Velhos textos – parte I.

Já não faço a mais remota ideia de que dia ou mês nós estamos. Sei o ano, porque é o ano em que nos conhecemos, e não me lembro de ter rompido nenhuma fase importante ou crucial desde a primeira vez que os nossos olhos se cruzaram.

Eis o primeiro engano desta carta: desde a primeira vez que nossos olhos se cruzaram eu já consegui saber seu nome, te dar um beijo e te perder. Devem ser fases importantes, mas nenhuma delas teve champagne pra comemorar. Na verdade, sequer você me pagou uma cerveja, porque pelo que percebo agora, no auge dessa lucidez incômoda, eu não valho mesmo nenhuma aula de Política desperdiçada na mesa do bar da esquina.

Engraçado. Antes eu achava que aquele bar sujo e os meus amigos revolucionários da Vila Madalena é que estavam longe de merecer a sua presença, que quase brilha e ofusca as demais coisas. Mas depois de ter a minha visão quase cegada pelo anel prateado que você leva novamente na sua mão direita, só me restaram mesmo as bebidas baratas do bar do Luizão, e aquele rádio velho disputado entre os estudantes e os bêbados para ver quem consegue ser mais pedante escolhendo uma estação FM.

O que sei é que neste mês desconhecido, neste dia desconhecido, estou comemorando a minha falta de emprego, de dinheiro pra pinga com canela e essencialmente de você, com o pouco de chocolate que minha irmã deixou na geladeira e com Shakira tocando nos auto falantes. Ela pergunta: “who would have thought that you could hurt me the way you’ve done it?” e eu não sei responder.

Porque quando você ficava me prendendo entre um corredor e outro de uma aula e outra, você parecia bastante satisfeito com a minha presença. E quando você sussurrava aquelas coisas indecentes no meu ouvido, e beijava os meus seios, parecia de fato que você gostava de mim. E agora eu sei que eu sou jovem e burra demais pra distinguir os olhos de paixão dos olhos de libido.

Então que culpa eu tenho, também, se todo o resto do universo fez um pacto de mediocridade contigo, e ninguém me contou que eu era apenas o seu brinquedo, enquanto ela era nada menos que a sua mulher? Ninguém me contou que você notava em mim a beleza de uma menininha de dezessete anos, e nada mais.

E a própria música autodestrutiva responde: “you don’t even know the meaning of the words ‘I’m sorry’” e eu chego à conclusão de que é isso: você não tinha como me pedir desculpas por não querer estar comigo. Não tinha como me pedir desculpas por ter uma vida ao seu redor, enquanto tudo o que eu tenho pra mim são meus adesivos colados no armário e as minhas cópias de clássicos teóricos que aprendi a ler há pouco. Acho que devo encarar as coisas como elas são e não mais como eu queria que fossem, e com um pouco de tequila pra dentro, decidir sozinha e por nós dois que isso não foi, nem pôde ser uma história a ser dividida. Essa é a história que eu queria ter construído, mas você não. É algo novo pra mim, mas não pra você.

Doeu, dilacerou, e está me matando por dentro. Te ver todos os dias é o tipo de tortura lenta e dolorosa, que dá prazer a quem faz. E eu vejo o prazer nos seus olhos quando finge que me quer por um segundo, só pra me obrigar a lembrar que eu não tive e nem nunca terei você por inteiro.

Freud deve explicar. É uma pena eu ter deixado de ir às aulas de filosofia da memória nas últimas semanas apenas pra não te encontrar assim, logo na segunda-feira.

Felicidades, é o que eu te desejo. A música acabou e as últimas palavras que ouvi, antes de pular entre os meus travesseiros e odiar você, sua cidade, essa rotina e a minha vida, foi “should be illegal to decive a woman’s heart”.

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