Category Archives: Ciências Sociais

Resenha: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo – Max Weber

Em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo’, Weber discorre sobre a relevância da reforma protestante para a formação do capitalismo moderno, de modo que relaciona as doutrinas religiosas de crença protestante, para demonstrar o surgimento de um modus operandi de relações sociais, que favorece e caracteriza a produção de excedentes, gerando o acúmulo de capital.

Há de se dizer, então, que o mundo outrora dominado pela religião católica, era também concebido a partir da cultura por ela promulgada. Isso quer dizer que o modo de vida pregado no catolicismo, era propagado para além dos limites da Igreja, perpassando a vida dos sujeitos. Entretanto, o catolicismo condenava a usura, e pregava a salvação das almas através da confissão, das indulgências e da presença aos cultos. Desta forma, o católico enxergava o trabalho como modo de sustentar-se, mas não via prescrição em também divertir-se, buscando modos de lazer nos quais empenhava seu dinheiro, e produzindo apenas para seu usufruto. Menos temerário ao pecado que o protestante, e impregnado pela proibição da usura, o católico pensava que pedir perdão a seu Deus seria suficiente para elevar-se ao “reino dos céus”. Assim, seguindo esta cultura religiosa, a acumulação de bens não encontrou caminhos amplos, e permaneceu adormecida.

Contudo, com o advento do protestantismo, a doutrina – e portanto, a cultura – católica modificou-se, e a salvação passou a ser para alguns, não mais passível de ser conquistada, mas sim uma providência divina, onde o trabalho era meio crucial para glorificar-se. Para o protestante, o trabalho enobrece o homem, o dignifica diante de Deus, pois é parte de uma rotina que dá às costas ao pecado. Durante o período em que trabalha, o indivíduo não encontra tempo de contrariar as regras divinas: não pratica excessos, não cede à luxúria, não se dá a preguiça: não há como fugir das finalidades celestiais. E, complementando toda a doutrina protestante, ainda é crucial pontuar que nesta religião não há espaço para sociabilidade mundana, pois todo o prazer que se põe a parte da subserviência a Deus, fora considerado errado e abominável. Assim, restava a quem acreditava nestas premissas, o trabalho e a acumulação, já que as horas estendidas na produção excediam as necessidades destes religiosos, gerando o lucro.

Portanto, quando se fala em uma concepção tradicional de trabalho, trata-se da concepção católica, que não acumulava e pensava o trabalho como meio de garantir subsistência. Já a concepção que vê o trabalho como fim absoluto, é a protestante, que enxerga no emprego de esforços produtivos a finalidade da própria existência humana, interligada com os propósitos providenciais de Deus.

Esta mudança no comportamento social, além do choque de culturas exposto nos parágrafos acima, suscita uma abrupta mudança no cenário econômico. Isso decorre do seguinte ciclo: O católico trabalha para viver, o protestante vive para trabalhar. O protestante gera excedente, e o acumula, investindo-o em cadernetas de poupança, gerando lucro. A finalidade protestante é salvar-se, e se o trabalho é salvador, empregar outros auxilia na salvação alheia. Logo, o protestante é dono dos meios de produção, detém os funcionários e acumula cada dia mais excedentes, gerando mais capital. E assim, a gênese do capitalismo moderno é concebida.

Conclui-se, portanto, que a cultura – segundo Weber um modo de ser que detém as práticas –  ao ser modificada, gera novos costumes, um comportamento inusitado, que embora não tivesse como objetivo estabelecer uma nova ordem econômica, e sim moral, passa a sustentar a essência do sistema.

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Filosofando

Depois da aula de Sociologia III, sobre Simmel e “a metrópole e a vida social”:

A superficialidade é impositiva e necessária aos homens das grandes cidades. São educados para aceitar o curso da vida social, pois a individualidade e suas manifestações causam um estranhamento objetivo aos já massificados indivíduos acostumados as aglomerações e equidades. Paradoxalmente, dada a amplitude de círculos sociais em constante mudança, é justamente a cidade que proporciona a maior possibilidade de liberdade individual subjetiva, já que é a única a abrir a possibilidade de mudança abrupta de estilo de vida e convivência.
Desta forma, as relações com as categorias de tempo e espaço se dão de forma abstrata, e essa abstração exacerbada é destacada pela superficialidade perceptível na impossibilidade de atingimo-nos de maneira profunda e com mutualidade. Sem querer, conseguimos atingir apenas o que está no nível do intelecto, do racional. Não perpassamos os terrenos do profundo e sequer nos interessamos por nossa própria profundidade, que intangível e suprimida, garante a sobrevivência coletiva.
É assim que o dinheiro – deus da modernidade¹ – pauta a abstração da cidade através da quantificação da vida. A condição monetária representa de forma instrumentalizada a futilidade, a equalização das relações e a condição superficial supracitada do homem urbano. Resgatando termos marxistas:  o equivalente geral² propõe a ideia de valor de uso e valor de troca³, e considera-se assim que o dinheiro é a representação exata do modo de vida social da metrópole: é o profundo que se torna raso, o sentimento que se torna exato e o sólido que se desmancha no ar⁴. 

