Monthly Archives: Dezembro 2012

Obrigada, 2012

Toda proporcionalidade é demonstrada nos ciclos de vivência. 2011 fora um ano incrível, portanto, já era de se esperar que 2012 fosse ruim.
Foram três meses sem emprego, cinco meses sem aula. Perdi minha avó, o meu cachorro e um colega de faculdade em menos de 60 dias. Terminei um namoro de dois anos em uma tarde. Números, dias, horas… que eu não esquecerei. Palavras que vão ficar ecoando por sabe-se lá quantos anos aqui dentro da minha mente.
Além, é claro, das promessas que eu fiz e não vou poder cumprir e das juras que me fizeram, mas humanamente não puderam se tornar reais. Não vou chorar. Nada disso foi em essência mau. Tudo foi extremamente agregador, desde que parei de encarar a vida como algo potencialmente triste. A vida é uma chance única pra aprender com erros, já que estes são inevitáveis. É uma chance única de aprender com as perdas, já que essas independem da nossa vontade – e assim, é uma chance de aprender que nem tudo o que não é exatamente a nossa maneira, é terrivelmente cruel.
Com os três meses sem trabalho, aprendi a valorizar cada dia de suor. Com os cinco meses sem aula, aprendi a valorizar cada segundo dentro da universidade. Eram coisas que antes eu desprezava, talvez por serem corriqueiras. Mas entendi que mesmo quando fui demitida e chutada como um cão, eu estava crescendo. Que mesmo quando eu chorei por quase cinco horas sem parar por ter errado nas minhas perspectivas políticas, eu estava crescendo. O que importa? As pessoas que trabalharam comigo puderam dividir o seu cotidiano ao meu lado, e isso é por excelência lindo. Os que firmaram alianças de greve comigo me renderam a chance de ouvir coisas que eu jamais tinha pensado e de criar uma malícia de quem já viu a humanidade de perto ao menos uma vez. Permanecem eternizados, mesmo que na memória. Ocupam um espaço que está cristalizado e flutuam nas lembranças elegivelmente boas, junto com minha avó, meu cachorro, o colega de faculdade e o ex namorado.
2012 foi um ano de respeito. Eu me respeito muito mais do que me respeitava quando pensava que o significado de dar-se ao respeito era sentar de pernas fechadas e mentir o número de homens que tive na cama. Eu me respeito porque todo dia de manhã eu tenho a responsabilidade de pagar as minhas próprias contas, de galgar meus próprios degraus, de vencer minhas próprias limitações. E não estou mais potencialmente suicida por isso. Estou feliz.
Descobri, assim, que viver e morrer são dois lados de uma mesma coisa. Os ganhos são advindos do que se vai e já que o que mais prezo é a liberdade, existe uma beleza especial em deixar ir para ver chegar. Existe alegria e força em saber perder, em não achar que merece tudo, em não querer segurar o mundo sobre os próprios ombros.
E dentro destes dias datados com o número doze ao final, houve toda a sinceridade possível e cabível, todo o esforço e dedicação, toda a vitalidade e a renovação. Não vou me queixar, apenas agradecer. Obrigada, 2012. Quem eu seria sem tudo isso além de a mesma adolescente idiota dos anos de colégio? Bem vindo, 2013. Cada dia será lucubrado com o peso de quem já muito sabe, muito viu e nada pretende (além é claro, de receber todas as dádivas do destino iluminado por cada raio de sol e gota de chuva em cada manhã).

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A morte, a fugacidade e a antropologia

Passei o dia dentro daquela repartição claustrofóbica, ouvindo as reclamações que não me convém e bebendo o café preto, forte e amargo que servem na copa. Logo pela manhã, dizia à minha colega que eu acredito na existência de diversas dimensões que dividem tempo/espaço de forma desigual, fazendo com que passemos por diferentes experiências em uma única vida, sem que isso chegue ao nosso conhecimento e perpasse a nossa memória.
O que eu pretendia com isso às dez da manhã de uma inconveniente quarta-feira ensolarada, era repetir como um mantra mental que algum lugar da existência me reservava um espaço melhor na colocação do status social, onde eu estaria sentada sobre as pedras de uma praia deserta, curiosamente experimentando um drink de rum e pêssego e lendo Eduardo Galeano.

