Monthly Archives: Novembro 2012

Diálogo dessa madrugada

“A única coisa que vale a pena lutar é por si mesmo. Pelo resto, não. O resto – a palavra já diz tudo – é resto. Ninguém entende os nossos anseios, os nossos desejos. Para que, então, lutar por eles? A passividade prova a luta vã que é esta. A chance de você perder integridade física é grande… e a troco de que? Será que ela faria isto por você? Não que isto conte alguma coisa… mas, é algo pra se pensar um minuto.”

“Eu não espero a retribuição. Isso é até estranho pra mim. Ter esse tipo de interesse…
Queria parar mesmo de expor os meus anseios e de colocar a voz pra fora. Me sinto mal com esse meu jeito impulsivo de ser, e completamente compreendo a sua fala.
Só fico em dúvida com essa sua frase, sobre lutar por si mesmo. Tá…e pra que fazemos Ciências Sociais, então? Produzimos uma ciência que se propõe sugerir rumos sociais. Não é possível que esses rumos sejam regidos pelo nosso interesse único em nós mesmos. Ou é?”

“ Por isto que me “arrependo” de não ter feito filosofia. Ao meu ver, toda a luta por povos se mostra superficial e arrogante: o que sabemos, realmente, dos anseios da nação? Não estaríamos fazendo o papel de “Deus” tentando salvar o mundo? Aliás, quantos seres humanos sabem realmente daquilo que lhe é ausente? O que cada um realmente acredita e quer para si? O que eu quero para mim de verdade e o que você quer para si? Respondendo por mim, tenho apenas vinte anos e ainda não sei ao certo o que quero. Como eu, alguém que não sabe o que quer de verdade, pode responder aos anseios de uma massa? Por isso que o lutar por si mesmo me parece algo sensato, mas não menos trabalhoso do que o nosso curso propõe a fazer. Não se sinta mal. Pense que a maior revolução que você pode fazer é a revolução dentro de si. Talvez, comentando sobre os interesses… que toda a nossa história tenha sido feita por homens vaidosos. Vendo por mim, a minha vaidade é conseguir respeito. Uns querem dinheiro, outros outras coisas… eu quero respeito. É o preço de minha vaidade. Acho que é comum ao ser humano ter; só que uns descobrem e outros não.”

“Analisando a sua fala, só posso crer que você propõe uma normatividade social de indivíduos silenciosos. Não sei se isso seria bom ou ruim, porque nem vinte anos eu tenho ainda, e nisso estamos de acordo – ninguém tem certeza do que quer pra sempre nem aos vinte e nem nunca dessa vida.
Mas é impossível passar incólume pelas forças que agem externamente a nossa vivência pessoal. Os homens vaidosos (também estou de acordo em relação a isso) que construíram a história escravizaram outros homens para manter sua vaidade e para legitimar suas atitudes. Os homens vaidosos que construíram a história subjugaram todo um gênero aos seus postulados, e dessa forma, continuamos vivendo sob premissas que não foram construídas por nós, mas que moldam nossos caráteres, nossos desejos. A partir do momento em que você começa a se emancipar, a fugir do senso-comum, simplesmente descobre que é fruto de uma imersão, de um repasse de valores. A maior revolução então é dentro de si mesmo – mas quais os motivos para não externalizar essa revolução? Não estou dizendo que os meus axiomas são verdades universais. Mas são as minhas verdades. E me furtar ao debate, é me furtar a dizer que acredito na possibilidade de uma mudança, e de uma mudança positiva.
Já disse inúmeras vezes que detesto quando colocam a sociedade, ou qualquer indivíduo/entidade no papel de deus. Estou convicta da não-necessidade de deuses ou líderes para conduzir qualquer tipo de necessidade coletiva. O que penso é que a convivência produz, indubitavelmente e incontestavelmente, sensações comuns aos seres enquadrados em um modelo. E se esse modelo nunca é questionado, não há história, não há filosofia e não há progresso humano. Eu apenas me proponho a questionar. Se o que digo será aceito ou não, só o debate e o tempo dirão.
Não tenho dúvidas de que o meu anseio (mesmo que oculto por vezes) ao me expor dessa forma, é construir parte da história. Sou uma mulher com uma vaidade também: a liberdade. É essa vaidade que me impede de calar-me.”

“Nossa, bonito o que você escreveu.”

