Category Archives: mimimi

Sentido Algum

Estava tentando me lembrar daquela frase do Milan Kundera sobre a vida ser como um script lido uma única vez pelo ator de uma peça, que é obrigado a executar sua estréia sem nunca tê-la ensaiado. Não me lembro de ter atribuído tanto sentido à Insustentável Leveza do Ser desde que tive quatorze anos, mas algo que corre por fora do curso da vida cotidiana me faz retomar ao clássico da minha adolescência conturbada e dificultosa, e questionar se por vezes, o melhor a se oferecer de súbito à sutileza da vida posta não é justamente a capacidade de nada oferecer.
Existe algo no meio-fio entre existir e dedicar-se à existência que paira sobre o âmago do que eu sou de fato e daquilo que esmerei me tornar. Voltar quantos anos parecem necessários a um passado que emana incertezas não é garantia de compreendê-lo, tampouco mudá-lo. E os ecos produzidos a priori por uma personalidade tão latente, vívida e impulsiva como a desta que vos fala é como compreender o sórdido, surpreendente e inevitável teatro em único ato da vida: não há chance pra dizer que a chance se fora.
Gostaria de poder dizer que teria feito diferente, a diferença e à diferença, mas sei que genuinamente reitero o que galguei, e estabeleceria duas vezes ou mais os mesmos axiomas, por mais estúpidos que o sejam.
Endosso o fracasso, a fraqueza e a franqueza, e por isso tudo me dói e quase tudo me custa. Mas deixo arder.

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Sobre cansaço e solidão

A rua está vazia, o vento cortante e as pálpebras pesando sobre a íris dos olhos. Os livros a tiracolo, a echarpe insistindo em se espalhar pelo pescoço e os cabelos se emaranhando em si mesmos.

Apalpo o bolso e procuro um cigarro: havia me esquecido que não uso nicotina há dois meses e instantaneamente me desespero. Eu devo estar fazendo algo muito errado desta vida para estar aqui agora, sem um puto e sem Marlboro às vésperas de uma reunião importantíssima no partido e um ato decisivo para a militância. Mas que importa? Tenho doado a existência aos outros, mas essencialmente agora, quero encontrar algo que seja exclusivamente meu.

Penso em pegar minha bicicleta e pedalar por alguns quilômetros pra que a mente cheia de endorfina se esvazie das tormentas e para que o prazer dos músculos latejantes me faça esquecer que o peito também lateja, na ardência do meu coração vagabundo que insiste em tanto doar, sem nada pedir em troca. Lembro-me que a bicicleta foi vendida pra pagar uma dívida antiga, e me questiono o porquê gastei meu dinheiro, se ando economizando vida.

Ainda há a chance de escrever, porque essa é a última coisa que me resta. Talvez a única, dentre tantas minúcias furtadas da minha personalidade inventiva, que insiste em não condizer com o ego de quem quer ser único em um mundo de iguais. Pra ser sincera, sequer isso tem alguma importância agora.

O essencial é que na ausência dos cigarros e da bicicleta, escrever fosse suficiente. Mas infelizmente, o que me faria completa agora não figura entre as coisas tangivelmente tocáveis e eu me sinto pela metade. Sorrio ao pensar que assim sou completa: completamente dividida entre o vazio e o ser pensante que beira a esquizofrenia.

Sento de frente pra janela, e os carros continuam a passar. Sinto falta do imaginário furtivo que poria um futuro bonito diante dos meus olhos agora. Tudo o que vejo transcorrer é solidão, como se me olhasse no espelho dia após dia. A  solidão tem me impedido de ser narcisista.