Na cidade ao lado, quase conurbada pela grande metrópole paulista, ele devia estar chegando ao trabalho e colocando sua gravata amarela de atendimento.  Algum inconveniente deveria estar por se suceder – porque essa é a rotina de pessoas que trabalham com as piores coisas do mundo: gente e dinheiro.  Acho que ao contrário de mim, não bebia café. Talvez água, pra esquecer que a imbecilidade das formalidades humanas lhe obrigava a trabalhar de terno em um calor de quase quarenta graus.
Jamais poderei dizer o que ele pensou ou disse nas horas que se estenderam nesse dia tão impreciso, mas estou certa de que nada do que tenha proferido seria o suficiente, se ele soubesse – como eu também não sabia – a forma esdrúxula como nossa existência seria encaminhada ao incerto nos próximos momentos.

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Do outro lado da tela, alguém me importunava com inconvenientes que não me interessam, e eu me sentia empapuçada, exausta, desgostosa. Queria findar a conversa lamentável que decorria, e para isso, fechei os programas abertos, peguei meu livro: “Ah, mas que droga de vida! Eu não vou entender Lévi-Strauss nem em uma vida, quanto mais em um dia!”
Meu telefone tocou. Do outro lado da linha, ele me fez o convite que qualquer pessoa faria às vésperas de uma prova sobre a escola antropológica estruturalista: “Você quer estudar comigo?”
Olhei o relógio. Dezessete horas e eu não tinha lido nem a metade das páginas que deveria ler. Olhei a tela. Eu não tinha escrito nem a metade dos argumentos que poderia usar naquela discussão.  Não me restaram dúvidas: “Sim, eu quero.”

Depois de empenharmos alguns esforços em conjuntamente ler aquela coisa maçante e cheia de termos em francês, apreendemos finalmente a busca pela lei universal das culturas. E eu ainda tive tempo pra brevemente pensar que isso era uma coisa idiota.  “O que pode ser universal?”  – pensava eu.
Entrei no carro. Ele dirigia do único jeito que sabe: com a mão esquerda no volante, e a direita sobre a perna. No rádio, o jogo do nosso São Paulo pela Sulamericana nos manteve em silêncio por boa parte do caminho. É necessário atenção quando o seu time joga, e o dobro de atenção quando o seu time joga uma competição latino americana. Essa regra aprendi com o meu pai desde cedo. O locutor disse em um tom de voz jocoso “O São Paulo Futebol Clube vem se esforçando para perder esse jogo tão simples, não acha?” – “Sim, eu acho!” ele disse, usando um tom de voz ainda mais irônico. Nós sorrimos.
O calor tinha se condensado em uma chuva torrencial, e todo o escaldante tom amarelo do sol tinha se transformado em cinza e em poças. Os semáforos da avenida que me traz até em casa estavam quebrados. Ainda estávamos sorrindo.
No instinto idiota que nos faz agir como se fossemos nós o próprio motorista, nos tornando copilotos de quem faz tal proeza melhor que nós, olhei os dois lados do cruzamento. Olhamos, melhor dizendo. Nada. Ele pisou no acelerador e de repente, eu só vi a luz. Quando você está prestes a ser esmagada por ônibus, posso lhes assegurar: a luz dos faróis é a representação exata, contundente e lúdica do fim da vida.
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Não sei direito quanto tempo se passou. Talvez nenhum segundo completo, apenas milésimos de. Mas foi como se eu tivesse visto ao mesmo tempo, toda a vida que eu gostaria de ter vivido, e toda a vida que eu tive. Consegui também de súbito cerrar os olhos em um instinto que me dizia que se eu não enxergasse, não morreria. Tudo parou de se mover, inclusive eu.
Forçosamente, levantei as pálpebras. Eu não sentia o meu corpo, e então, tudo o que eu pensei foi que havia uma única opção: eu estava morta. Queria ter conseguido mover as mãos e tocar meu próprio corpo, mas eu não conseguia. O cérebro não respondia mais aos estímulos, e de tal maneira, não me restou dúvida alguma: eu estava realmente morta.
Tudo o que se passou até que ele ligasse novamente o carro e andássemos mais alguns metros, pra longe daquele ônibus e de todo o horror daquela circunstância, fica embaçado na minha mente, como se não tivesse existido. Sei que só quando senti que alguma coisa se movimentava, é que eu consegui também mexer minhas mãos e de forma insana eu apalpava minhas pernas e braços, e olhava para a falange dos meus dedos, me perguntando pelo sangue e pela dor. Não havia nada.
Olhei pra ele e ele estava chorando. Minha normatividade nesse tipo de situação é perguntar o porquê das lágrimas, mas dessa vez fiz outra pergunta. Eu apenas questionei se eu estava de fato viva, e ele disse que ao que parecia, sim.  E aparentemente, era verdade. Eu estava viva e um pouco em estado de choque. Assim, também em questão de poucos minutos eu senti vontade de chorar e de rir compulsivamente; de mandar todas as pessoas que eu odeio à merda e de abraçar todas as pessoas que eu amo. Senti vontade também de ter morrido e podido reencontrar o meu cachorro, que partira do mundo no sábado anterior.