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A SOCIEDADE NÃO QUER HOMEM QUE BATE EM MULHER

À Universidade Federal de São Paulo
seus gestores e corpo estudantil:

Na última sexta-feira, nosso campus acadêmico pode presenciar um dos acontecimentos mais lamentáveis e dignos de repúdio já presenciados. Um de seus discentes agrediu a colega de graduação, com quem tivera um relacionamento no passado. Presentes no recinto, alguns guardas, contratados teoricamente para assegurar fisicamente os alunos que convivem naquele espaço, nada fizeram. Outros colegas que assistiram a deplorável cena tentaram auxiliar, afastando os envolvidos.
Não me contento em perpassar esse breve relato sobre a cena, que não presenciei pessoalmente, mas a qual me foi contada pela própria vítima, minha amiga pessoal. Quero expressar aqui, minha indignação imensurável perante os que estiveram presentes durante todo o ocorrido e não se dignificaram a auxiliá-la antes que ela pudesse sofrer flagelo – ou seja, presenciaram a violência verbal, as palavras ofensivas e machistas proferidas pelo rapaz e continuaram imóveis. Venho relembrar um antigo grito utilizado pelas feministas: “em briga de marido e mulher, se mete a colher”. Digo isso, pois tenho convicção de que toda a sociedade deve se responsabilizar pelas desigualdades que carrega, já que estas são produzidas por todos nós. Portanto, tratemos de nos indignar, tratemos de ver que isso não é normal e de carregarmos conosco a possibilidade de mudar essa triste realidade através de nossas atitudes e do repúdio à violência e discriminação, incluindo quando esses engodos são ligados ao gênero.
O envolvimento intrínseco que temos todos nós com esse caso, se dá por alguns fatos que pontuarei a seguir:
Primeiramente, gostaria de relembrar essencialmente aos graduandos um episódio ocorrido durante nosso tenso período de greve. Lembram-se da aluna que foi chamada de ‘vadia’ por um membro da Associação Atlética Unifesp Guarulhos? Durante esse tempo, vi incontáveis manifestações sobre o assunto e propostas de linchamento público estavam inclusas. Embora eu tenha sido contra tais proposições, não fui complacente com a atitude e sugeri que os poderes públicos fossem envolvidos para que a lei resolvesse a questão. Pois bem, não sei dizer se isso foi feito. Mas o que quero dizer relembrando esse caso, é que os grupos de esquerda souberam se organizar e demonstrar suas posições de repúdio ao machismo. Questiono: onde estão estas pessoas agora que o agressor é parte do próprio movimento estudantil e fez parte da greve supracitada? Gostaria, sinceramente, que esse silêncio fúnebre que se encontra entre nós desde o ocorrido fosse quebrado. Não existe companheiro que bate em mulher. O machista de esquerda, direita, centro e o apolítico são absolutamente a mesma coisa. Apelo para a não omissão de cada organização presente no seio de nossa autonomia estudantil.
Agora, quero dirigir-me à gestão desta universidade. A questão que relatei aqui aconteceu dentro do campus, no espaço público federal onde estudamos. Isso não pode ser tratado como um problema pessoal da vítima, principalmente tendo em vista as afirmações de que o agressor tem problemas psicológicos que necessitam de tratamento. A universidade tem uma Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE). Pois bem, este é um assunto estudantil delicadíssimo, que envolve traumas e dissonâncias, e creio que essa instância deve apurar o ocorrido e oferecer segurança institucional para sua aluna agredida. Aluna esta, que lembro aos senhores, produz ciência por esta instituição. Portanto, os vínculos acadêmicos dos envolvidos não podem ser ignorados, de modo que aguardo ansiosamente pelo processo de sindicância e pela resposta oferecida pela Unifesp, que não pode simplesmente obrigar uma mulher agredida a conviver com seu agressor. Ressalto, para que não repitam o argumento, que a justiça utilizada por todos os civis será também acionada nesse caso. O que quero dizer quando peço a intervenção da Universidade Federal de São Paulo, é que essa instituição está indissoluvelmente ligada com essa questão, já que a mesma ocorreu dentro do campus e sob os olhos de todos nós. Quando janelas são quebradas, alunos sofrem sindicância. Quando mulheres apanham, nada se passa?
Por fim, pontuo os meus motivos e minha ideologia, que fazem essa carta ser redigida:
Quando uma mulher é agredida, eu também sou agredida. Quando uma mulher é violentada, eu também sou violentada. Todas as mulheres são.
Então não vou me calar, porque quando a lei nada oferece a essa mulher, a lei garante que nada oferecerá para mim. E defendo a ideia de que quando a instituição onde estão inseridos vítima e agressor não toma partido em favor do oprimido, ela legitima a violência que ocorre sob o seu teto – ela está sendo conivente, omissa – e com efeito, pífia. Uma universidade é espaço de emancipação. Negar a violência e lutar contra a mesma é o maior ato de emancipação e autonomia que conheço.
Nada justifica a agressão, a violência de gênero, a desforra. Não é distúrbio psicológico algum, ou o álcool, ou qualquer entorpecente que há de justificar que uma mulher tenha cerceado seu direito de ir e vir, que continue a sofrer a violência histórica que se estende desde tempos imemoriais. Nada é capaz de tornar isso plausível. Mas isso se torna essencialmente inaceitável em um espaço de produção do conhecimento, um espaço que deve questionar o status quo e prezar pela primazia do diálogo e pelo poder das ideias.
Não vou me cegar, não vou silenciar. Previamente digo que eu vou incomodar todos vocês que viram e nada fizeram. Vou incomodar todos vocês que permanecem em silêncio, que negam a justiça e o direito de manifestação. Vou incomodar, beirar a inconveniência com todos vocês que compõe essa instituição, sua burocracia e seu corpo acadêmico, e que nada estão fazendo para mobilizar suas instâncias em favor de uma causa que grita ao mundo a necessidade de libertação de todo um gênero.
Não há persona que possa se enquadrar fora do estigma de machista quando está reproduzindo a cultura do patriarcado. O rótulo de estudante nesse caso, vale menos que as desculpas escusas usadas de forma tacanha pelas supracitadas pessoas e órgãos, para tentar nos calar.
Por fim, convoco a todos que estão realizando essa leitura: somos muitos, inúmeros. Vamos nos fazer companhia, vamos mostrar que somos coesos. – MEXEM COM UMA, MEXEM COM TODXS! E se a UNIFESP não nos amparar, e se os ‘companheiros libertários’ tentarem tampar nossas vozes em nome de uma unidade no movimento estudantil, não vamos aceitar, não vamos nos omitir. Essa é a nossa causa, e nós somos a frente, a base e o coração dela. SOMOS TODXS KATHLEEN! Vamos fazer um barulho intenso que venha a incomodar e expulsar os agressores e seus convivas. Costumo dizer “mulher, não se cale”. Desta vez vou fazer melhor: comunidade acadêmica: NÃO SE CALE.


