Category Archives: Feminismo

Sobre sororidade: breve história de como me tornei feminista

*Prometi esse texto e estou cumprindo. Para a linda e brilhante Emmanuele Aldine, que tem muito de mim quando eu era uma menina, e tudo pra ser uma mulher melhor do que eu sou.

Na minha adolescência eu fui uma menina triste. Parei de dançar ballet lesionada aos 13 anos de idade. Dos 53 kg passei aos 65, e ninguém me contou o que era body positive nessa época. Não me contaram também que a sociedade era preconceituosa, e que cortar os meus cabelos bem curtos e pintá-los de roxo, depois de vermelho fogo, não ajudariam a evitar que eu ouvisse todos os dias alguma gracinha sobre a minha aparência.

Ninguém me disse também que decisões como começar/terminar um namoro, ou aderir a coisas ditas “masculinas” como gostar de rock’n roll ou jogar sinuca me tornariam uma “vadia”, e que por isso eu merecia ser xingada/hostilizada/escrotizada. Eu chorei muito. Eu só queria fazer coisas que eu escolhi pra mim, mas o patriarcado já agia sobre a minha vida, e eu já tentava resistir, dar de ombros. Parecia tão impossível e infindável…

Mas aos 17 anos, já universitária (já que me tolheram o amor próprio e a livre sexualidade em boa parte da minha vidinha, estudar foi uma grande saída), a primeira palestra de boas vindas aos calouros que fui assistir era sobre gênero. Até então tudo o que eu sabia sobre gênero era o famoso bordão “concordo em gênero, número e grau” e foda-se. Sentada na palestra, ouvi uma militante da Marcha Mundial das Mulheres falando sobre a sub-representação e a objetificação das mulheres na literatura, nos filmes e nas propagandas. Olhei a vida com uma abordagem mais crítica. Me culpei menos. Ela foi a primeira mulher que mudou minha vida, embora eu nunca mais a tenha visto.

Aí precisei ganhar dinheiro. Um amigo (salve Higor Valente!) me ligou em uma quarta-feira cinza pra caralha e falou “e aí, tô com um estágio, você topa?”. Eu topei. Era um estágio em um Centro de Cidadania da Mulher.

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(Eu e o Higor nos tempos de estágio. Lutando e construindo a igualdade de gênero.)

Lá, confrontei a minha realidade de mulher branca e pequeno-burguesa, com a realidade das mulheres negras e pobres. Vi a feminização da pobreza. Vi o racismo, a misoginia. Vi mulheres que jogaram água fervendo em seus maridos depois de vinte ou mais anos de agonia, sofrimento, dor. E no dia do meu aniversário, vi uma mulher entrar por aquela porta em meio ao sangue e sem lágrimas pra nos dizer “meu marido me esfaqueou”. Essa foi a segunda mulher que mudou a minha vida, embora eu sequer saiba o seu nome. Eu precisei me aprofundar no tema, porque minha concepção rasa já não era suficiente. Eu queria dizer algo mais que “espere o defensor público”. E eu consegui. Até o fim do meu estágio, várias vezes eu repeti: “você é capaz, todas nós somos”, e acho que essa era a melhor coisa que eu podia dizer naqueles momentos.

Depois do estágio, já me considerava feminista. Já tinha lido sobre o tema, mas eu ainda era solitária. Não tinha coragem de chegar em uma mulher e dizer “alô, você é minha irmã, vamos marchar pela nossa liberdade”. Me faltava coragem pra falar sobre as agressões físicas, verbais e psicológicas que eu já tinha sofrido em diversos espaços. Faltava gritar que meu corpo não é um espaço público, que não sou um espaço que tem como finalidade o prazer, e que não pedi a opinião de ninguém sobre meu peso ou minha depilação. Faltava orgulho de dizer que sim, uai, sou feminista, sou mulher, SOU LIVRE. Doa a quem doer e custe o que custar.

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Um dia, casualmente, fui a uma festa universitária. Lá, vi uma mulher apanhar. O agressor se “justificou”: ela gritava! Mesma justificativa que usaram pra me bater, há exatos cinco anos atrás. Me calei. Não enfiei as mãos na fuça dele, não a acompanhei a delegacia. Ela era Marta, a terceira mulher que mudou a minha vida, embora nunca tenhamos sido amigas íntimas.

Isso ficou martelando na minha cabeça: qual a finalidade do feminismo acadêmico, se ele não virar militância? Eu precisava ir pro espaço público. Eu precisava ocupar as ruas pra gritar que elas eram minhas. Eu queria e era uma necessidade, ajudar todas essas mulheres que fizeram algo por mim, mesmo sem saber. Pelas mulheres que lutaram por um futuro prodigioso e de auto-gestão pra mim e para todas as mulheres.

