Monthly Archives: Janeiro 2013

Filosofando

Depois da aula de Sociologia III, sobre Simmel e “a metrópole e a vida social”:

A superficialidade é impositiva e necessária aos homens das grandes cidades. São educados para aceitar o curso da vida social, pois a individualidade e suas manifestações causam um estranhamento objetivo aos já massificados indivíduos acostumados as aglomerações e equidades. Paradoxalmente, dada a amplitude de círculos sociais em constante mudança, é justamente a cidade que proporciona a maior possibilidade de liberdade individual subjetiva, já que é a única a abrir a possibilidade de mudança abrupta de estilo de vida e convivência.
Desta forma, as relações com as categorias de tempo e espaço se dão de forma abstrata, e essa abstração exacerbada é destacada pela superficialidade perceptível na impossibilidade de atingimo-nos de maneira profunda e com mutualidade. Sem querer, conseguimos atingir apenas o que está no nível do intelecto, do racional. Não perpassamos os terrenos do profundo e sequer nos interessamos por nossa própria profundidade, que intangível e suprimida, garante a sobrevivência coletiva.
É assim que o dinheiro – deus da modernidade¹ – pauta a abstração da cidade através da quantificação da vida. A condição monetária representa de forma instrumentalizada a futilidade, a equalização das relações e a condição superficial supracitada do homem urbano. Resgatando termos marxistas:  o equivalente geral² propõe a ideia de valor de uso e valor de troca³, e considera-se assim que o dinheiro é a representação exata do modo de vida social da metrópole: é o profundo que se torna raso, o sentimento que se torna exato e o sólido que se desmancha no ar⁴. 

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1) Deus da modernidade: expressão empregada por Simmel para tratar a especificidade do dinheiro na sociedade de sua época.
2) Equivalente geral: termo usado por Marx como sinônimo para dinheiro.
3) Valor de uso e valor de troca: Simplificadamente, é a explicação marxista para a funcionalidade do sistema capitalista de produção.
4) Sólido que se desmancha no ar: menção a frase “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, usada no Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels, bem como atribui título ao livro de Marshall Berman.

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Não tenha nojo. É só uma vulva!