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Memorável

O sol ia se pondo atrás do mar, e o céu se transmudava na mescla de tons de azul e laranja que logo virariam constelações a te observar. Seus passos tímidos brincavam com a água salgada que a maré trazia até os nossos pés.
O que era claro e se transformava em escuridão estava apenas no exterior. Aqui dentro, o processo inverso – aguardado em silêncio ao longo de tanto tempo – já se dava: toda a escuridão se clareava e toda a quietude se fazia em palavras. Quando alguém sorri com os olhos, o mundo sorri com a lua cheia e a vida parece indubitavelmente bonita.
A imensidão de todas as coisas que nos cercavam não era maior do que o infinito daquilo que sentíamos. E entre as risadas infantis que arrancamos um do outro e a seriedade dos assuntos sobre nossas vidas, sempre há de pairar a sensação de que pouco (ou nada) importa se estamos falando sobre Marx ou Proudhon, sobre ir pra Montevidéu ou estudar na Europa, sobre o passado enorme que ficou na memória ou o futuro que pretendemos compartilhar. Sempre prevalecerá a sensação de que os gestos dizem todo o essencial e a verborragia de taberna das nossas conversas é apenas pretexto para fazer a caminhada maior e o toque das mãos mais duradouro.
Nós caminhamos pela orla o máximo que pudemos e os fogos de ano novo brilharam no céu. O fim de algo é inevitavelmente o começo do novo, e entre tantas idas, vindas, perdas e dores, restamos eu e você, como sempre e para sempre – assim como me dissestes enquanto eu me perdia no seu abraço. A propósito, não tenho certeza se de fato ouvi essas palavras, ou apenas senti o que você pensava. Sei que o meu lugar está posto e confortavelmente nos espalhamos no espaço que a vida reservou pra assistir a eternidade gostar de nós dois.

Obrigada, 2012

Toda proporcionalidade é demonstrada nos ciclos de vivência. 2011 fora um ano incrível, portanto, já era de se esperar que 2012 fosse ruim.
Foram três meses sem emprego, cinco meses sem aula. Perdi minha avó, o meu cachorro e um colega de faculdade em menos de 60 dias. Terminei um namoro de dois anos em uma tarde. Números, dias, horas… que eu não esquecerei. Palavras que vão ficar ecoando por sabe-se lá quantos anos aqui dentro da minha mente.
Além, é claro, das promessas que eu fiz e não vou poder cumprir e das juras que me fizeram, mas humanamente não puderam se tornar reais. Não vou chorar. Nada disso foi em essência mau. Tudo foi extremamente agregador, desde que parei de encarar a vida como algo potencialmente triste. A vida é uma chance única pra aprender com erros, já que estes são inevitáveis. É uma chance única de aprender com as perdas, já que essas independem da nossa vontade – e assim, é uma chance de aprender que nem tudo o que não é exatamente a nossa maneira, é terrivelmente cruel.
Com os três meses sem trabalho, aprendi a valorizar cada dia de suor. Com os cinco meses sem aula, aprendi a valorizar cada segundo dentro da universidade. Eram coisas que antes eu desprezava, talvez por serem corriqueiras. Mas entendi que mesmo quando fui demitida e chutada como um cão, eu estava crescendo. Que mesmo quando eu chorei por quase cinco horas sem parar por ter errado nas minhas perspectivas políticas, eu estava crescendo. O que importa? As pessoas que trabalharam comigo puderam dividir o seu cotidiano ao meu lado, e isso é por excelência lindo. Os que firmaram alianças de greve comigo me renderam a chance de ouvir coisas que eu jamais tinha pensado e de criar uma malícia de quem já viu a humanidade de perto ao menos uma vez. Permanecem eternizados, mesmo que na memória. Ocupam um espaço que está cristalizado e flutuam nas lembranças elegivelmente boas, junto com minha avó, meu cachorro, o colega de faculdade e o ex namorado.
2012 foi um ano de respeito. Eu me respeito muito mais do que me respeitava quando pensava que o significado de dar-se ao respeito era sentar de pernas fechadas e mentir o número de homens que tive na cama. Eu me respeito porque todo dia de manhã eu tenho a responsabilidade de pagar as minhas próprias contas, de galgar meus próprios degraus, de vencer minhas próprias limitações. E não estou mais potencialmente suicida por isso. Estou feliz.
Descobri, assim, que viver e morrer são dois lados de uma mesma coisa. Os ganhos são advindos do que se vai e já que o que mais prezo é a liberdade, existe uma beleza especial em deixar ir para ver chegar. Existe alegria e força em saber perder, em não achar que merece tudo, em não querer segurar o mundo sobre os próprios ombros.
E dentro destes dias datados com o número doze ao final, houve toda a sinceridade possível e cabível, todo o esforço e dedicação, toda a vitalidade e a renovação. Não vou me queixar, apenas agradecer. Obrigada, 2012. Quem eu seria sem tudo isso além de a mesma adolescente idiota dos anos de colégio? Bem vindo, 2013. Cada dia será lucubrado com o peso de quem já muito sabe, muito viu e nada pretende (além é claro, de receber todas as dádivas do destino iluminado por cada raio de sol e gota de chuva em cada manhã).