Li muito. Conheci muita gente. Fui me infiltrando, quase que como uma formiga, nos grupos, nos coletivos, nas festas. Não me calei diante das outras violências de gênero que presenciei, e embora agora eu tenha quem me ameasse, me orgulho de assumir posições.
Então eu precisei de ajuda. Eu precisava chorar um tipo de situação que não se chora com qualquer pessoa. E essa foi a primeira vez que eu me senti fragilizada e podada como mulher. Essa foi a primeira vez que eu pensei “hoje eu preciso de uma feminista”. Liguei pra Carolina, e ela foi a quarta mulher que mudou a minha vida. Nunca tínhamos nos visto pessoalmente, mas no mesmo dia ela se materializou na minha frente como em um passe de mágica, e desde então, não quero (e não vou) desgrudá-la.

A partir daí eu ganhei a firmeza que me faltava pra entender que temos que estar na rua, e temos que estar na universidade. Temos que estar nas empresas, e temos que estar em casa. Temos que estar na Marcha das Vadias, e temos que estar nos grupos online. Temos que estar, enfim, EM TODOS OS LUGARES.

Porque a sororidade me salvou. Porque a sororidade me libertou, me engrandeceu e quebrou o meu silêncio sem nunca me cobrar nada em troca. E então quero poder dizer pra todas as mulheres que passarem pelo meu caminho: você se pertence.
Por isso nessa MdV 2013, escrevi no corpo apenas “SOU MINHA” – claro, simples, minimalista. Porque é sendo minha que posso ser de luta.
E se eu tenho algo a dizer, pra encerrar esse texto, é: LEVANTE, MULHER! Não tenha medo. Tenha empatia. Você é linda, forte, capaz e plena.

Imagem(Marcha das Vadias de São Paulo 2013, em companhia dxs lindxs do Machismo Chato de Cada Dia)

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A gente não sabe militar

Uma garota branca, cissexual e moradora do estado mais rico da federação acha por bem criar uma página denominada “Feminismo de Redes Sociais”, na qual busca denegrir a imagem de um movimento que vem se construindo e superando barreiras. Deliberadamente, faz chacota envolvendo a sociedade patriarcal e sexismo, como se as militantes feministas fossem loucas, histéricas e exageradas.
Nada consta de novo nessa perspectiva, que é um clássico revisto do machismo tátil da sociedade. Mas algo ainda me surpreende: na descrição da página, a frase “nada contra o verdadeiro feminismo” salta à minha percepção. É claro, quem além de alguém que claramente nunca pesquisou sobre o tema, e que sequer se sente oprimido por estar imerso em um mundo cômodo de privilégios, poderia nos contar o que é o verdadeiro feminismo? A pretensão teórica, sociológica e política que tal frase carrega é uma insígnia de desconhecimento e não de desonestidade intelectual.

Concomitantemente, surge na minha timeline um colega de faculdade bradando contra os camaradas que compartilhavam em tempo real, imagens da Aldeia Maracanã e dos protestos em prol dos indígenas, expulsos de suas terras para a construção da Copa do Mundo de 2014.
O escrito dizia que nós, mulheres e homens da cidade grande, deveríamos nos preocupar com os bolivianos presos em trabalhos escravos, costurando para grandes marcas como Zara ou Marisa, e não com os índios, distante realidade.
Dessa vez, a contradição histórica exposta não é só desonesta, como reflete uma sugestão implícita: escolha um único tema e milite por ele. Porque é claro, lutar pelos índios te impede em completo de ser a favor da liberdade de bolivianos, você não sabia? (ative o alarme da ironia, por favor)
Mais uma vez, temos aqui uma falácia. Quem escolhe porquê e quando militar é o indivíduo, sujeito histórico imerso em seu tempo. E facilmente digo: quem detém o privilégio se mostra pífio quando tenta calar o oprimido.

Ainda no tema, venho relembrar o desfile de Ronaldo Fraga. Palha de aço na cabeça de modelos, em sua maioria brancas, e para o estilista, temos uma homenagem aos negros. Os negros não gostam dessa homenagem. Os negros se sentem ofendidos e eles tem licença para tal, porque qualquer pessoa tem, e com minorias não é diferente.
Mas a Revista Marie Claire não gosta que os negros não tratem como homenagem um ato que repete visualmente a ofensa que eles tem ouvido ao longo de toda a vida. E a revista, com seu público branco da classe média, resolve defender Fraga. Publica então que o movimento negro – movimento de lutas, de conquistas, de vitórias – cochilou durante todos esses anos em que modelos brancas estiveram nas passarelas. Como se o fato de elas estarem na passarela com bom-bril nos cabelos limasse o fato de elas estarem lá, e como se toda a luta para que os negros pudessem ocupar espaços antes meramente brancos (inclusive a moda!) não estivesse em curso há décadas e adivinhem: exatamente agora!