Há algum tempo decidi que nos meus raros momentos livres, vou me dedicar a ler os blogs feministas que já sigo e a conhecer novas postagens sempre que possível. Depois que comecei a me engajar menos teórico e mais praticamente, conhecendo outrxs gurixs que lutam pela igualdade de gênero e não se escondem atrás dos papéis atribuídos ao feminino/masculino através dos séculos, tenho aberto a minha mente às militâncias diferentes das minhas e às concepções que por vezes eu não havia cogitado pensar.
Então hoje, decidi ir ao blog de uma feminista com quem briguei (é, não debatemos ideias, brigamos mesmo) pelo Twitter há alguns meses atrás. Ela é Nádia Lapa, (ou Letícia Fernandez, aos que gostam de homônimos) da página “Cem Homens”. Dei de cara então com um conteúdo que me chocou: apenas 1 em cada 5 mulheres recebeu sexo oral de seus parceiros no período de um ano, de acordo com a estatística veiculada por Nádia. Isso mesmo, vou repetir: UMA EM CINCO, APENAS.
Essa foi a hora que eu comecei a caçar mentalmente todas as experiências sexuais que já tive na vida. Não me lembrei (e sinto certo alívio, confesso) de ter tido sequer um parceiro que tenha se recusado a me fazer sexo oral. Diria até que nas relações heteronormativas que eu tive, a iniciativa para tal tipo de prazer sempre partia exatamente dele.
A comichão com a história do tabu do sexo oral acabou por me incomodar. Após uma reflexão intensa, algumas indicações de leituras e um pouco de debate e troca de experiências, concluí as razões para que essa prática seja incomum no universo cissexual, criando esse engodo, já que em média 70% das mulheres não atinge o orgasmo apenas com a penetração.
A primeira, por excelência, é a ideia da servidão feminina. Fomos educadas à cumprir deveres estabelecidos sob um papel de subserviência de nosso gênero ao gênero masculino. Desta forma, uma prática sexual que torna o homem o coadjuvante e a mulher o elemento central vem a ser uma possibilidade, mesmo que inconscientemente, degradante para o “macho-alfa”. Afinal, o oral exige um momento de dedicação e preocupação com o prazer do outro, e quando isso deve partir de um homem para uma mulher, é tratado com essa estranheza. Para comprovar, basta perceber a naturalização do sexo oral masculino. Qualquer televisão de motel nesta cidade está passando nesse exato momento uma moça com os lábios no falo de um rapaz. Difícil é encontrar um puto filme que mostre um homem lambendo as partes íntimas de sua parceira sem pudor e principalmente, sem nojo.
E por falar em nojo, o segundo motivo se disfarça através dele. Essa ideia de que o sexo oral seja nojento quando feito em uma vagina advém da misoginia propagada pela nossa sociedade. Crescemos absorvendo os mitos de que o órgão feminino deve ser escondido, de que é sujo e intocável. Assim, a mística criada sobre os fluidos e partes femininas como o leite materno, a menstruação e o líquido do período fértil, são estendidos ao próprio aparelho reprodutor feminino. Como tocar com a língua o que se aprende ser apenas para colocar o pênis? Como passar os lábios naquilo que não passa de um instrumento para o orgasmo? Sejamos sincerxs: os homens não vem sendo criados para gostar de buceta. São criados para sentir prazer com elas.
O terceiro, e último motivo que quero listar, é também parte da educação patriarcal e é absorvido essencialmente por nós mesmas. Demorei para concluir e para me lembrar dos primórdios das minhas experiências antes da emancipação feminista. Mas me lembrei: a regulação e o receio são comuns às garotas. Educadas para a discrição e não para o deleite,  treinadas para o pudor excessivo e não para a ostentação da sexualidade, encarnamos os mitos machistas que buscam suprimir e castrar psicologicamente os nossos corpos. Ostentamos os moldes patriarcais através da negativa do nosso prazer em detrimento do prazer do outro. A ideia do mau-cheiro, da feiura e da necessidade de oferecer prazer ao invés de recebê-lo perpassa nosso universo adolescente e, costumeiramente, estamos lá, negando o sexo oral. Esse receio que temos de nossas próprias partes íntimas nos torna escravas de um ritual de sexo onde o nosso gozo não passa sequer perto de ser relevante.
Portanto, chega a ser gritante a necessidade da quebra desses valores. Vaginas são diferentes em seus formatos, em seus cheiros, em suas necessidades. Clitóris precisam ser estimulados em suas potencialidades. E mulheres, é claro, são donas de suas vaginas, clitóris e desejos. Então, pra nos empoderarmos basta pensar que não é, e não dá pra ter nojo… é só uma vulva! E sexo não tem que ser nada além de reciprocidade e troca. Vamos chupar!

*Link para o texto da Nádia Lapa: http://cemhomens.com/2013/01/oral-so-em-uma-a-cada-cinco/mens/
*Link para o texto da Thaís Campolina, que me ajudou muito nessa publicação: http://ativismodesofa.blogspot.com.br/2012/06/menstruacao-autoestima-e-odio-ao.html
*Agradecimento mais do que especial à todas que trocaram ideias e me inspiraram imensamente no Machismo Chato de Cada Dia: esse texto é, sobretudo, uma homenagem pra vocês.

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Velhos textos – parte I.

Já não faço a mais remota ideia de que dia ou mês nós estamos. Sei o ano, porque é o ano em que nos conhecemos, e não me lembro de ter rompido nenhuma fase importante ou crucial desde a primeira vez que os nossos olhos se cruzaram.

Eis o primeiro engano desta carta: desde a primeira vez que nossos olhos se cruzaram eu já consegui saber seu nome, te dar um beijo e te perder. Devem ser fases importantes, mas nenhuma delas teve champagne pra comemorar. Na verdade, sequer você me pagou uma cerveja, porque pelo que percebo agora, no auge dessa lucidez incômoda, eu não valho mesmo nenhuma aula de Política desperdiçada na mesa do bar da esquina.

Engraçado. Antes eu achava que aquele bar sujo e os meus amigos revolucionários da Vila Madalena é que estavam longe de merecer a sua presença, que quase brilha e ofusca as demais coisas. Mas depois de ter a minha visão quase cegada pelo anel prateado que você leva novamente na sua mão direita, só me restaram mesmo as bebidas baratas do bar do Luizão, e aquele rádio velho disputado entre os estudantes e os bêbados para ver quem consegue ser mais pedante escolhendo uma estação FM.