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A morte, a fugacidade e a antropologia

Passei o dia dentro daquela repartição claustrofóbica, ouvindo as reclamações que não me convém e bebendo o café preto, forte e amargo que servem na copa. Logo pela manhã, dizia à minha colega que eu acredito na existência de diversas dimensões que dividem tempo/espaço de forma desigual, fazendo com que passemos por diferentes experiências em uma única vida, sem que isso chegue ao nosso conhecimento e perpasse a nossa memória.
O que eu pretendia com isso às dez da manhã de uma inconveniente quarta-feira ensolarada, era repetir como um mantra mental que algum lugar da existência me reservava um espaço melhor na colocação do status social, onde eu estaria sentada sobre as pedras de uma praia deserta, curiosamente experimentando um drink de rum e pêssego e lendo Eduardo Galeano.

Na cidade ao lado, quase conurbada pela grande metrópole paulista, ele devia estar chegando ao trabalho e colocando sua gravata amarela de atendimento.  Algum inconveniente deveria estar por se suceder – porque essa é a rotina de pessoas que trabalham com as piores coisas do mundo: gente e dinheiro.  Acho que ao contrário de mim, não bebia café. Talvez água, pra esquecer que a imbecilidade das formalidades humanas lhe obrigava a trabalhar de terno em um calor de quase quarenta graus.
Jamais poderei dizer o que ele pensou ou disse nas horas que se estenderam nesse dia tão impreciso, mas estou certa de que nada do que tenha proferido seria o suficiente, se ele soubesse – como eu também não sabia – a forma esdrúxula como nossa existência seria encaminhada ao incerto nos próximos momentos.

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Do outro lado da tela, alguém me importunava com inconvenientes que não me interessam, e eu me sentia empapuçada, exausta, desgostosa. Queria findar a conversa lamentável que decorria, e para isso, fechei os programas abertos, peguei meu livro: “Ah, mas que droga de vida! Eu não vou entender Lévi-Strauss nem em uma vida, quanto mais em um dia!”
Meu telefone tocou. Do outro lado da linha, ele me fez o convite que qualquer pessoa faria às vésperas de uma prova sobre a escola antropológica estruturalista: “Você quer estudar comigo?”
Olhei o relógio. Dezessete horas e eu não tinha lido nem a metade das páginas que deveria ler. Olhei a tela. Eu não tinha escrito nem a metade dos argumentos que poderia usar naquela discussão.  Não me restaram dúvidas: “Sim, eu quero.”