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1) Deus da modernidade: expressão empregada por Simmel para tratar a especificidade do dinheiro na sociedade de sua época.
2) Equivalente geral: termo usado por Marx como sinônimo para dinheiro.
3) Valor de uso e valor de troca: Simplificadamente, é a explicação marxista para a funcionalidade do sistema capitalista de produção.
4) Sólido que se desmancha no ar: menção a frase “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, usada no Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels, bem como atribui título ao livro de Marshall Berman.

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Diálogo dessa madrugada

“A única coisa que vale a pena lutar é por si mesmo. Pelo resto, não. O resto – a palavra já diz tudo – é resto. Ninguém entende os nossos anseios, os nossos desejos. Para que, então, lutar por eles? A passividade prova a luta vã que é esta. A chance de você perder integridade física é grande… e a troco de que? Será que ela faria isto por você? Não que isto conte alguma coisa… mas, é algo pra se pensar um minuto.”

“Eu não espero a retribuição. Isso é até estranho pra mim. Ter esse tipo de interesse…
Queria parar mesmo de expor os meus anseios e de colocar a voz pra fora. Me sinto mal com esse meu jeito impulsivo de ser, e completamente compreendo a sua fala.
Só fico em dúvida com essa sua frase, sobre lutar por si mesmo. Tá…e pra que fazemos Ciências Sociais, então? Produzimos uma ciência que se propõe sugerir rumos sociais. Não é possível que esses rumos sejam regidos pelo nosso interesse único em nós mesmos. Ou é?”

“ Por isto que me “arrependo” de não ter feito filosofia. Ao meu ver, toda a luta por povos se mostra superficial e arrogante: o que sabemos, realmente, dos anseios da nação? Não estaríamos fazendo o papel de “Deus” tentando salvar o mundo? Aliás, quantos seres humanos sabem realmente daquilo que lhe é ausente? O que cada um realmente acredita e quer para si? O que eu quero para mim de verdade e o que você quer para si? Respondendo por mim, tenho apenas vinte anos e ainda não sei ao certo o que quero. Como eu, alguém que não sabe o que quer de verdade, pode responder aos anseios de uma massa? Por isso que o lutar por si mesmo me parece algo sensato, mas não menos trabalhoso do que o nosso curso propõe a fazer. Não se sinta mal. Pense que a maior revolução que você pode fazer é a revolução dentro de si. Talvez, comentando sobre os interesses… que toda a nossa história tenha sido feita por homens vaidosos. Vendo por mim, a minha vaidade é conseguir respeito. Uns querem dinheiro, outros outras coisas… eu quero respeito. É o preço de minha vaidade. Acho que é comum ao ser humano ter; só que uns descobrem e outros não.”

“Analisando a sua fala, só posso crer que você propõe uma normatividade social de indivíduos silenciosos. Não sei se isso seria bom ou ruim, porque nem vinte anos eu tenho ainda, e nisso estamos de acordo – ninguém tem certeza do que quer pra sempre nem aos vinte e nem nunca dessa vida.
Mas é impossível passar incólume pelas forças que agem externamente a nossa vivência pessoal. Os homens vaidosos (também estou de acordo em relação a isso) que construíram a história escravizaram outros homens para manter sua vaidade e para legitimar suas atitudes. Os homens vaidosos que construíram a história subjugaram todo um gênero aos seus postulados, e dessa forma, continuamos vivendo sob premissas que não foram construídas por nós, mas que moldam nossos caráteres, nossos desejos. A partir do momento em que você começa a se emancipar, a fugir do senso-comum, simplesmente descobre que é fruto de uma imersão, de um repasse de valores. A maior revolução então é dentro de si mesmo – mas quais os motivos para não externalizar essa revolução? Não estou dizendo que os meus axiomas são verdades universais. Mas são as minhas verdades. E me furtar ao debate, é me furtar a dizer que acredito na possibilidade de uma mudança, e de uma mudança positiva.
Já disse inúmeras vezes que detesto quando colocam a sociedade, ou qualquer indivíduo/entidade no papel de deus. Estou convicta da não-necessidade de deuses ou líderes para conduzir qualquer tipo de necessidade coletiva. O que penso é que a convivência produz, indubitavelmente e incontestavelmente, sensações comuns aos seres enquadrados em um modelo. E se esse modelo nunca é questionado, não há história, não há filosofia e não há progresso humano. Eu apenas me proponho a questionar. Se o que digo será aceito ou não, só o debate e o tempo dirão.
Não tenho dúvidas de que o meu anseio (mesmo que oculto por vezes) ao me expor dessa forma, é construir parte da história. Sou uma mulher com uma vaidade também: a liberdade. É essa vaidade que me impede de calar-me.”

