Cuidado, mascu à vista: é proibido chupar sorvete. Para mulheres.

A história que vai ser contada se passou hoje, com 32º em São Paulo, tempo horrivelmente seco e uma distância de cerca de 10′ que separam a estação Barra Funda do meu trabalho na Fundação Procon/SP. Até lá, eu deveria percorrer os metros correspondentes ao Memorial da América Latina – aquele lugar enorme de puro concreto que inviabiliza qualquer sombra. Foi então que eu tive uma ideia genial: comprar um sorvete.

Parei em um boteco e pedi um daqueles sorvetes de morango, que vem com os pedaços da fruta picada. Saí caminhando, seguindo de abraço com a minha rotina e pensando na prova que mais tarde, eu entregaria ao meu orientador. Minha preocupação não era o sorvete. Minha preocupação não era a caminhada. Minha preocupação, naquele momento, não era o feminismo. Éramos só eu e o medo de ter escrito alguma boçalidade enorme na prova que deveria entregar pro cara que pode me separar da minha belíssima bolsa Fapesp.

Comecei a perceber um volume anormal de buzinas pra’quele horário. E a maioria dos homens por quem eu passava, me seguia com os olhos e com aquela feição que te faz se sentir um pedaço de carne pendurada no açougue. Eu parei de pensar na minha prova e olhei pra mim mesma, quase que instintivamente, checando a minha roupa, que estava perfeitamente limpa, seca e no lugar. Até que passei por um cidadão que me disse, como que se dirigindo à uma escrava ou a um objeto: “Me chupa como você está fazendo com esse sorvetinho, sua gostosa”.

Então eu comecei a andar mais rápido. Eu sentia tanto medo, eu sentia tanto nojo, eu sentia tanta vergonha, que eu não podia explicar. Ele continuou me seguindo, e de dentro do carro, continuava falando “Volta aqui, gracinha! Por que você tá fugindo de mim, ahn?” E ele ria de uma forma tão psicopata, que eu só sentia que ele podia se apropriar das minhas sensações e rir sadicamente de como ele era capaz de me acuar feito um bicho.

Coloquei os óculos escuros. Eu estava escondendo até os meus olhos pra poder fugir de um cara que achava que eu era uma coisa – e pior – uma coisa dele, sendo que sequer eu tinha o visto algum dia nessa minha vida. E ele continuou me seguindo: “Botando ou não esses óculos, você continua chupando. Como uma puta.” Pronto. Aí ele se fez entender, e aí eu respondi. Não porque ele chamou de puta. Mas porque foi aí que eu saquei que ele era só mais um machista da pior espécie, mais um fruto do patriarcado, que achava que por eu ser mulher, ele podia me ordenar qualquer coisa. E que se eu não fizesse, me chamar de puta me desqualificaria enquanto ser humano. Com esse tipo de gente eu posso lidar, afinal infelizmente minha cidade está impregnada deles. Gritei o mais alto que os meus pulmões puderam: “VADIA OU NÃO, EU SOU LIVRE.NÃO CHUPO VOCÊ PORQUE EU NÃO QUERO, PORQUE VOCÊ NÃO ME EXCITA, SEU BABACA. MEU CORPO É MEU, NÃO SOU PROPRIEDADE SUA, MAS SÓ MINHA!” O cara foi embora fugindo de mim, acelerando o carro o máximo que podia.

Ao contar isso pra um amigo meu, ouvi a resposta que me chocou mais ainda: “Relaxa, Vivi. Os homens tem tara por mulheres comendo coisas em formato fálico.” MAS O QUE? Tá. Então se hoje eu resolvo que uma maçã cortada ao meio, ou uma esfirra fechada parecem uma buceta, e entendo que homens comendo essas coisas me enchem de tesão, eu posso ver um cara na rua mordendo uma maçã e gritar pra ele “hey, gostoso, vem cá e me chupa igual você tá fazendo com essa maçãzinha”?!?!? Isso é objetificar pessoas. E por que isso só acontece ~curiosamente~ com mulheres? A resposta é tão óbvia, é tão clara que nem vale a pena comentar, né sociedade patriarcal?

Quanto a mim, estou feliz por ter amendrotado esse otário. Por ter feito ele se sentir como eu me senti, e como muitas mulheres se sentem todos os dias por culpa de machistas como ele. Mas eu queria não ter de fazer isso constantemente, não ter que relatar mais casos de violência contra mulheres. Estou chocada, porque a lista vem aumentando. Antes a gente não podia usar mini-saia, depois não podia usar mais calça jeans porque marcava demais o corpo. Aí descobri esses dias, que também não podemos beber ou dormir em festas, porque fora de nossa consciência o estupro passa a ser culpa nossa. E hoje, nesse lindo dia de céu aberto, descubro que temos uma nova convenção: é proibido chupar sorvete. Logo algum mascu propõe essa lei ao Kassab e ele a outorga, pra finalizar o mandato. Parabéns, sociedade… estamos indo bem… mal.

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One thought on “Cuidado, mascu à vista: é proibido chupar sorvete. Para mulheres.

  1. João Batista diz:

    Deixa eu te dizer que hoje em dia, em alguns lugares, meninas também fazem comentários do tipo, o que me deixa envergonhado, tanto quanto você deve ter se sentido .-.
    Tenho 15 anos e acabei encontrando essa sua publicação na internet e decidi mandar esse comentário.

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