O que posso dizer é que mesmo diante do portão da minha casa, ainda dentro do carro, eu não sabia se estava viva ou morta. Foi um estado de suspensão. Por um lado, eu estava ao lado de alguém que conheço há anos, e ele era uma garantia de que eu estava salvaguardada e de que o pior havia passado. Por outro, ele também estava dentro daquele carro, e também poderia ter morrido. Podíamos, portanto, estar os dois mortos e em outro plano. Afinal, quem escapa por um milímetro de um acidente com um ônibus? Ninguém. Muito menos dois ateus, sarcásticos e cínicos como nós.
Saltei do carro me despedindo e fiz o pedido mais idiota que poderia fazer. Perguntei se ele poderia me enviar uma mensagem quando chegasse em casa. A razão: pessoas mortas não recebem sms, e eu não poderia ler algo tão concreto em um celular. Pessoas mortas não tem celulares!
Mas mesmo a mensagem tendo chegado em pouco mais de trinta minutos, eu ainda não me convenci de que estou viva. Eu ainda sequer me convenci de que tudo isso de fato aconteceu. É como se uma parte inventiva do meu inconsciente tivesse impulsionado tudo isso, com a finalidade única de me fazer passar um tempo presa nessa realidade onde o céu de baunilha é mais próximo do chão do que aquele acidente esteve próximo do tangível.

Fui sugestionada a reconstituir tudo isso para concluir que em alguma dimensão eu morri. Morri ao lado de um dos meus melhores amigos, de forma que seremos pra sempre nessa dimensão uma estagiária depressiva e um escriturário de banco.
Também concluí que em algum lugar, eu nunca estive estudando antropologia, porque estava sim bebendo e lendo sobre as feridas abertas da pátria grande, e por consequência, do meu próprio ego.
Encontrei a força motriz para compreender a lei universal que inspirado por Saussure, buscava o velho Claude: os homens são arbitrariamente obrigados a se verem diante do inexistente, do inconstante. A vida e a morte são um meio fio entre o nunca e o agora, e um desafio arriscado que te obriga a ver que nada é findável, tampouco infinito.
Passei a linha tênue entre querer compreender o mundo ou vive-lo. Essa é a única ciência do concreto.

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NÓS NÃO NOS CALAMOS: O MACHISMO NÃO PASSOU

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Esse é só um agradecimento. Um jeito de dizer muito obrigada pelo barulho que todos os setores acadêmicos nos ajudaram a fazer. Foi muito bonito e extremamente agregador ver gente de todos os tipos de pensamento político se unir pra gritar que “a luta é todo dia, contra o machismo, racismo e homofobia”.
Obrigada pelo papel de cada um no debate, na confecção dos cartazes e no batuque encantador que rolou durante a marcha. “Olha a Geni na pista, não pense com a sua pica, não pense com a sua pica, não precisa ser viril: cem por cento desse mundo foi as puta que pariu.”
E essa é história do dia em que o machismo não passou.

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