“Nossa, bonito o que você escreveu.”

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Considerações sobre o Governo Representativo: autogoverno e classes sociais para John Stuart Mill

John Stuart Mill, utilitarista inglês, visava assim como os demais admiradores de Jeremy Bentham, tencionar uma ideologia capaz de introduzir – com efeito – a maior quantidade de felicidade para o maior número de pessoas. Para tal finalidade, à pluralidade da sociedade-civil é atribuída grande consideração positiva, tomando por princípio a liberdade (sobretudo a de expressão) e a diversidade política como direitos por excelência de um governo com funcionamento exemplar.

Portanto, em Considerações Sobre o Governo Representativo (1861), Mill trabalha com a perspectiva de que não cabe ao Estado delegar um axioma de modus operandi para a vida social, pois é tarefa de cada indivíduo a livre escolha sobre como conduzir-se. Desta forma, o Estado não é um mero meio de coerção social dos sujeitos sociais e sim deve ser gerido por esses últimos e de acordo com as características da sociedade em questão, pois como posto por Mill (1861. Pág. 30) “[…] toda a educação que visa fazer os homens se tornarem máquinas acaba, a longo prazo, fazendo que eles clamem pelo controle de suas próprias ações […]”. A isso, podemos chamar de autogoverno coletivo, já que os cidadãos seriam responsáveis pelas funções administrativas e jurídicas das instituições públicas.

Seguindo a linha de raciocínio proposta pelo autor – o qual demonstra estar de acordo com a possibilidade de um aprimoramento moral das faculdades humanas – pode-se afirmar, então, que uma sociedade com indivíduos moralmente desenvolvidos e que buscam um bem-estar coletivo será mais bem sucedida em sua empreitada de autogestão em comparação a uma sociedade de indivíduos ignorantes, egoístas e consequentemente propensos à corrupção. Contudo, o autogoverno é uma solução viável até mesmo para estas sociedades moralmente rebaixadas, já que para Mill, o processo de participação política é educativo e capaz de desenvolver as qualidades necessárias para a ocupação social de um poder governamental. Destaco o excerto:

Todo o governo que visa ser bom é uma organização de parte das boas qualidades existentes nos indivíduos membros da comunidade para a condução de seus assuntos. Uma constituição representativa é um meio de levar o nível geral de inteligência e honestidade na comunidade, a inteligência e virtude individuais de seus membros mais sábios, a pesar mais diretamente sobre o governo, investindo-os de maior influência sobre ele, muito mais do que geralmente teriam sob qualquer outro tipo de organização; na verdade, essa influência, qualquer que seja a organização, é a fonte de todo bem existente no governo, e o obstáculo a todo o mal que lhe é estranho. Quanto maior o número de boas qualidades que as instituições de um país conseguirem organizar, e quanto melhor o tipo de organização, melhor será o governo. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 20)

É importante ainda ressaltar, que devido a vasta extensão geográfica de diversos territórios, a melhor forma de fazer vigorar esta que seria a gestão coletiva da sociedade, é o governo representativo, haja vista a característica marcante deste tipo de governo: o caráter de paridade entre as distintas classes que podem se fazer ouvir através da igualdade de cargos de seus representantes.

