Reticências

Diante de todas as coisas desconcertantes da vida sempre apresentei prontamente uma resposta. O silêncio falou por mim tão naturalmente que era como se eu não existisse. Eu não refutei, eu não me movi, eu não fiquei estarrecida. 

Nessa nova vida que começou sob premissas desconhecidas, e há de acabar de forma idem, eu tenho sentido uma necessidade ímpar de falar. Como se um impulso que outrora simplesmente não existia, estivesse surgindo de uma névoa de sentimentos apinhados e precisasse sair gritando: “eu estou aqui!”. 

Todo o fluxo de passados não apagados, de lágrimas não choradas, de palavras não ditas continua dentro de mim, corroendo de forma lenta e gradual as coisas bonitas que antes me significavam. E ao mundo exterior, continua sendo como se eu não existisse. Continua sendo como se eu fosse uma dessas pessoas nascidas para a dedicação e o sofrimento, para o amor ao próximo e o altruísmo. Quando o que eu sinto dentro em mim é apenas o pulsar do pensamento latente e pusilânime, de que na verdade dessa vez eu estou preocupada com a única coisa que sempre me pertenceu e me contemplou: eu mesma. 

Mas não importa, não adianta, não é funcional. Ouvir aos meus pleitos desesperados por migalhas de consideração não é interessante. E mesmo que eu repita um milhão de vezes que algo me machuca, que algo está doendo, que eu estou dilacerando de dentro pra fora, que o meu coração vai pular pela boca, parar na palma da minha mão e encher a calçada de sangue – ninguém me escuta. Continuam falando dos seus amores inexistentes enquanto seus egos enormes são perfeitamente visíveis a qualquer indivíduo que os olhe nos olhos. Continuam ecoando as suas ordens, os seus pedidos, as suas demandas. 

Ainda que eu queira provar para todo o mundo que eu sou um ser humano, já não é possível. Falta tempo hábil. Eu já fui muito polida, eu já forcei a educação, eu já forjei bom humor e tentei ser engraçada pelo medo de que em uma tentativa mais real e tangível de ser eu mesma, falhasse miseravelmente com o que eu desejava que fosse meu reflexo. Busquei nos mínimos detalhes parecer interessante, refinada, peculiar, enquanto eu só queria vestir minhas calças do pijama e beber um leite com chá-mate.

Todos estão surpresos, estão chocados. Agem como se estivessem sob a mira de um rifle porque de uma hora pra outra perderam seu muro das lamentações e ganharam uma chata, que lhes diz o que mais odeiam ouvir. Devem estar se perguntando, longe da minha vigília, onde se esconde sua sempre prestimosa amiga que em tempos não tão longínquos lhes diria que são incríveis e que o resto do mundo está errado.

Eu estou bem aqui, afirmando que não quero ouvi-los! Eu estou falando que eles me incomodam! Eu estou falando que são mentirosos, que são insensíveis, que me desrespeitam! Mas já entendi: É que uma moça como eu, que sempre engole o choro e fica com um sorriso pálido no rosto, não pode resolver deixar de ser uma máquina de fazer pessoas se sentirem melhores para de repente, querer ela própria se sentir bem. Não pode deixar de ouvir sobre a semana que vai mal, sobre o trabalho que não conseguiram terminar, sobre a garota estúpida que amam. Não pode refutar as qualidades incríveis e inigualáveis que possuem, não pode questionar a veracidade das coisas que sentem, não pode duvidar do caráter retilíneo que carregam, não pode discordar das posições políticas que são esfregadas em sua cara e despejadas ao vento como lixo. E essencialmente, não pode deixar de rir das piadas que consideram conceituais e inteligentíssimas.

É um teorema: ou eu me mantenho em silêncio pelo resto da vida escutando todas as imbecilidades da existência efêmera destes que se dizem meus aliados, ou resolvo por hora que também quero falar de mim. E que posição desconfortável! Se eu ficar com a primeira opção, fico calada para poder manter tudo neste padrão que se segue, quase arrastado desde sempre. Mas se eu ficar com a segunda, acabo calada porque estarei sozinha. Porque não haverá quem me ouça. Quem vai ouvir a única pessoa em quem se é possível debruçar e debulhar todos os problemas da vida? Certamente eu não conheço ninguém.

Resolvi, por bem, investir algumas tentativas. Mas desisti. Inevitavelmente, me dirão que a conversa se encerra por qualquer motivo idiota, e boa noite. 
Eu só conheço gente sem coração que se finge de depressiva pra masturbar o intelecto. É o mesmo tipo de gente que se sente ignorada porque eu passo sem óculos e com os meus cinco graus de miopia e não os vejo, mas não acha que eu me sinto ignorada quando eu grito que sinto dor, e não me pedem desculpas.

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