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De volta em linha reta

Os anos sem escrever parece não terem acontecido. Quando eu criei esse blog eu tinha uma única certeza: eu só existiria no mundo se eu nunca deixasse de fazer a única coisa que eu sempre soube fazer: escrever. Eu nunca fui boa com testes de matemática ou de lógica. Não aprendi a calcular e não sei gerir o meu dinheiro. Sou uma boa escritora, uma ótima conselheira e uma cozinheira mais ou menos. Com isso, queria sair pelo mundo como Bukowski, como Kerouac. Cheguei a planejar isso com um namoradinho aos dezesseis anos, mas aí eu pisquei e estava em um escritório, a placa colada na mesa tinha o meu nome e eu já falava coisas como “vou te dar um feedback” ou “tive aqui um insight”.

Eu deixei de existir. Parei de escrever. Dia desses, me apaixonei por um cara e tentei uma crônica sobre nós dois. Não sei se deixei de ver poesia no cotidiano, mas não consegui enviar nada pra ele. O pavor de parecer vulnerável e de mostrar o ser humano atrás das fórmulas do Excel congelou os meus dedos e aí já não dava mais. Eu sequer sei se minha letra é feia ou bonita, porque eu nunca mais senti necessidade de pegar um caderno e escrever: “Viviane, hoje no seu dia você conheceu alguém incrível”. Te juro, eu fazia isso quando era adolescente e, hoje, a maioria das pessoas incríveis que eu conheço estão descritas nesses cadernos. Como é que eu posso não conseguir sequer escrever uma crônica pra um novo amor? A ideia que me toma de assalto é que vou parecer ridícula. Porque aos dezesseis a paixão é avassaladora, e aos vinte e dois ela é só ridícula.

Eu entrei na faculdade pra ser socióloga e mudar o mundo. Agora eu queria ter dinheiro pra comprar um amaciante melhor, queria comer alguma coisa que não fosse frango e atum e queria que, por um único dia, eu pudesse tomar sorvete sem achar que é um capricho idiota que vai me custar no espelho amanhã. Eu gostava de Velvet Underground e The Smiths e mês passado fiquei feliz em um show do Wesley Safadão. Eu achava que nunca ia precisar dirigir, eu sei andar de bicicleta, esse é o século XXI e já inventaram o trem, o metrô, o avião. Essa semana me inscrevi na auto-escola porque não aguento mais pagar táxi pra ir ao médico em uma daquelas consultas de cinco minutos que me garantem até a próxima dor de cabeça que eu não vou morrer antes dos trinta.

Dia desses eu fui pra São Paulo e encontrei um cara com quem eu ficava no primeiro ano de faculdade. A gente ficou feliz em se ver e fomos beber uma cerveja. Falamos da vida. Do engenheiro e da socióloga. Por trás das máscaras, nada. Queria um assunto que não fosse sobre o que eu faço, mas sobre o que eu gosto de fazer quando não estou respondendo meus e-mails. Não deu. Depois de um tempo não existe mais eu, mais você, mais passado, presente ou futuro: existem as pessoas que nos tornamos e o que fazemos pra sustentar os traumas que Freud explica. O que vai pagar aquela camiseta que eu não pude ter, aquele sapato, aquele rímel… Não vamos perder nosso precioso tempo quebrando paradigmas e falando de coisas idiotas, como lidar com a velhice dos próprios pais, como sair de casa e não conseguir pagar o aluguel às vezes ou como ter medo da morte. Não dá tempo de falar de literatura, cinema, teatro. Vamos falar dos nossos projetos, dos treinamentos, das metas.

Parece que agora o mundo se divide em duas categorias de pessoas: as que vivem nas lembranças e as que, assim como eu, viraram só um fantasma daquilo que elas mesmas já foram. Eu não quero mais ser um fantasma. Eu sei quem eu sou, eu sei o que eu gosto de ouvir, os meus valores, os meus livros preferidos, o que me faz querer acordar amanhã. Eu quero existir. E pra isso eu tenho que escrever, tenho que enviar a crônica pro cara da paixão, tenho que manter esse blog. A despeito da placa na mesa eu sou um poema em linha reta.