Porém, ao admitir as classes sociais como uma divisão entre maiorias e minorias, Mill percebe a possibilidade de um vício à democracia e ao governo representativo. Esse vício consiste na possibilidade de uma das classes conquistar o poder de forma una, criando um engodo entre a necessidade de participação e representação igualitárias para o sucesso do governo em questão, e o domínio de uma maioria sobre as demais classes presentes no corpo político, como é possível notar no trecho:

Um dos maiores perigo, portanto, da democracia, bem como de todas as outras formas de governo, consiste nos interesses sinistros dos detentores do poder; é o perigo da legislação de classe; do governo que visa (com sucesso ou não) o benefício imediato da classe dominante, em perpétuo detrimento da massa. E uma das questões que mais merecem consideração, quando se pretende determinar a constituição de um governo representativo, é como reunir precauções eficazes contra esse mal. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 68)

Para sanar a questão, Mill propõe o modelo de governabilidade de Thomas Hare, o qual garantiria proporcionalidade representativa sem deixar de manter a vigência da contraposição entre as classes – o que é benéfico à democracia, já que o poder de um único tipo de interesses é considerado ditatorial e nada agrega ao bem comum.

É possível concluir portanto, que as classes devem portar a mesma possibilidade de voz no governo representativo, não havendo maneira de subjugarem-se umas às outras. De forma a garantir que o governo seja em vias de regra igualitário e uma gestão própria de todo o demos, onde maiorias e minorias podem fazer valer suas opiniões e ocupar as funções de seu interesse no domínio público. Ou nas palavras do próprio autor:

É evidente que a neutralização total da minoria não é consequência natural nem necessária da liberdade; esta neutralização está diametricamente oposta ao primeiro princípio a democracia, ou seja, a representação proporcional aos números. O fato de que as minorias devam ser adequadamente representadas é parte essencial da democracia. Sem isto, não será possível uma verdadeira democracia – haverá apenas uma falsa aparência de democracia. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 74)

Em síntese, Mill propõe que o governo ideal, ou autogoverno dado por representação deve possuir espaço para a participação por sufrágio e para opinião de todos os concidadãos que independentemente do fato de pertencerem a classes sociais distintas, serão capazes de como trabalhadores ou patrões, diluir suas tensões causadas por interesses particulares através do aprimoramento trazido pela união na busca de justiça e verdade social. Ou seja: serão plurais enquanto indivíduos, mas representados enquanto gestores e intelectuais do corpo político e do próprio Estado em questão.

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A Democracia em Robespierre e Tocqueville: um comparativo

Em sua obra Virtude e Terror, Maximillen de Robespierre defende a instauração de uma democracia radical, a qual de acordo com seus preceitos é sinônimo pleno das designações de uma república.

Que tipo de governo pode realizar esses prodígios? Unicamente o governo democrático ou republicano: essas duas palavras são sinônimas, apesar do abuso da linguagem vulgar; porque a aristocracia não é mais república que a monarquia.  (ROBESPIERRE, Maximillien de. Virtude e Terror. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. PP. 180)

Esta democracia representa a retomada da experiência democrata greco-romana – ou seja – pressupõe que o coletivo deve sobrepor-se ao individual e valoriza a extrema participação política, atribuindo caráter de suma importância à esfera pública, nos moldes aristotélicos.

É importante ressaltar ainda, que na visão jacobina, a igualdade é preconizada, bem como o ódio à todas as desigualdades sociais; sobretudo as de nascimento, que caracterizam a aristocracia. A liberdade também é fundamental para a compreensão da perspectiva deste autor: para essa escola revolucionária apresenta-se obviamente, como uma liberdade republicana. Significa viver de forma autônoma, sem tirania ou dominação. Para Robespierre e seus seguidores, só há maneira de ser livre participando de uma organização política que se auto-governe.

Portanto, para a manutenção deste modelo de governo, o autor sugere aos cidadãos franceses da época independência política que estabeleça a lei como meio de garantia às condições supracitadas: liberdade e igualdade. Destaco o excerto:

A virtude pública que permitiu tantos prodígios na Grécia e em Roma, e que deve produzi-los bem mais assombrosamente na França republicana: essa virtude que não é outra coisa além do amor pela pátria e por suas leis. (ROBESPIERRE, Maximillien de. Virtude e Terror. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. PP. 181)

Embora a necessidade de leis possa parecer a grosso modo restringir a liberdade, em Robespierre esta condição é resignificada, pois seguindo sua linha de pensamento, a lei é feita por todos os concidadãos e se torna a maior garantia do coletivo sobre os usurpadores da liberdade nessa democracia.