O que sei é que neste mês desconhecido, neste dia desconhecido, estou comemorando a minha falta de emprego, de dinheiro pra pinga com canela e essencialmente de você, com o pouco de chocolate que minha irmã deixou na geladeira e com Shakira tocando nos auto falantes. Ela pergunta: “who would have thought that you could hurt me the way you’ve done it?” e eu não sei responder.

Porque quando você ficava me prendendo entre um corredor e outro de uma aula e outra, você parecia bastante satisfeito com a minha presença. E quando você sussurrava aquelas coisas indecentes no meu ouvido, e beijava os meus seios, parecia de fato que você gostava de mim. E agora eu sei que eu sou jovem e burra demais pra distinguir os olhos de paixão dos olhos de libido.

Então que culpa eu tenho, também, se todo o resto do universo fez um pacto de mediocridade contigo, e ninguém me contou que eu era apenas o seu brinquedo, enquanto ela era nada menos que a sua mulher? Ninguém me contou que você notava em mim a beleza de uma menininha de dezessete anos, e nada mais.

E a própria música autodestrutiva responde: “you don’t even know the meaning of the words ‘I’m sorry’” e eu chego à conclusão de que é isso: você não tinha como me pedir desculpas por não querer estar comigo. Não tinha como me pedir desculpas por ter uma vida ao seu redor, enquanto tudo o que eu tenho pra mim são meus adesivos colados no armário e as minhas cópias de clássicos teóricos que aprendi a ler há pouco. Acho que devo encarar as coisas como elas são e não mais como eu queria que fossem, e com um pouco de tequila pra dentro, decidir sozinha e por nós dois que isso não foi, nem pôde ser uma história a ser dividida. Essa é a história que eu queria ter construído, mas você não. É algo novo pra mim, mas não pra você.

Doeu, dilacerou, e está me matando por dentro. Te ver todos os dias é o tipo de tortura lenta e dolorosa, que dá prazer a quem faz. E eu vejo o prazer nos seus olhos quando finge que me quer por um segundo, só pra me obrigar a lembrar que eu não tive e nem nunca terei você por inteiro.

Freud deve explicar. É uma pena eu ter deixado de ir às aulas de filosofia da memória nas últimas semanas apenas pra não te encontrar assim, logo na segunda-feira.

Felicidades, é o que eu te desejo. A música acabou e as últimas palavras que ouvi, antes de pular entre os meus travesseiros e odiar você, sua cidade, essa rotina e a minha vida, foi “should be illegal to decive a woman’s heart”.

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Memorável

O sol ia se pondo atrás do mar, e o céu se transmudava na mescla de tons de azul e laranja que logo virariam constelações a te observar. Seus passos tímidos brincavam com a água salgada que a maré trazia até os nossos pés.
O que era claro e se transformava em escuridão estava apenas no exterior. Aqui dentro, o processo inverso – aguardado em silêncio ao longo de tanto tempo – já se dava: toda a escuridão se clareava e toda a quietude se fazia em palavras. Quando alguém sorri com os olhos, o mundo sorri com a lua cheia e a vida parece indubitavelmente bonita.
A imensidão de todas as coisas que nos cercavam não era maior do que o infinito daquilo que sentíamos. E entre as risadas infantis que arrancamos um do outro e a seriedade dos assuntos sobre nossas vidas, sempre há de pairar a sensação de que pouco (ou nada) importa se estamos falando sobre Marx ou Proudhon, sobre ir pra Montevidéu ou estudar na Europa, sobre o passado enorme que ficou na memória ou o futuro que pretendemos compartilhar. Sempre prevalecerá a sensação de que os gestos dizem todo o essencial e a verborragia de taberna das nossas conversas é apenas pretexto para fazer a caminhada maior e o toque das mãos mais duradouro.
Nós caminhamos pela orla o máximo que pudemos e os fogos de ano novo brilharam no céu. O fim de algo é inevitavelmente o começo do novo, e entre tantas idas, vindas, perdas e dores, restamos eu e você, como sempre e para sempre – assim como me dissestes enquanto eu me perdia no seu abraço. A propósito, não tenho certeza se de fato ouvi essas palavras, ou apenas senti o que você pensava. Sei que o meu lugar está posto e confortavelmente nos espalhamos no espaço que a vida reservou pra assistir a eternidade gostar de nós dois.