Depois de empenharmos alguns esforços em conjuntamente ler aquela coisa maçante e cheia de termos em francês, apreendemos finalmente a busca pela lei universal das culturas. E eu ainda tive tempo pra brevemente pensar que isso era uma coisa idiota.  “O que pode ser universal?”  – pensava eu.
Entrei no carro. Ele dirigia do único jeito que sabe: com a mão esquerda no volante, e a direita sobre a perna. No rádio, o jogo do nosso São Paulo pela Sulamericana nos manteve em silêncio por boa parte do caminho. É necessário atenção quando o seu time joga, e o dobro de atenção quando o seu time joga uma competição latino americana. Essa regra aprendi com o meu pai desde cedo. O locutor disse em um tom de voz jocoso “O São Paulo Futebol Clube vem se esforçando para perder esse jogo tão simples, não acha?” – “Sim, eu acho!” ele disse, usando um tom de voz ainda mais irônico. Nós sorrimos.
O calor tinha se condensado em uma chuva torrencial, e todo o escaldante tom amarelo do sol tinha se transformado em cinza e em poças. Os semáforos da avenida que me traz até em casa estavam quebrados. Ainda estávamos sorrindo.
No instinto idiota que nos faz agir como se fossemos nós o próprio motorista, nos tornando copilotos de quem faz tal proeza melhor que nós, olhei os dois lados do cruzamento. Olhamos, melhor dizendo. Nada. Ele pisou no acelerador e de repente, eu só vi a luz. Quando você está prestes a ser esmagada por ônibus, posso lhes assegurar: a luz dos faróis é a representação exata, contundente e lúdica do fim da vida.
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Não sei direito quanto tempo se passou. Talvez nenhum segundo completo, apenas milésimos de. Mas foi como se eu tivesse visto ao mesmo tempo, toda a vida que eu gostaria de ter vivido, e toda a vida que eu tive. Consegui também de súbito cerrar os olhos em um instinto que me dizia que se eu não enxergasse, não morreria. Tudo parou de se mover, inclusive eu.
Forçosamente, levantei as pálpebras. Eu não sentia o meu corpo, e então, tudo o que eu pensei foi que havia uma única opção: eu estava morta. Queria ter conseguido mover as mãos e tocar meu próprio corpo, mas eu não conseguia. O cérebro não respondia mais aos estímulos, e de tal maneira, não me restou dúvida alguma: eu estava realmente morta.
Tudo o que se passou até que ele ligasse novamente o carro e andássemos mais alguns metros, pra longe daquele ônibus e de todo o horror daquela circunstância, fica embaçado na minha mente, como se não tivesse existido. Sei que só quando senti que alguma coisa se movimentava, é que eu consegui também mexer minhas mãos e de forma insana eu apalpava minhas pernas e braços, e olhava para a falange dos meus dedos, me perguntando pelo sangue e pela dor. Não havia nada.
Olhei pra ele e ele estava chorando. Minha normatividade nesse tipo de situação é perguntar o porquê das lágrimas, mas dessa vez fiz outra pergunta. Eu apenas questionei se eu estava de fato viva, e ele disse que ao que parecia, sim.  E aparentemente, era verdade. Eu estava viva e um pouco em estado de choque. Assim, também em questão de poucos minutos eu senti vontade de chorar e de rir compulsivamente; de mandar todas as pessoas que eu odeio à merda e de abraçar todas as pessoas que eu amo. Senti vontade também de ter morrido e podido reencontrar o meu cachorro, que partira do mundo no sábado anterior.

O que posso dizer é que mesmo diante do portão da minha casa, ainda dentro do carro, eu não sabia se estava viva ou morta. Foi um estado de suspensão. Por um lado, eu estava ao lado de alguém que conheço há anos, e ele era uma garantia de que eu estava salvaguardada e de que o pior havia passado. Por outro, ele também estava dentro daquele carro, e também poderia ter morrido. Podíamos, portanto, estar os dois mortos e em outro plano. Afinal, quem escapa por um milímetro de um acidente com um ônibus? Ninguém. Muito menos dois ateus, sarcásticos e cínicos como nós.
Saltei do carro me despedindo e fiz o pedido mais idiota que poderia fazer. Perguntei se ele poderia me enviar uma mensagem quando chegasse em casa. A razão: pessoas mortas não recebem sms, e eu não poderia ler algo tão concreto em um celular. Pessoas mortas não tem celulares!
Mas mesmo a mensagem tendo chegado em pouco mais de trinta minutos, eu ainda não me convenci de que estou viva. Eu ainda sequer me convenci de que tudo isso de fato aconteceu. É como se uma parte inventiva do meu inconsciente tivesse impulsionado tudo isso, com a finalidade única de me fazer passar um tempo presa nessa realidade onde o céu de baunilha é mais próximo do chão do que aquele acidente esteve próximo do tangível.