Já em A Democracia na América de Alexis de Tocqueville, a problemática central é tomada a partir da visão de um conservador aristocrata que encara o avanço da democracia como algo divinamente providencial e sujeito a críticas pontuais que demandem mudanças nos moldes até então encaminhados na França. Nas palavras do autor:

Querer deter a democracia seria como que lutar contra o próprio Deus, e só restaria às nações acomodar-se ao estado social que lhes impõe a Providência. (TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010. Pp. 296)

De forma contundente, Tocqueville defende em sua obra que a democracia, enquanto forma de poder popular, legitima uma ameaça à liberdade humana, pois além de não apresentar nenhuma especificidade que possa engrandecer esta liberdade, apresenta sobretudo perigos únicos. Estes últimos, ligados a ausência de órgãos ou instâncias que delimitem a atuação do poder sobre a sociedade. Para o autor, a força e a legitimidade do poder popular tendem a suprimir este possível e necessário controle.

É suposto então, que a igualdade democrática demonstra-se como supressora da liberdade dos indivíduos, que se veem presos ao poder abstrato e intangível do social, perdendo-se na coerção exercida pelo mesmo.

Aquela mesma igualdade que o torna independente de cada um dos seus cidadãos em particular, entrega-o, isolado sem defesa a ação do maior número. Por isso, tem o público, entre os povos democráticos, um poder singular à ação do maior número. (TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010. Pp. 296)

Logo, a termos comparativos, é possível perceber que as ideias de Robespierre e Tocqueville destoam-se essencialmente ao que diz respeito as vicissitudes e benefícios da igualdade e da liberdade para os governos democráticos. A princípio, ambos mostram crer que os caminhos futuros levarão as sociedades à democracia. A adoção dos termos comuns sobre igualdade e liberdade também representam certa conversão.

Porém, a preocupação do primeiro é com a liberdade pública, a qual só é possível em sociedades completamente paritárias, onde o controle do poder governamental parte da própria igualdade e participação política dos cidadãos. Todavia, para o segundo, a liberdade de escolhas individuais se mostra mais presente, pois ao contrário de Robespierre, não existem as condições de patriotismo, amor a república e necessidade de bem-comum.

Pode-se dizer que a liberdade, representa para os dois algo essencial para a democracia mas, enquanto a igualdade legitima o anseio de Robespierre de coletividade de pares que fossem soldados do interesse público, para Tocqueville a igualdade representa um perigo vigente às vontades dos cidadãos e, uma genuína repressão aos que se destoam do coletivo.

Conclui-se portanto que a característica que difere essencialmente a linha teórica dos autores é a ideia distinta que fazem de bons governos democráticos, sendo Robespierre um defensor ferrenho do corpo social unido como forma única de democracia e Tocqueville, um admirador das instâncias associativas, locais e religiosas que podem, em sua opinião, elevá-la a um patamar de governo legitimamente libertário.

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Hessen, Durkheim e Morin e a Epistemologia das Ciências Sociais

1) Segundo Hessen, quais as duas vertentes da Filosofia e quais são as áreas / disciplinas relacionadas a cada uma? Qual é a importância de cada vertente para as Ciências Sociais?

Hessen define em seu texto a Filosofia como sendo a tentativa de compreensão da totalidade do mundo. Ou seja, aos filósofos é legada a tarefa de, partindo do amor ao saber, conhecer e buscar compreender todas as coisas que envolvem a existência em seu todo, sem recortes e com a supressão da busca pelas especialidades. Contudo, para Johannes Hessen, há uma clara dicotomia dividindo a filosofia entre dois polos de pensamento – a visão de si, e a visão de mundo.

Na visão de si, temos uma tomada das questões de cunho valorativo e das reflexões de espírito, enquanto na visão de mundo, vemos presente a pretensão de compreender a realidade coletiva. Podemos elucidar o conceito supracitado, observando as áreas atribuídas a cada seccional filosófica: à visão de si cabem os temas ligados a teoria do valor: a ética, arte e estética, tornando-a intimamente ligada aos temas que dizem respeito a questões valorativas como os conceitos de verdade e beleza. Já à visão de mundo, abarca as disciplinas correlacionadas com a teoria da ciência, a lógica e a teoria do conhecimento.