Viviane Sanchez
Universidade Federal de São Paulo
Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Ciências Sociais, 3º termo

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Primeiro Conto

Sentindo que acordaria naquela manhã perdida como de costume, cerrei meus olhos, e por mais que eles quisessem se abrir, eu insisti em não permitir. Não sei precisar o tempo que passei deitada no chão da sala, me encolhendo entre os muitos cacos de toda a louça que quebrei na noite anterior. Sei que gastei todo esse tempo pensando em teu rosto.

Não sabia se estaríamos juntos ou não, visto que a solidão sempre foi aquilo o que nos unia. Todos os meus medos estavam lá, mas com os olhos fechados eu não os via. Todas as lágrimas estavam lá, mas com a dor latente causada pelos profundos cortes que fiz rolando a noite toda entre os pedaços da porcelana, eu não as sentia. Tudo estava quieto, e a vida deveria continuar a passar, tudo deveria ser bonito como um dia foi o meu rosto no espelho. Mas a nossa história estava à sombra disso: Tudo é beleza e completude, exceto nós.

Eu poderia ter explorado a minha capacidade de amar, mas como sou às avessas, quis vingança. Eu gostaria imensamente de ter aprendido a usar minha beleza a meu favor, mas como sempre, disse demais. O espelho do nosso quarto estava quebrado, como tudo naquela casa e como nós dois. Ainda assim, me dirigi até ele e toquei meu reflexo. Olhei no fundo dos meus próprios olhos. Meus olhos… Eles haviam me ludibriado! Eu tinha os olhos mais bonitos de todo o mundo. Mas onde antes estava a minha força, eu só encontrei o delírio.