Fui sugestionada a reconstituir tudo isso para concluir que em alguma dimensão eu morri. Morri ao lado de um dos meus melhores amigos, de forma que seremos pra sempre nessa dimensão uma estagiária depressiva e um escriturário de banco.
Também concluí que em algum lugar, eu nunca estive estudando antropologia, porque estava sim bebendo e lendo sobre as feridas abertas da pátria grande, e por consequência, do meu próprio ego.
Encontrei a força motriz para compreender a lei universal que inspirado por Saussure, buscava o velho Claude: os homens são arbitrariamente obrigados a se verem diante do inexistente, do inconstante. A vida e a morte são um meio fio entre o nunca e o agora, e um desafio arriscado que te obriga a ver que nada é findável, tampouco infinito.
Passei a linha tênue entre querer compreender o mundo ou vive-lo. Essa é a única ciência do concreto.

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Diálogo dessa madrugada

“A única coisa que vale a pena lutar é por si mesmo. Pelo resto, não. O resto – a palavra já diz tudo – é resto. Ninguém entende os nossos anseios, os nossos desejos. Para que, então, lutar por eles? A passividade prova a luta vã que é esta. A chance de você perder integridade física é grande… e a troco de que? Será que ela faria isto por você? Não que isto conte alguma coisa… mas, é algo pra se pensar um minuto.”

“Eu não espero a retribuição. Isso é até estranho pra mim. Ter esse tipo de interesse…
Queria parar mesmo de expor os meus anseios e de colocar a voz pra fora. Me sinto mal com esse meu jeito impulsivo de ser, e completamente compreendo a sua fala.
Só fico em dúvida com essa sua frase, sobre lutar por si mesmo. Tá…e pra que fazemos Ciências Sociais, então? Produzimos uma ciência que se propõe sugerir rumos sociais. Não é possível que esses rumos sejam regidos pelo nosso interesse único em nós mesmos. Ou é?”

“ Por isto que me “arrependo” de não ter feito filosofia. Ao meu ver, toda a luta por povos se mostra superficial e arrogante: o que sabemos, realmente, dos anseios da nação? Não estaríamos fazendo o papel de “Deus” tentando salvar o mundo? Aliás, quantos seres humanos sabem realmente daquilo que lhe é ausente? O que cada um realmente acredita e quer para si? O que eu quero para mim de verdade e o que você quer para si? Respondendo por mim, tenho apenas vinte anos e ainda não sei ao certo o que quero. Como eu, alguém que não sabe o que quer de verdade, pode responder aos anseios de uma massa? Por isso que o lutar por si mesmo me parece algo sensato, mas não menos trabalhoso do que o nosso curso propõe a fazer. Não se sinta mal. Pense que a maior revolução que você pode fazer é a revolução dentro de si. Talvez, comentando sobre os interesses… que toda a nossa história tenha sido feita por homens vaidosos. Vendo por mim, a minha vaidade é conseguir respeito. Uns querem dinheiro, outros outras coisas… eu quero respeito. É o preço de minha vaidade. Acho que é comum ao ser humano ter; só que uns descobrem e outros não.”