Essa é a realidade: nós não sabemos militar. Nós não existimos.
Porque as minorias são ridicularizadas pelos “verdadeiros revolucionários”. Porque não basta não concordar, não basta refutar no nível das ideias. É necessário ridicularizar, é necessário ofender, é necessário fazer chacota.
Porque não é suficiente estabelecer considerações e contradizer argumentos. É necessário decidir pelo que, quando e quem pode defender algo.
Rever estruturas incomoda. Mexer no status quo deixa os brios em polvorosa. Mas o meu consolo vem na reflexão: a qualidade dessas declarações é tão fugaz quanto os privilégios: passa, se realoca e basta um pouco de conhecimento histórico para torná-los mentira e reduzi-los a pó.

A nós, mulheres, negros, índios e privilegiados em busca de um mundo sem privilégios, resta a luta. Porque ninguém decide por ninguém e não perco a chance de citar Beauvoir: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.”Imagem

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Não tenha nojo. É só uma vulva!

Há algum tempo decidi que nos meus raros momentos livres, vou me dedicar a ler os blogs feministas que já sigo e a conhecer novas postagens sempre que possível. Depois que comecei a me engajar menos teórico e mais praticamente, conhecendo outrxs gurixs que lutam pela igualdade de gênero e não se escondem atrás dos papéis atribuídos ao feminino/masculino através dos séculos, tenho aberto a minha mente às militâncias diferentes das minhas e às concepções que por vezes eu não havia cogitado pensar.
Então hoje, decidi ir ao blog de uma feminista com quem briguei (é, não debatemos ideias, brigamos mesmo) pelo Twitter há alguns meses atrás. Ela é Nádia Lapa, (ou Letícia Fernandez, aos que gostam de homônimos) da página “Cem Homens”. Dei de cara então com um conteúdo que me chocou: apenas 1 em cada 5 mulheres recebeu sexo oral de seus parceiros no período de um ano, de acordo com a estatística veiculada por Nádia. Isso mesmo, vou repetir: UMA EM CINCO, APENAS.
Essa foi a hora que eu comecei a caçar mentalmente todas as experiências sexuais que já tive na vida. Não me lembrei (e sinto certo alívio, confesso) de ter tido sequer um parceiro que tenha se recusado a me fazer sexo oral. Diria até que nas relações heteronormativas que eu tive, a iniciativa para tal tipo de prazer sempre partia exatamente dele.
A comichão com a história do tabu do sexo oral acabou por me incomodar. Após uma reflexão intensa, algumas indicações de leituras e um pouco de debate e troca de experiências, concluí as razões para que essa prática seja incomum no universo cissexual, criando esse engodo, já que em média 70% das mulheres não atinge o orgasmo apenas com a penetração.
A primeira, por excelência, é a ideia da servidão feminina. Fomos educadas à cumprir deveres estabelecidos sob um papel de subserviência de nosso gênero ao gênero masculino. Desta forma, uma prática sexual que torna o homem o coadjuvante e a mulher o elemento central vem a ser uma possibilidade, mesmo que inconscientemente, degradante para o “macho-alfa”. Afinal, o oral exige um momento de dedicação e preocupação com o prazer do outro, e quando isso deve partir de um homem para uma mulher, é tratado com essa estranheza. Para comprovar, basta perceber a naturalização do sexo oral masculino. Qualquer televisão de motel nesta cidade está passando nesse exato momento uma moça com os lábios no falo de um rapaz. Difícil é encontrar um puto filme que mostre um homem lambendo as partes íntimas de sua parceira sem pudor e principalmente, sem nojo.
E por falar em nojo, o segundo motivo se disfarça através dele. Essa ideia de que o sexo oral seja nojento quando feito em uma vagina advém da misoginia propagada pela nossa sociedade. Crescemos absorvendo os mitos de que o órgão feminino deve ser escondido, de que é sujo e intocável. Assim, a mística criada sobre os fluidos e partes femininas como o leite materno, a menstruação e o líquido do período fértil, são estendidos ao próprio aparelho reprodutor feminino. Como tocar com a língua o que se aprende ser apenas para colocar o pênis? Como passar os lábios naquilo que não passa de um instrumento para o orgasmo? Sejamos sincerxs: os homens não vem sendo criados para gostar de buceta. São criados para sentir prazer com elas.
O terceiro, e último motivo que quero listar, é também parte da educação patriarcal e é absorvido essencialmente por nós mesmas. Demorei para concluir e para me lembrar dos primórdios das minhas experiências antes da emancipação feminista. Mas me lembrei: a regulação e o receio são comuns às garotas. Educadas para a discrição e não para o deleite,  treinadas para o pudor excessivo e não para a ostentação da sexualidade, encarnamos os mitos machistas que buscam suprimir e castrar psicologicamente os nossos corpos. Ostentamos os moldes patriarcais através da negativa do nosso prazer em detrimento do prazer do outro. A ideia do mau-cheiro, da feiura e da necessidade de oferecer prazer ao invés de recebê-lo perpassa nosso universo adolescente e, costumeiramente, estamos lá, negando o sexo oral. Esse receio que temos de nossas próprias partes íntimas nos torna escravas de um ritual de sexo onde o nosso gozo não passa sequer perto de ser relevante.
Portanto, chega a ser gritante a necessidade da quebra desses valores. Vaginas são diferentes em seus formatos, em seus cheiros, em suas necessidades. Clitóris precisam ser estimulados em suas potencialidades. E mulheres, é claro, são donas de suas vaginas, clitóris e desejos. Então, pra nos empoderarmos basta pensar que não é, e não dá pra ter nojo… é só uma vulva! E sexo não tem que ser nada além de reciprocidade e troca. Vamos chupar!

