A SOCIEDADE NÃO QUER HOMEM QUE BATE EM MULHER

À Universidade Federal de São Paulo
seus gestores e corpo estudantil:

Na última sexta-feira, nosso campus acadêmico pode presenciar um dos acontecimentos mais lamentáveis e dignos de repúdio já presenciados. Um de seus discentes agrediu a colega de graduação, com quem tivera um relacionamento no passado. Presentes no recinto, alguns guardas, contratados teoricamente para assegurar fisicamente os alunos que convivem naquele espaço, nada fizeram. Outros colegas que assistiram a deplorável cena tentaram auxiliar, afastando os envolvidos.
Não me contento em perpassar esse breve relato sobre a cena, que não presenciei pessoalmente, mas a qual me foi contada pela própria vítima, minha amiga pessoal. Quero expressar aqui, minha indignação imensurável perante os que estiveram presentes durante todo o ocorrido e não se dignificaram a auxiliá-la antes que ela pudesse sofrer flagelo – ou seja, presenciaram a violência verbal, as palavras ofensivas e machistas proferidas pelo rapaz e continuaram imóveis. Venho relembrar um antigo grito utilizado pelas feministas: “em briga de marido e mulher, se mete a colher”. Digo isso, pois tenho convicção de que toda a sociedade deve se responsabilizar pelas desigualdades que carrega, já que estas são produzidas por todos nós. Portanto, tratemos de nos indignar, tratemos de ver que isso não é normal e de carregarmos conosco a possibilidade de mudar essa triste realidade através de nossas atitudes e do repúdio à violência e discriminação, incluindo quando esses engodos são ligados ao gênero.
O envolvimento intrínseco que temos todos nós com esse caso, se dá por alguns fatos que pontuarei a seguir:
Primeiramente, gostaria de relembrar essencialmente aos graduandos um episódio ocorrido durante nosso tenso período de greve. Lembram-se da aluna que foi chamada de ‘vadia’ por um membro da Associação Atlética Unifesp Guarulhos? Durante esse tempo, vi incontáveis manifestações sobre o assunto e propostas de linchamento público estavam inclusas. Embora eu tenha sido contra tais proposições, não fui complacente com a atitude e sugeri que os poderes públicos fossem envolvidos para que a lei resolvesse a questão. Pois bem, não sei dizer se isso foi feito. Mas o que quero dizer relembrando esse caso, é que os grupos de esquerda souberam se organizar e demonstrar suas posições de repúdio ao machismo. Questiono: onde estão estas pessoas agora que o agressor é parte do próprio movimento estudantil e fez parte da greve supracitada? Gostaria, sinceramente, que esse silêncio fúnebre que se encontra entre nós desde o ocorrido fosse quebrado. Não existe companheiro que bate em mulher. O machista de esquerda, direita, centro e o apolítico são absolutamente a mesma coisa. Apelo para a não omissão de cada organização presente no seio de nossa autonomia estudantil.
Agora, quero dirigir-me à gestão desta universidade. A questão que relatei aqui aconteceu dentro do campus, no espaço público federal onde estudamos. Isso não pode ser tratado como um problema pessoal da vítima, principalmente tendo em vista as afirmações de que o agressor tem problemas psicológicos que necessitam de tratamento. A universidade tem uma Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE). Pois bem, este é um assunto estudantil delicadíssimo, que envolve traumas e dissonâncias, e creio que essa instância deve apurar o ocorrido e oferecer segurança institucional para sua aluna agredida. Aluna esta, que lembro aos senhores, produz ciência por esta instituição. Portanto, os vínculos acadêmicos dos envolvidos não podem ser ignorados, de modo que aguardo ansiosamente pelo processo de sindicância e pela resposta oferecida pela Unifesp, que não pode simplesmente obrigar uma mulher agredida a conviver com seu agressor. Ressalto, para que não repitam o argumento, que a justiça utilizada por todos os civis será também acionada nesse caso. O que quero dizer quando peço a intervenção da Universidade Federal de São Paulo, é que essa instituição está indissoluvelmente ligada com essa questão, já que a mesma ocorreu dentro do campus e sob os olhos de todos nós. Quando janelas são quebradas, alunos sofrem sindicância. Quando mulheres apanham, nada se passa?
Por fim, pontuo os meus motivos e minha ideologia, que fazem essa carta ser redigida:
Quando uma mulher é agredida, eu também sou agredida. Quando uma mulher é violentada, eu também sou violentada. Todas as mulheres são.
Então não vou me calar, porque quando a lei nada oferece a essa mulher, a lei garante que nada oferecerá para mim. E defendo a ideia de que quando a instituição onde estão inseridos vítima e agressor não toma partido em favor do oprimido, ela legitima a violência que ocorre sob o seu teto – ela está sendo conivente, omissa – e com efeito, pífia. Uma universidade é espaço de emancipação. Negar a violência e lutar contra a mesma é o maior ato de emancipação e autonomia que conheço.
Nada justifica a agressão, a violência de gênero, a desforra. Não é distúrbio psicológico algum, ou o álcool, ou qualquer entorpecente que há de justificar que uma mulher tenha cerceado seu direito de ir e vir, que continue a sofrer a violência histórica que se estende desde tempos imemoriais. Nada é capaz de tornar isso plausível. Mas isso se torna essencialmente inaceitável em um espaço de produção do conhecimento, um espaço que deve questionar o status quo e prezar pela primazia do diálogo e pelo poder das ideias.
Não vou me cegar, não vou silenciar. Previamente digo que eu vou incomodar todos vocês que viram e nada fizeram. Vou incomodar todos vocês que permanecem em silêncio, que negam a justiça e o direito de manifestação. Vou incomodar, beirar a inconveniência com todos vocês que compõe essa instituição, sua burocracia e seu corpo acadêmico, e que nada estão fazendo para mobilizar suas instâncias em favor de uma causa que grita ao mundo a necessidade de libertação de todo um gênero.
Não há persona que possa se enquadrar fora do estigma de machista quando está reproduzindo a cultura do patriarcado. O rótulo de estudante nesse caso, vale menos que as desculpas escusas usadas de forma tacanha pelas supracitadas pessoas e órgãos, para tentar nos calar.
Por fim, convoco a todos que estão realizando essa leitura: somos muitos, inúmeros. Vamos nos fazer companhia, vamos mostrar que somos coesos. – MEXEM COM UMA, MEXEM COM TODXS! E se a UNIFESP não nos amparar, e se os ‘companheiros libertários’ tentarem tampar nossas vozes em nome de uma unidade no movimento estudantil, não vamos aceitar, não vamos nos omitir. Essa é a nossa causa, e nós somos a frente, a base e o coração dela. SOMOS TODXS KATHLEEN! Vamos fazer um barulho intenso que venha a incomodar e expulsar os agressores e seus convivas. Costumo dizer “mulher, não se cale”. Desta vez vou fazer melhor: comunidade acadêmica: NÃO SE CALE.


Viviane Sanchez
Universidade Federal de São Paulo
Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Ciências Sociais, 3º termo

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