“Analisando a sua fala, só posso crer que você propõe uma normatividade social de indivíduos silenciosos. Não sei se isso seria bom ou ruim, porque nem vinte anos eu tenho ainda, e nisso estamos de acordo – ninguém tem certeza do que quer pra sempre nem aos vinte e nem nunca dessa vida.
Mas é impossível passar incólume pelas forças que agem externamente a nossa vivência pessoal. Os homens vaidosos (também estou de acordo em relação a isso) que construíram a história escravizaram outros homens para manter sua vaidade e para legitimar suas atitudes. Os homens vaidosos que construíram a história subjugaram todo um gênero aos seus postulados, e dessa forma, continuamos vivendo sob premissas que não foram construídas por nós, mas que moldam nossos caráteres, nossos desejos. A partir do momento em que você começa a se emancipar, a fugir do senso-comum, simplesmente descobre que é fruto de uma imersão, de um repasse de valores. A maior revolução então é dentro de si mesmo – mas quais os motivos para não externalizar essa revolução? Não estou dizendo que os meus axiomas são verdades universais. Mas são as minhas verdades. E me furtar ao debate, é me furtar a dizer que acredito na possibilidade de uma mudança, e de uma mudança positiva.
Já disse inúmeras vezes que detesto quando colocam a sociedade, ou qualquer indivíduo/entidade no papel de deus. Estou convicta da não-necessidade de deuses ou líderes para conduzir qualquer tipo de necessidade coletiva. O que penso é que a convivência produz, indubitavelmente e incontestavelmente, sensações comuns aos seres enquadrados em um modelo. E se esse modelo nunca é questionado, não há história, não há filosofia e não há progresso humano. Eu apenas me proponho a questionar. Se o que digo será aceito ou não, só o debate e o tempo dirão.
Não tenho dúvidas de que o meu anseio (mesmo que oculto por vezes) ao me expor dessa forma, é construir parte da história. Sou uma mulher com uma vaidade também: a liberdade. É essa vaidade que me impede de calar-me.”

“Nossa, bonito o que você escreveu.”

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Primeiro Conto

Sentindo que acordaria naquela manhã perdida como de costume, cerrei meus olhos, e por mais que eles quisessem se abrir, eu insisti em não permitir. Não sei precisar o tempo que passei deitada no chão da sala, me encolhendo entre os muitos cacos de toda a louça que quebrei na noite anterior. Sei que gastei todo esse tempo pensando em teu rosto.

Não sabia se estaríamos juntos ou não, visto que a solidão sempre foi aquilo o que nos unia. Todos os meus medos estavam lá, mas com os olhos fechados eu não os via. Todas as lágrimas estavam lá, mas com a dor latente causada pelos profundos cortes que fiz rolando a noite toda entre os pedaços da porcelana, eu não as sentia. Tudo estava quieto, e a vida deveria continuar a passar, tudo deveria ser bonito como um dia foi o meu rosto no espelho. Mas a nossa história estava à sombra disso: Tudo é beleza e completude, exceto nós.

Eu poderia ter explorado a minha capacidade de amar, mas como sou às avessas, quis vingança. Eu gostaria imensamente de ter aprendido a usar minha beleza a meu favor, mas como sempre, disse demais. O espelho do nosso quarto estava quebrado, como tudo naquela casa e como nós dois. Ainda assim, me dirigi até ele e toquei meu reflexo. Olhei no fundo dos meus próprios olhos. Meus olhos… Eles haviam me ludibriado! Eu tinha os olhos mais bonitos de todo o mundo. Mas onde antes estava a minha força, eu só encontrei o delírio.

Vendo a minha própria imagem, eu não pude mais enganar minha percepção: senti as lágrimas caindo sobre minha boca. Senti o gosto do sal quando eu queria ter sentido o teu gosto. Eu me enganei. Eu vi em ti o desejo, quando em ti só havia o medo e a solidão. Eu queria fugir, mas não havia lugar que me abrigasse. Agora que o barulho se foi, não havia mais nada. Não havia mais medo e não havia mais razão para lágrimas: só havia o silêncio.

Ganhei algum tempo para limpar toda a sujeira que havia feito. Todo o vidro misturado aos minúsculos pedaços de papéis e fotos que passei a noite toda rasgando minuciosamente e espalhando por todos os cômodos. Peguei o seu revólver. 9mm, e você sempre dizia “Esta arma, minha pequena, é capaz de fazer um buraco enorme no coração de um homem, como você faz.” Talvez você estivesse errado sobre a maneira como o sexo oposto me vê. Mas estava completamente certo sobre o estrago que uma arma deste porte faz.

Todos dizem que na hora da morte você vê sua vida passar atrás de seus olhos. Isso é mentira. Se a sua vida tivesse passado atrás dos olhos teus, eu também teria visto. Mas a única coisa que vi no seu olhar, foi o arrependimento por nunca ter me amado.

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1998

Talvez dizer que gostaria de esquecer o passado fosse um exagero, mesmo naquele momento tão incerto em uma vida que o tempo todo tinha sido escrita sobre pautas. Era uma projeção daquilo que estava a um passo atrás, não havia maneira de negar-se. Não queria esquecer. Só queria não ter que se lembrar.

Estava esperando pelo momento de fazer o que era necessário, embora soubesse que esse momento não chegaria como versam as providências divinas. Oh, céus, mais esse fardo: saber que não há um deus nos vigiando torna tudo ao mesmo tempo mais permissivo e mais impreciso. É a dor de ver-se como parte de um plano cartesiano entre felicidade e vazio.

Só queria balbuciar algumas palavras, que embora poucas, seriam capazes de desfazer a nódoa de sua garganta, de desmistificar o engodo que pairava sob sua cabeça e de lhe retirar o fardo dos ombros. Como se em um simples ato cotidiano e cercado de simplicidades banais, pudesse resolver todos os problemas que os séculos de humanidade sequer chegaram perto de solucionar.

Era apenas um homem, um acumulado de experiências. Mil obras não diriam nada, todos os amigos nada seriam capazes de representar. Era apenas um homem rodeado de sua consciência – hora ingrata, hora conformista. Nada lhe sugeria signos de virtude ou progresso, mas apenas de acúmulo inútil de conhecimentos perpassados. Concluiu: tudo é um legado de possibilidades e nada é mais silencioso, mortal e sublime que o afago tranquilo de pensar por si próprio.

Não esqueceu. Não fez. Não disse. Perpassou. Retribuiu. Finalizou. Deixou-se. E foi…

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Entre Extremos

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Perus, São Paulo/SP

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Centro Acadêmico UNIFESP-EFLCH – Pimentas, Guarulhos/SP

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Piqueri, São Paulo/SP

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“Prédio Novo” – Escola de Filosofia Letras e Ciências Humanas, UNIFESP. Guarulhos/SP

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Memorial da América Latina. Barra Funda, São Paulo/SP

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O que acontece com quem ousa ser livre na Universidade Federal de São Paulo.

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Estrada entre Mogi das Cruzes/Bertioga – SP

Reticências

Diante de todas as coisas desconcertantes da vida sempre apresentei prontamente uma resposta. O silêncio falou por mim tão naturalmente que era como se eu não existisse. Eu não refutei, eu não me movi, eu não fiquei estarrecida. 

Nessa nova vida que começou sob premissas desconhecidas, e há de acabar de forma idem, eu tenho sentido uma necessidade ímpar de falar. Como se um impulso que outrora simplesmente não existia, estivesse surgindo de uma névoa de sentimentos apinhados e precisasse sair gritando: “eu estou aqui!”. 

Todo o fluxo de passados não apagados, de lágrimas não choradas, de palavras não ditas continua dentro de mim, corroendo de forma lenta e gradual as coisas bonitas que antes me significavam. E ao mundo exterior, continua sendo como se eu não existisse. Continua sendo como se eu fosse uma dessas pessoas nascidas para a dedicação e o sofrimento, para o amor ao próximo e o altruísmo. Quando o que eu sinto dentro em mim é apenas o pulsar do pensamento latente e pusilânime, de que na verdade dessa vez eu estou preocupada com a única coisa que sempre me pertenceu e me contemplou: eu mesma. 