*Link para o texto da Nádia Lapa: http://cemhomens.com/2013/01/oral-so-em-uma-a-cada-cinco/mens/
*Link para o texto da Thaís Campolina, que me ajudou muito nessa publicação: http://ativismodesofa.blogspot.com.br/2012/06/menstruacao-autoestima-e-odio-ao.html
*Agradecimento mais do que especial à todas que trocaram ideias e me inspiraram imensamente no Machismo Chato de Cada Dia: esse texto é, sobretudo, uma homenagem pra vocês.

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NÓS NÃO NOS CALAMOS: O MACHISMO NÃO PASSOU

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Esse é só um agradecimento. Um jeito de dizer muito obrigada pelo barulho que todos os setores acadêmicos nos ajudaram a fazer. Foi muito bonito e extremamente agregador ver gente de todos os tipos de pensamento político se unir pra gritar que “a luta é todo dia, contra o machismo, racismo e homofobia”.
Obrigada pelo papel de cada um no debate, na confecção dos cartazes e no batuque encantador que rolou durante a marcha. “Olha a Geni na pista, não pense com a sua pica, não pense com a sua pica, não precisa ser viril: cem por cento desse mundo foi as puta que pariu.”
E essa é história do dia em que o machismo não passou.

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A SOCIEDADE NÃO QUER HOMEM QUE BATE EM MULHER

À Universidade Federal de São Paulo
seus gestores e corpo estudantil:

Na última sexta-feira, nosso campus acadêmico pode presenciar um dos acontecimentos mais lamentáveis e dignos de repúdio já presenciados. Um de seus discentes agrediu a colega de graduação, com quem tivera um relacionamento no passado. Presentes no recinto, alguns guardas, contratados teoricamente para assegurar fisicamente os alunos que convivem naquele espaço, nada fizeram. Outros colegas que assistiram a deplorável cena tentaram auxiliar, afastando os envolvidos.
Não me contento em perpassar esse breve relato sobre a cena, que não presenciei pessoalmente, mas a qual me foi contada pela própria vítima, minha amiga pessoal. Quero expressar aqui, minha indignação imensurável perante os que estiveram presentes durante todo o ocorrido e não se dignificaram a auxiliá-la antes que ela pudesse sofrer flagelo – ou seja, presenciaram a violência verbal, as palavras ofensivas e machistas proferidas pelo rapaz e continuaram imóveis. Venho relembrar um antigo grito utilizado pelas feministas: “em briga de marido e mulher, se mete a colher”. Digo isso, pois tenho convicção de que toda a sociedade deve se responsabilizar pelas desigualdades que carrega, já que estas são produzidas por todos nós. Portanto, tratemos de nos indignar, tratemos de ver que isso não é normal e de carregarmos conosco a possibilidade de mudar essa triste realidade através de nossas atitudes e do repúdio à violência e discriminação, incluindo quando esses engodos são ligados ao gênero.
O envolvimento intrínseco que temos todos nós com esse caso, se dá por alguns fatos que pontuarei a seguir:
Primeiramente, gostaria de relembrar essencialmente aos graduandos um episódio ocorrido durante nosso tenso período de greve. Lembram-se da aluna que foi chamada de ‘vadia’ por um membro da Associação Atlética Unifesp Guarulhos? Durante esse tempo, vi incontáveis manifestações sobre o assunto e propostas de linchamento público estavam inclusas. Embora eu tenha sido contra tais proposições, não fui complacente com a atitude e sugeri que os poderes públicos fossem envolvidos para que a lei resolvesse a questão. Pois bem, não sei dizer se isso foi feito. Mas o que quero dizer relembrando esse caso, é que os grupos de esquerda souberam se organizar e demonstrar suas posições de repúdio ao machismo. Questiono: onde estão estas pessoas agora que o agressor é parte do próprio movimento estudantil e fez parte da greve supracitada? Gostaria, sinceramente, que esse silêncio fúnebre que se encontra entre nós desde o ocorrido fosse quebrado. Não existe companheiro que bate em mulher. O machista de esquerda, direita, centro e o apolítico são absolutamente a mesma coisa. Apelo para a não omissão de cada organização presente no seio de nossa autonomia estudantil.
Agora, quero dirigir-me à gestão desta universidade. A questão que relatei aqui aconteceu dentro do campus, no espaço público federal onde estudamos. Isso não pode ser tratado como um problema pessoal da vítima, principalmente tendo em vista as afirmações de que o agressor tem problemas psicológicos que necessitam de tratamento. A universidade tem uma Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE). Pois bem, este é um assunto estudantil delicadíssimo, que envolve traumas e dissonâncias, e creio que essa instância deve apurar o ocorrido e oferecer segurança institucional para sua aluna agredida. Aluna esta, que lembro aos senhores, produz ciência por esta instituição. Portanto, os vínculos acadêmicos dos envolvidos não podem ser ignorados, de modo que aguardo ansiosamente pelo processo de sindicância e pela resposta oferecida pela Unifesp, que não pode simplesmente obrigar uma mulher agredida a conviver com seu agressor. Ressalto, para que não repitam o argumento, que a justiça utilizada por todos os civis será também acionada nesse caso. O que quero dizer quando peço a intervenção da Universidade Federal de São Paulo, é que essa instituição está indissoluvelmente ligada com essa questão, já que a mesma ocorreu dentro do campus e sob os olhos de todos nós. Quando janelas são quebradas, alunos sofrem sindicância. Quando mulheres apanham, nada se passa?
Por fim, pontuo os meus motivos e minha ideologia, que fazem essa carta ser redigida:
Quando uma mulher é agredida, eu também sou agredida. Quando uma mulher é violentada, eu também sou violentada. Todas as mulheres são.
Então não vou me calar, porque quando a lei nada oferece a essa mulher, a lei garante que nada oferecerá para mim. E defendo a ideia de que quando a instituição onde estão inseridos vítima e agressor não toma partido em favor do oprimido, ela legitima a violência que ocorre sob o seu teto – ela está sendo conivente, omissa – e com efeito, pífia. Uma universidade é espaço de emancipação. Negar a violência e lutar contra a mesma é o maior ato de emancipação e autonomia que conheço.
Nada justifica a agressão, a violência de gênero, a desforra. Não é distúrbio psicológico algum, ou o álcool, ou qualquer entorpecente que há de justificar que uma mulher tenha cerceado seu direito de ir e vir, que continue a sofrer a violência histórica que se estende desde tempos imemoriais. Nada é capaz de tornar isso plausível. Mas isso se torna essencialmente inaceitável em um espaço de produção do conhecimento, um espaço que deve questionar o status quo e prezar pela primazia do diálogo e pelo poder das ideias.
Não vou me cegar, não vou silenciar. Previamente digo que eu vou incomodar todos vocês que viram e nada fizeram. Vou incomodar todos vocês que permanecem em silêncio, que negam a justiça e o direito de manifestação. Vou incomodar, beirar a inconveniência com todos vocês que compõe essa instituição, sua burocracia e seu corpo acadêmico, e que nada estão fazendo para mobilizar suas instâncias em favor de uma causa que grita ao mundo a necessidade de libertação de todo um gênero.
Não há persona que possa se enquadrar fora do estigma de machista quando está reproduzindo a cultura do patriarcado. O rótulo de estudante nesse caso, vale menos que as desculpas escusas usadas de forma tacanha pelas supracitadas pessoas e órgãos, para tentar nos calar.
Por fim, convoco a todos que estão realizando essa leitura: somos muitos, inúmeros. Vamos nos fazer companhia, vamos mostrar que somos coesos. – MEXEM COM UMA, MEXEM COM TODXS! E se a UNIFESP não nos amparar, e se os ‘companheiros libertários’ tentarem tampar nossas vozes em nome de uma unidade no movimento estudantil, não vamos aceitar, não vamos nos omitir. Essa é a nossa causa, e nós somos a frente, a base e o coração dela. SOMOS TODXS KATHLEEN! Vamos fazer um barulho intenso que venha a incomodar e expulsar os agressores e seus convivas. Costumo dizer “mulher, não se cale”. Desta vez vou fazer melhor: comunidade acadêmica: NÃO SE CALE.


Viviane Sanchez
Universidade Federal de São Paulo
Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Ciências Sociais, 3º termo

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Quando você deixa de existir porque não pesa 50kg

Quando você deixa de existir porque não pesa 50kg

Seguia a minha rotina de analisar as revistas que chegam na biblioteca do meu trabalho. Uma, em especial, me chamou atenção. Entre todas as publicações de Direito, de Política e as específicas de orientações ao consumo, havia uma com um título simples: “Saúde”. Achei interessante. Geralmente essas revistas se chamam Saúde e Beleza, ou Beleza Saudável. Ou qualquer besteirol que diga sutilmente “você só é saudável se estiver no padrão vigente de peso”.

Abri a revista e fui folheando. Algumas coisas sobre leguminosas e suas vantagens pro funcionamento do intestino, algumas coisas sobre as vitaminas que se encontram na casca das frutas, algumas coisas sobre o excesso de sódio que traz malefícios ao funcionamento dos rins. De repente, essa imagem me saltou aos olhos.

Em destaque, a moça magra, seios fartos, cabelos alisados. E os dizeres “Acumule elogios e não gordura”. Acho que voltei no mínimo umas quinhentas vezes para reler a frase. Queria me convencer, inconscientemente que não estava sendo sugestionada por uma publicidade de remédios para emagrecimento, inserida em uma revista sobre saúde, que mulheres gordas não são passíveis de elogios.

Mas sim, está aí, vocês podem ver com seus próprios olhos. Estão disfarçando, sobre o pretexto de que é saudável, um velho conceito, um estigma que não passa de uma construção social torpe: estão te dizendo que se você não é assim, quase uma boneca recém saída da fábrica, você não serve pra nada. Você não agrada a ninguém.

Além da questão do peso, colocada como centralizadora pra sua boa vivência entre os seus pares e com o seu próprio espelho, me chamou a atenção a forma como “elogios” são pontuados. Além de não existirem elogios referentes à beleza de mulheres de outros biotipos, não existem elogios dirigidos à mulheres que não sejam sobre a aparência das mesmas. É como ler “Você está acima do peso que te dizem ser o ideal? Tome remédios querida, ou você não agradará ninguém de nenhuma forma, e visto que seu único papel é agradar os olhos alheios, emagreça agora!”.

Voltando à questão da saúde, deixo a pergunta pra vocês, amigxs: as fixações e traumas causados pela busca desenfreada desse padrão imposto, não são questões de saúde pública? Eu creio que sim.

Encerro dizendo que uma publicação que pretende dissertar sobre hábitos saudáveis, não deveria incluir em seu conteúdo uma besteira estapafúrdia que afirma que todas as mulheres devem ser magérrimas para serem desejadas e queridas. Tampouco, deveria incitar o uso de remédio sem prescrição médica para que essa meta tacanha seja atingida.

Repito o que já disse aqui: o machismo mata. A busca pelo corpo ideal é só mais uma das formas pelas quais esse caráter assassino e brutal se manifesta. Somos mulheres, não pedaços de carne. Somos reais, somos vivas, somos diferentes. E temos o direito de sermos. Em tempo: somos lindas, por mais que para efeitos de mercado não nos digam.

Meus parabéns e um viva para todas as mulheres, sobretudo as reais.

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Cuidado, mascu à vista: é proibido chupar sorvete. Para mulheres.

A história que vai ser contada se passou hoje, com 32º em São Paulo, tempo horrivelmente seco e uma distância de cerca de 10′ que separam a estação Barra Funda do meu trabalho na Fundação Procon/SP. Até lá, eu deveria percorrer os metros correspondentes ao Memorial da América Latina – aquele lugar enorme de puro concreto que inviabiliza qualquer sombra. Foi então que eu tive uma ideia genial: comprar um sorvete.

Parei em um boteco e pedi um daqueles sorvetes de morango, que vem com os pedaços da fruta picada. Saí caminhando, seguindo de abraço com a minha rotina e pensando na prova que mais tarde, eu entregaria ao meu orientador. Minha preocupação não era o sorvete. Minha preocupação não era a caminhada. Minha preocupação, naquele momento, não era o feminismo. Éramos só eu e o medo de ter escrito alguma boçalidade enorme na prova que deveria entregar pro cara que pode me separar da minha belíssima bolsa Fapesp.

Comecei a perceber um volume anormal de buzinas pra’quele horário. E a maioria dos homens por quem eu passava, me seguia com os olhos e com aquela feição que te faz se sentir um pedaço de carne pendurada no açougue. Eu parei de pensar na minha prova e olhei pra mim mesma, quase que instintivamente, checando a minha roupa, que estava perfeitamente limpa, seca e no lugar. Até que passei por um cidadão que me disse, como que se dirigindo à uma escrava ou a um objeto: “Me chupa como você está fazendo com esse sorvetinho, sua gostosa”.