Vendo a minha própria imagem, eu não pude mais enganar minha percepção: senti as lágrimas caindo sobre minha boca. Senti o gosto do sal quando eu queria ter sentido o teu gosto. Eu me enganei. Eu vi em ti o desejo, quando em ti só havia o medo e a solidão. Eu queria fugir, mas não havia lugar que me abrigasse. Agora que o barulho se foi, não havia mais nada. Não havia mais medo e não havia mais razão para lágrimas: só havia o silêncio.

Ganhei algum tempo para limpar toda a sujeira que havia feito. Todo o vidro misturado aos minúsculos pedaços de papéis e fotos que passei a noite toda rasgando minuciosamente e espalhando por todos os cômodos. Peguei o seu revólver. 9mm, e você sempre dizia “Esta arma, minha pequena, é capaz de fazer um buraco enorme no coração de um homem, como você faz.” Talvez você estivesse errado sobre a maneira como o sexo oposto me vê. Mas estava completamente certo sobre o estrago que uma arma deste porte faz.

Todos dizem que na hora da morte você vê sua vida passar atrás de seus olhos. Isso é mentira. Se a sua vida tivesse passado atrás dos olhos teus, eu também teria visto. Mas a única coisa que vi no seu olhar, foi o arrependimento por nunca ter me amado.

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Considerações sobre o Governo Representativo: autogoverno e classes sociais para John Stuart Mill

John Stuart Mill, utilitarista inglês, visava assim como os demais admiradores de Jeremy Bentham, tencionar uma ideologia capaz de introduzir – com efeito – a maior quantidade de felicidade para o maior número de pessoas. Para tal finalidade, à pluralidade da sociedade-civil é atribuída grande consideração positiva, tomando por princípio a liberdade (sobretudo a de expressão) e a diversidade política como direitos por excelência de um governo com funcionamento exemplar.

Portanto, em Considerações Sobre o Governo Representativo (1861), Mill trabalha com a perspectiva de que não cabe ao Estado delegar um axioma de modus operandi para a vida social, pois é tarefa de cada indivíduo a livre escolha sobre como conduzir-se. Desta forma, o Estado não é um mero meio de coerção social dos sujeitos sociais e sim deve ser gerido por esses últimos e de acordo com as características da sociedade em questão, pois como posto por Mill (1861. Pág. 30) “[…] toda a educação que visa fazer os homens se tornarem máquinas acaba, a longo prazo, fazendo que eles clamem pelo controle de suas próprias ações […]”. A isso, podemos chamar de autogoverno coletivo, já que os cidadãos seriam responsáveis pelas funções administrativas e jurídicas das instituições públicas.

Seguindo a linha de raciocínio proposta pelo autor – o qual demonstra estar de acordo com a possibilidade de um aprimoramento moral das faculdades humanas – pode-se afirmar, então, que uma sociedade com indivíduos moralmente desenvolvidos e que buscam um bem-estar coletivo será mais bem sucedida em sua empreitada de autogestão em comparação a uma sociedade de indivíduos ignorantes, egoístas e consequentemente propensos à corrupção. Contudo, o autogoverno é uma solução viável até mesmo para estas sociedades moralmente rebaixadas, já que para Mill, o processo de participação política é educativo e capaz de desenvolver as qualidades necessárias para a ocupação social de um poder governamental. Destaco o excerto:

Todo o governo que visa ser bom é uma organização de parte das boas qualidades existentes nos indivíduos membros da comunidade para a condução de seus assuntos. Uma constituição representativa é um meio de levar o nível geral de inteligência e honestidade na comunidade, a inteligência e virtude individuais de seus membros mais sábios, a pesar mais diretamente sobre o governo, investindo-os de maior influência sobre ele, muito mais do que geralmente teriam sob qualquer outro tipo de organização; na verdade, essa influência, qualquer que seja a organização, é a fonte de todo bem existente no governo, e o obstáculo a todo o mal que lhe é estranho. Quanto maior o número de boas qualidades que as instituições de um país conseguirem organizar, e quanto melhor o tipo de organização, melhor será o governo. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 20)

É importante ainda ressaltar, que devido a vasta extensão geográfica de diversos territórios, a melhor forma de fazer vigorar esta que seria a gestão coletiva da sociedade, é o governo representativo, haja vista a característica marcante deste tipo de governo: o caráter de paridade entre as distintas classes que podem se fazer ouvir através da igualdade de cargos de seus representantes.