Entretanto, observando a premissa de que a Filosofia busca compreender o todo, conclui-se que as suas duas vertentes se entrelaçam, de modo que a visão de si parta para a visão de mundo, fazendo o coletivo compreender-se. Ou seja: olhar para si mesmo e para seus próprios valores designa nada mais do que a tentativa de entender a realidade na qual estamos imersos de forma associada. Ou nas palavras do autor:

A auto-reflexão do espírito é meio para se atingir uma imagem de mundo. Em conclusão, portanto, podemos dizer que a filosofia é a tentativa do espírito humano de atingir uma visão de mundo, mediante a auto-reflexão sobre suas funções valorativas teóricas e práticas (HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Pp 09)

Especificamente tratando das Ciências Sociais, devemos nos lembrar do embate clássico entre os estudos dirigidos às Ciências Humanas e as Ciências Naturais. Enquanto as segundas tem seu objeto de estudo distanciado do sujeito estudioso, as primeiras tem como objeto os próprios sujeitos, estando o cientista, imerso nas realidades e valores que busca estudar. Ou seja, pertence também a nós a tentativa de observar a realidade única enquanto seres para tentar compreender a coletividade do que temos por objeto de estudo: a sociedade.

Conclui-se, portanto, que seguindo a linha de pensamento de J. Hessen, na qual a Filosofia tenta compreender a totalidade a partir de suas partes, as Ciências Sociais tentam compreender seu objeto de estudo a partir da vivência do próprio sujeito, levando a visão de si para a visão de mundo ou os valores subjetivos para os valores objetivos, para a teoria do conhecimento.

 

2) Descreva brevemente os principais argumentos sobre a ciência presentes nos textos de E. Durkheim e E. Morin. Quais pontos de aproximação e divergência você vê entre eles?

Embora Durkheim e Morin estejam em acordo sobre a importância do todo para a ciência diferem nas formas de pensamento sobre qual método pode ser aplicado para a valorização deste todo.  Ambos os autores afirmam em seus excertos que o todo difere do agrupamento de partes. Ou seja, o coletivo é como um organismo vivo, e não apenas um amontoado de indivíduos e suas vontades.

Para Durkheim, a Sociologia é uma ciência com um objeto intrinsecamente específico e autônomo: a sociedade. O estudo deste objeto, por tanto, deve dar-se a partir do olhar sobre os fatos sociais, que representam na obra durkheimiana a barreira epistemológica entre a Sociologia e as demais ciências. Isto lega às outras ciências, como a psicologia, a responsabilidade pela análise dos fatos que provêm individualmente alheios ao andamento do coletivo, separando de forma clara e concisa o que representa um objeto de estudo do sociólogo e o que é pertencente aos outros campos do conhecimento. O que cabe ao sociólogo, deve ser coisificado para ser estudado e compreendido.

Que a matéria da vida social não possa se explicar por fatores puramente psicológicos, ou seja, por estados da consciência individual, é o que nos parece de todo evidente. Com efeito, o que as representações coletivas traduzem é o modo como o grupo se pensa em suas relações com os objetos que o afetam. Ora, o grupo não é constituído da mesma maneira que o indivíduo, e as coisas que o afetam são de outra natureza. (DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 3ª edição, São Paulo: Martins Editora, 2007.)

Já em Morin, é possível perceber claramente uma valorização da interdisciplinaridade. O autor propõe que a ciência deve ser dotada de um pensamento complexo – ou seja – os fatos devem ser compreendidos imersos em um contexto e não separados por um distanciamento do sujeito e do objeto, como o proposto em Durkheim. O autor demonstra, portanto, a impossibilidade de neutralidade nas Ciências Sociais, já que diferentes culturas interagem de diferentes formas. Destaco o trecho:

O conhecimento deve certamente utilizar a abstração, mas procurando construir-se em referência a um contexto. A compreensão de dados particulares exige a ativação da inteligência geral e a mobilização dos conhecimentos de conjunto. (MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, F. M.; SILVA, J. M (Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. 3. ed. Porto Alegre: Sulinas/Edipucrs, 2003. Pp. 12)

 Os valores não hão de ser variáveis ou os objetos neutros, dado o já pressuposto por quem pretende estuda-los. Afinal, se uma problemática é levantada por um cientista, em qualquer campo do conhecimento, é por consideração valorativa do que já se entende por problema.

Conclui-se, portanto que embora haja convergência entre as ideias de Durkheim e Morin, ao que tange o funcionamento da totalidade coletiva como vívida e dotada de independência. Todavia, a importância do contexto, exposta por Morin, refuta o que Durkheim acredita ser a condição sine qua non para se afixar a Sociologia como ciência: a neutralidade do cientista em relação aos fatos que serão estudados, apontando nesta direção o maior ponto de divergência entre os dois autores.

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