Então eu comecei a andar mais rápido. Eu sentia tanto medo, eu sentia tanto nojo, eu sentia tanta vergonha, que eu não podia explicar. Ele continuou me seguindo, e de dentro do carro, continuava falando “Volta aqui, gracinha! Por que você tá fugindo de mim, ahn?” E ele ria de uma forma tão psicopata, que eu só sentia que ele podia se apropriar das minhas sensações e rir sadicamente de como ele era capaz de me acuar feito um bicho.

Coloquei os óculos escuros. Eu estava escondendo até os meus olhos pra poder fugir de um cara que achava que eu era uma coisa – e pior – uma coisa dele, sendo que sequer eu tinha o visto algum dia nessa minha vida. E ele continuou me seguindo: “Botando ou não esses óculos, você continua chupando. Como uma puta.” Pronto. Aí ele se fez entender, e aí eu respondi. Não porque ele chamou de puta. Mas porque foi aí que eu saquei que ele era só mais um machista da pior espécie, mais um fruto do patriarcado, que achava que por eu ser mulher, ele podia me ordenar qualquer coisa. E que se eu não fizesse, me chamar de puta me desqualificaria enquanto ser humano. Com esse tipo de gente eu posso lidar, afinal infelizmente minha cidade está impregnada deles. Gritei o mais alto que os meus pulmões puderam: “VADIA OU NÃO, EU SOU LIVRE.NÃO CHUPO VOCÊ PORQUE EU NÃO QUERO, PORQUE VOCÊ NÃO ME EXCITA, SEU BABACA. MEU CORPO É MEU, NÃO SOU PROPRIEDADE SUA, MAS SÓ MINHA!” O cara foi embora fugindo de mim, acelerando o carro o máximo que podia.

Ao contar isso pra um amigo meu, ouvi a resposta que me chocou mais ainda: “Relaxa, Vivi. Os homens tem tara por mulheres comendo coisas em formato fálico.” MAS O QUE? Tá. Então se hoje eu resolvo que uma maçã cortada ao meio, ou uma esfirra fechada parecem uma buceta, e entendo que homens comendo essas coisas me enchem de tesão, eu posso ver um cara na rua mordendo uma maçã e gritar pra ele “hey, gostoso, vem cá e me chupa igual você tá fazendo com essa maçãzinha”?!?!? Isso é objetificar pessoas. E por que isso só acontece ~curiosamente~ com mulheres? A resposta é tão óbvia, é tão clara que nem vale a pena comentar, né sociedade patriarcal?

Quanto a mim, estou feliz por ter amendrotado esse otário. Por ter feito ele se sentir como eu me senti, e como muitas mulheres se sentem todos os dias por culpa de machistas como ele. Mas eu queria não ter de fazer isso constantemente, não ter que relatar mais casos de violência contra mulheres. Estou chocada, porque a lista vem aumentando. Antes a gente não podia usar mini-saia, depois não podia usar mais calça jeans porque marcava demais o corpo. Aí descobri esses dias, que também não podemos beber ou dormir em festas, porque fora de nossa consciência o estupro passa a ser culpa nossa. E hoje, nesse lindo dia de céu aberto, descubro que temos uma nova convenção: é proibido chupar sorvete. Logo algum mascu propõe essa lei ao Kassab e ele a outorga, pra finalizar o mandato. Parabéns, sociedade… estamos indo bem… mal.

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O machismo deles é culpa do silêncio coletivo de vocês