Mas não importa, não adianta, não é funcional. Ouvir aos meus pleitos desesperados por migalhas de consideração não é interessante. E mesmo que eu repita um milhão de vezes que algo me machuca, que algo está doendo, que eu estou dilacerando de dentro pra fora, que o meu coração vai pular pela boca, parar na palma da minha mão e encher a calçada de sangue – ninguém me escuta. Continuam falando dos seus amores inexistentes enquanto seus egos enormes são perfeitamente visíveis a qualquer indivíduo que os olhe nos olhos. Continuam ecoando as suas ordens, os seus pedidos, as suas demandas. 

Ainda que eu queira provar para todo o mundo que eu sou um ser humano, já não é possível. Falta tempo hábil. Eu já fui muito polida, eu já forcei a educação, eu já forjei bom humor e tentei ser engraçada pelo medo de que em uma tentativa mais real e tangível de ser eu mesma, falhasse miseravelmente com o que eu desejava que fosse meu reflexo. Busquei nos mínimos detalhes parecer interessante, refinada, peculiar, enquanto eu só queria vestir minhas calças do pijama e beber um leite com chá-mate.

Todos estão surpresos, estão chocados. Agem como se estivessem sob a mira de um rifle porque de uma hora pra outra perderam seu muro das lamentações e ganharam uma chata, que lhes diz o que mais odeiam ouvir. Devem estar se perguntando, longe da minha vigília, onde se esconde sua sempre prestimosa amiga que em tempos não tão longínquos lhes diria que são incríveis e que o resto do mundo está errado.

Eu estou bem aqui, afirmando que não quero ouvi-los! Eu estou falando que eles me incomodam! Eu estou falando que são mentirosos, que são insensíveis, que me desrespeitam! Mas já entendi: É que uma moça como eu, que sempre engole o choro e fica com um sorriso pálido no rosto, não pode resolver deixar de ser uma máquina de fazer pessoas se sentirem melhores para de repente, querer ela própria se sentir bem. Não pode deixar de ouvir sobre a semana que vai mal, sobre o trabalho que não conseguiram terminar, sobre a garota estúpida que amam. Não pode refutar as qualidades incríveis e inigualáveis que possuem, não pode questionar a veracidade das coisas que sentem, não pode duvidar do caráter retilíneo que carregam, não pode discordar das posições políticas que são esfregadas em sua cara e despejadas ao vento como lixo. E essencialmente, não pode deixar de rir das piadas que consideram conceituais e inteligentíssimas.

É um teorema: ou eu me mantenho em silêncio pelo resto da vida escutando todas as imbecilidades da existência efêmera destes que se dizem meus aliados, ou resolvo por hora que também quero falar de mim. E que posição desconfortável! Se eu ficar com a primeira opção, fico calada para poder manter tudo neste padrão que se segue, quase arrastado desde sempre. Mas se eu ficar com a segunda, acabo calada porque estarei sozinha. Porque não haverá quem me ouça. Quem vai ouvir a única pessoa em quem se é possível debruçar e debulhar todos os problemas da vida? Certamente eu não conheço ninguém.

Resolvi, por bem, investir algumas tentativas. Mas desisti. Inevitavelmente, me dirão que a conversa se encerra por qualquer motivo idiota, e boa noite. 
Eu só conheço gente sem coração que se finge de depressiva pra masturbar o intelecto. É o mesmo tipo de gente que se sente ignorada porque eu passo sem óculos e com os meus cinco graus de miopia e não os vejo, mas não acha que eu me sinto ignorada quando eu grito que sinto dor, e não me pedem desculpas.

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