Porém, ao admitir as classes sociais como uma divisão entre maiorias e minorias, Mill percebe a possibilidade de um vício à democracia e ao governo representativo. Esse vício consiste na possibilidade de uma das classes conquistar o poder de forma una, criando um engodo entre a necessidade de participação e representação igualitárias para o sucesso do governo em questão, e o domínio de uma maioria sobre as demais classes presentes no corpo político, como é possível notar no trecho:

Um dos maiores perigo, portanto, da democracia, bem como de todas as outras formas de governo, consiste nos interesses sinistros dos detentores do poder; é o perigo da legislação de classe; do governo que visa (com sucesso ou não) o benefício imediato da classe dominante, em perpétuo detrimento da massa. E uma das questões que mais merecem consideração, quando se pretende determinar a constituição de um governo representativo, é como reunir precauções eficazes contra esse mal. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 68)

Para sanar a questão, Mill propõe o modelo de governabilidade de Thomas Hare, o qual garantiria proporcionalidade representativa sem deixar de manter a vigência da contraposição entre as classes – o que é benéfico à democracia, já que o poder de um único tipo de interesses é considerado ditatorial e nada agrega ao bem comum.

É possível concluir portanto, que as classes devem portar a mesma possibilidade de voz no governo representativo, não havendo maneira de subjugarem-se umas às outras. De forma a garantir que o governo seja em vias de regra igualitário e uma gestão própria de todo o demos, onde maiorias e minorias podem fazer valer suas opiniões e ocupar as funções de seu interesse no domínio público. Ou nas palavras do próprio autor:

É evidente que a neutralização total da minoria não é consequência natural nem necessária da liberdade; esta neutralização está diametricamente oposta ao primeiro princípio a democracia, ou seja, a representação proporcional aos números. O fato de que as minorias devam ser adequadamente representadas é parte essencial da democracia. Sem isto, não será possível uma verdadeira democracia – haverá apenas uma falsa aparência de democracia. (MILL, John Stuart. Considerações Sobre o Governo Representativo. Pp. 74)

Em síntese, Mill propõe que o governo ideal, ou autogoverno dado por representação deve possuir espaço para a participação por sufrágio e para opinião de todos os concidadãos que independentemente do fato de pertencerem a classes sociais distintas, serão capazes de como trabalhadores ou patrões, diluir suas tensões causadas por interesses particulares através do aprimoramento trazido pela união na busca de justiça e verdade social. Ou seja: serão plurais enquanto indivíduos, mas representados enquanto gestores e intelectuais do corpo político e do próprio Estado em questão.

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1998

Talvez dizer que gostaria de esquecer o passado fosse um exagero, mesmo naquele momento tão incerto em uma vida que o tempo todo tinha sido escrita sobre pautas. Era uma projeção daquilo que estava a um passo atrás, não havia maneira de negar-se. Não queria esquecer. Só queria não ter que se lembrar.

Estava esperando pelo momento de fazer o que era necessário, embora soubesse que esse momento não chegaria como versam as providências divinas. Oh, céus, mais esse fardo: saber que não há um deus nos vigiando torna tudo ao mesmo tempo mais permissivo e mais impreciso. É a dor de ver-se como parte de um plano cartesiano entre felicidade e vazio.

Só queria balbuciar algumas palavras, que embora poucas, seriam capazes de desfazer a nódoa de sua garganta, de desmistificar o engodo que pairava sob sua cabeça e de lhe retirar o fardo dos ombros. Como se em um simples ato cotidiano e cercado de simplicidades banais, pudesse resolver todos os problemas que os séculos de humanidade sequer chegaram perto de solucionar.

Era apenas um homem, um acumulado de experiências. Mil obras não diriam nada, todos os amigos nada seriam capazes de representar. Era apenas um homem rodeado de sua consciência – hora ingrata, hora conformista. Nada lhe sugeria signos de virtude ou progresso, mas apenas de acúmulo inútil de conhecimentos perpassados. Concluiu: tudo é um legado de possibilidades e nada é mais silencioso, mortal e sublime que o afago tranquilo de pensar por si próprio.

Não esqueceu. Não fez. Não disse. Perpassou. Retribuiu. Finalizou. Deixou-se. E foi…

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