Primeiro Conto

Sentindo que acordaria naquela manhã perdida como de costume, cerrei meus olhos, e por mais que eles quisessem se abrir, eu insisti em não permitir. Não sei precisar o tempo que passei deitada no chão da sala, me encolhendo entre os muitos cacos de toda a louça que quebrei na noite anterior. Sei que gastei todo esse tempo pensando em teu rosto.

Não sabia se estaríamos juntos ou não, visto que a solidão sempre foi aquilo o que nos unia. Todos os meus medos estavam lá, mas com os olhos fechados eu não os via. Todas as lágrimas estavam lá, mas com a dor latente causada pelos profundos cortes que fiz rolando a noite toda entre os pedaços da porcelana, eu não as sentia. Tudo estava quieto, e a vida deveria continuar a passar, tudo deveria ser bonito como um dia foi o meu rosto no espelho. Mas a nossa história estava à sombra disso: Tudo é beleza e completude, exceto nós.

Eu poderia ter explorado a minha capacidade de amar, mas como sou às avessas, quis vingança. Eu gostaria imensamente de ter aprendido a usar minha beleza a meu favor, mas como sempre, disse demais. O espelho do nosso quarto estava quebrado, como tudo naquela casa e como nós dois. Ainda assim, me dirigi até ele e toquei meu reflexo. Olhei no fundo dos meus próprios olhos. Meus olhos… Eles haviam me ludibriado! Eu tinha os olhos mais bonitos de todo o mundo. Mas onde antes estava a minha força, eu só encontrei o delírio.

Vendo a minha própria imagem, eu não pude mais enganar minha percepção: senti as lágrimas caindo sobre minha boca. Senti o gosto do sal quando eu queria ter sentido o teu gosto. Eu me enganei. Eu vi em ti o desejo, quando em ti só havia o medo e a solidão. Eu queria fugir, mas não havia lugar que me abrigasse. Agora que o barulho se foi, não havia mais nada. Não havia mais medo e não havia mais razão para lágrimas: só havia o silêncio.

Ganhei algum tempo para limpar toda a sujeira que havia feito. Todo o vidro misturado aos minúsculos pedaços de papéis e fotos que passei a noite toda rasgando minuciosamente e espalhando por todos os cômodos. Peguei o seu revólver. 9mm, e você sempre dizia “Esta arma, minha pequena, é capaz de fazer um buraco enorme no coração de um homem, como você faz.” Talvez você estivesse errado sobre a maneira como o sexo oposto me vê. Mas estava completamente certo sobre o estrago que uma arma deste porte faz.

Todos dizem que na hora da morte você vê sua vida passar atrás de seus olhos. Isso é mentira. Se a sua vida tivesse passado atrás dos olhos teus, eu também teria visto. Mas a única coisa que vi no seu olhar, foi o arrependimento por nunca ter me amado.

Anúncios
Com as etiquetas , ,

16 thoughts on “Primeiro Conto

  1. Hernan diz:

    ahhh vivi muito bom! que acha de escrever pra caralha e continuar vivendo na merda enquanto um monte de lixo tá fazendo sucesso e indo pras ~telonas~?

    amo you

  2. luizfelipecsguimaraes diz:

    ” Mas a única coisa que vi no seu olhar, foi o arrependimento por nunca ter me amado.” Muito medo e muito amor ao mesmo tempo haha. parabéns Vivi =)

  3. Palavras fortes que a mim agradaram

  4. Tenho chegado à conclusão que gosto de psicopatas. Provavelmente me identifique.

  5. Lindona! Lindo texto! Continue escrevendo e venha domínio conexo comigo!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: