, torcer, beber, conversar, enfim, reúnem-se para se divertirem. Há aqueles que levem mais a sério os jogos, mas estes são minoria; o objetivo primário é a reunião, é passar um domingo agradável com os amigos. Este é o InterECA.

Em campo um time qualquer joga futebol contra o Unidos do Marlboro, time criado por estudantes de jornalismo (fumantes) em que cada jogador recebe um nome de consequência provocada por cigarro: Gangrena, Câncer, Morte, Sofrimento, Infarto, Dependência e Enfisema Pulmonar. Como ninguém quis ser a Impotência, esta é acabou sendo a fã número 1 da trupe. Uma forma descontraída de debochar do vício que todos sabem ser prejudicial.

O time, tão bom de futebol quanto os nomes de seus jogadores, perde miseravelmente de seu adversário mas na arquibancada a torcida é…

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Fraternalmente…

Fraternalmente...

Eu estava idiotamente tentando escrever alguma coisa aqui. Primeiro, eu gostaria de contar algumas coisas – finalmente boas – que me aconteceram essa semana. Depois, eu queria publicar um conto antigo. Então decidi indubitavelmente que eu escreveria um resumo da Democracia na América do Tocqueville e deixaria aqui pra não perder, como de costume, uma semana antes da prova.
Mas aí eu achei essa foto e fiquei olhando pra ela bobamente até agora. Talvez porque ela reúna tudo: as coisas boas que já me aconteceram, o talento fraternalmente herdado pra escrita, e até mesmo as motivações que me fizeram parar na política. Essa é minha irmã há mais de dez anos atrás com o mesmo sorriso e a mesma alegria de uma vida toda. Saudades dos bons e velhos tempos.

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“suspeita de escrotice: há disponibilidade”

… I had tender feelings that you made hard,
But it’s your heart, not mine, that’s scarred.
So when I go home, I’ll be happy to go –
You’re just somebody that I used to know.

You don’t need my help anymore,
It’s all now to you, there aint no before
,
Now that you’re big enough to run your own show
You’re just somebody that I used to know.

I watched you deal in a dying day,
And throw a living past away
,
So you can be sure that you’re in control,
You’re just somebody that I used to know.

I know you don’t think you did me wrong,
And I can’t stay this mad for long,
Keeping a hold of what you just let go –
You’re just somebody that I used to know

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Para os recomeços interessantes

Ninguém sabe a epopeia que foi até essa página ganhar vida.
Quando eu tinha doze anos, eu comecei um caderno. Hoje, aos dezoito, eles já são mais de vinte. Preenchidos de ponta a ponta com todos os tipos de coisas que vocês puderem imaginar.
Uma vida toda dedicada a sujar páginas (algumas vezes com chocolate ou lágrimas, e ridiculamente confesso).
Vir pra cá não foi fácil. Sair dessa coisa intimista e pessoal que é pegar um caderno em mãos e poder rabiscar e riscar e oitenta milhões de vezes, se necessário, arrancar a página e recomeçar.
Mas com o tempo eu aprendi que recomeçar nem sempre é o melhor caminho. E certamente, não o é para a escrita. Há de ser sincero e há de ficar para a posteridade, mesmo que não haja razão para ter surgido e mesmo que não haja quem prestigie. Então escolhi esse blog, para recomeçar a escrever e a sentir que expurgo os meus próprios fantasmas.