Há algum tempo atrás, eu tive um namorado. Este, me punia com socos, puxões de braço e apertões. Dizia me punir quando eu bebia, quando eu gritava com ele ou quando eu chorava soluçando. Ele dizia que era irritante, que agredia os ouvidos dele, que o fazia passar vergonha na frente dos amigos. Eu me portava como uma vadia. Porque eu bebia, porque eu falava alto, porque eu chorava – chorava quando ele me batia. 
Os amigos desse cidadão assistiam a tudo. Parados, muitas vezes forjavam estar perplexos. Mas nunca faziam nada. Eu não os culpava, e por muitas vezes, não culpava o rapaz que diretamente me agredia. Eu pensava que talvez tivesse me portado como uma vadia, que talvez tivesse gritado irritantemente, que talvez meu choro fosse digno de punição. Eu pensava que deveria crescer, amadurecer, parar de fazer as coisas que eu fazia, por mais que fossem atributos da minha personalidade ou me dessem qualquer tipo de prazer.
Por muito tempo eu me proibi de questioná-lo. Por muito tempo, ele me deixou cicatrizes. Nas pernas, nas mãos, no nariz. O meu rosto é marcado por um homem que se sentia no direito de me punir porque eu não me comportava da forma como ele acreditava que uma mulher deveria se comportar. Mas depois de todo o tempo que passou, depois de compreender que eu não era uma vadia, nem deveria ser uma santa – que eu não deveria me privar de nada, e que eu posso me comportar como eu quiser e desejo que todos possam, eu entendi que ele não fizera isso sozinho. Ele fez isso com a ajuda de muitas mãos. Das mãos daqueles que assistiram a isso e não o condenaram. Desses que creram que apenas porque não estavam dentro dessa relação, não sabiam o que se passava nela. Culpa. Sim, culpa. Culpa dos que diziam que era uma questão íntima, dos que tiveram medo de vincular seus nomes a situação. Todos eles são machistas. Todos eles me bateram, me marcaram.
Agora, anos mais tarde, eu tenho outro namorado. Este é universitário, como eu. Por todo o tempo do nosso namoro, frequentamos festas e círculos universitários. Essas pessoas, nossos colegas, pareciam a olhos nus mais esclarecidos, orientados, conhecedores da vida, questionadores do status quo. Pois bem: talvez não o sejam. 
Ontem, estávamos em um desses milhares de inter-alguma-coisa que são promovidos nas universidades públicas. Presentes neste espaço feito para se jogar futebol, beber cerveja e falar besteira. Meu namorado aguardava por mais um dos jogos marcados para o time que defende, o time dos meninos de sua sala – ou seja, o time dos universitários, como nós. Foi ao fim deste jogo, após a derrota que os eliminou do campeonato, que uma das colegas de sala dele foi agredida. Há quem diga que ela gritou o nome do time na torcida adversária. Há quem diga que ela apenas estava comemorando um dia feliz. Não me importa. O que aconteceu não é de minha alçada. O que importa é que um dos presentes no recinto, homem, branco, heterossexual e universitário se dirigiu até ela e a derrubou no chão com a clara intenção de machucá-la.
O evento era sediado na Atlética da Universidade Federal de São Paulo e organizado pela Atlética da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ou seja – estávamos em um espaço público de um evento acadêmico público. E neste espaço, mesmo após o chamado para a polícia, nada foi feito para se fazer valer o que está escrito nas letras da lei. Nada.
No dia, insatisfeita, eu gritava ao meu namorado que deveríamos ficar pra ver, que deveríamos assistir o desfecho. Ele estava cansado, mas me garantiu “depois eu e os meninos resolveremos”. Resolveriam, se isso dependesse do meu namorado, feminista, consciente, com sede de igualdade. Foi então que eu descobri que isso não dependia…
Esperei pela nota em repúdio da ação com o nome do time. Esperei pela nota, com o fim assinalado “Unidos do Marlboro”. A nota não veio. Eu questionei ao Diego onde ela estava e ele resolveu abrir o facebook. Lá, li a discussão dos outros jogadores. Eles defendiam que o nome do agressor não fosse citado. O nome da vítima? Ninguém se importou com a exposição ou não. Creio que não tenham dito a ela nem que isso fora um despautério. Em meio a discussão, alguém diz: “não quero o meu nome vinculado a isso”. 
Pronto: eles também são homens que me bateram. Eles também marcaram o meu rosto. Eles me bateram junto com o meu ex, junto com os amigos do meu ex. Bateram em mim e em todas as mulheres já agredidas. Estupraram todas as mulheres violentadas. Colocaram fêmeas em cadeiras de rodas, as queimaram vivas, as enterraram enquanto ainda respiravam. E fazem isso todos os dias. Por que? Porque são mulheres, porque é problema delas, porque não querem seus nomes europeus – herdados de seus pais – vinculados a sujeira e ao sangue dessas mulheres. Devem preservá-los, mesmo que isso signifique preservar um status quo que diz que mulheres podem apanhar porque gritam, porque choram, porque são mulheres. O não questionar, o não vincular-se, o silêncio são pactos com tudo isso. Já dizia minha mãe: quem cala consente.
Ainda aguardo a nota da ECAtlética, da Associação Atlética Acadêmica da Unifesp e, é claro, do Unidos do Marlboro. A Marta não deveria ter apanhado, não porque ela é a Marta, ou porque ela é mulher – mas porque ela é um ser humano, mesmo que vocês não vejam isso dado a venda existente em seus olhos chamada patriarcado. Ou seja: calar-se não é livrar-se do problema: é apenas se esconder da realidade que grita aos seus ouvidos muito mais do que qualquer mulher. 

 

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