Hessen, Durkheim e Morin e a Epistemologia das Ciências Sociais

1) Segundo Hessen, quais as duas vertentes da Filosofia e quais são as áreas / disciplinas relacionadas a cada uma? Qual é a importância de cada vertente para as Ciências Sociais?

Hessen define em seu texto a Filosofia como sendo a tentativa de compreensão da totalidade do mundo. Ou seja, aos filósofos é legada a tarefa de, partindo do amor ao saber, conhecer e buscar compreender todas as coisas que envolvem a existência em seu todo, sem recortes e com a supressão da busca pelas especialidades. Contudo, para Johannes Hessen, há uma clara dicotomia dividindo a filosofia entre dois polos de pensamento – a visão de si, e a visão de mundo.

Na visão de si, temos uma tomada das questões de cunho valorativo e das reflexões de espírito, enquanto na visão de mundo, vemos presente a pretensão de compreender a realidade coletiva. Podemos elucidar o conceito supracitado, observando as áreas atribuídas a cada seccional filosófica: à visão de si cabem os temas ligados a teoria do valor: a ética, arte e estética, tornando-a intimamente ligada aos temas que dizem respeito a questões valorativas como os conceitos de verdade e beleza. Já à visão de mundo, abarca as disciplinas correlacionadas com a teoria da ciência, a lógica e a teoria do conhecimento.

Entretanto, observando a premissa de que a Filosofia busca compreender o todo, conclui-se que as suas duas vertentes se entrelaçam, de modo que a visão de si parta para a visão de mundo, fazendo o coletivo compreender-se. Ou seja: olhar para si mesmo e para seus próprios valores designa nada mais do que a tentativa de entender a realidade na qual estamos imersos de forma associada. Ou nas palavras do autor:

A auto-reflexão do espírito é meio para se atingir uma imagem de mundo. Em conclusão, portanto, podemos dizer que a filosofia é a tentativa do espírito humano de atingir uma visão de mundo, mediante a auto-reflexão sobre suas funções valorativas teóricas e práticas (HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Pp 09)

Especificamente tratando das Ciências Sociais, devemos nos lembrar do embate clássico entre os estudos dirigidos às Ciências Humanas e as Ciências Naturais. Enquanto as segundas tem seu objeto de estudo distanciado do sujeito estudioso, as primeiras tem como objeto os próprios sujeitos, estando o cientista, imerso nas realidades e valores que busca estudar. Ou seja, pertence também a nós a tentativa de observar a realidade única enquanto seres para tentar compreender a coletividade do que temos por objeto de estudo: a sociedade.

Conclui-se, portanto, que seguindo a linha de pensamento de J. Hessen, na qual a Filosofia tenta compreender a totalidade a partir de suas partes, as Ciências Sociais tentam compreender seu objeto de estudo a partir da vivência do próprio sujeito, levando a visão de si para a visão de mundo ou os valores subjetivos para os valores objetivos, para a teoria do conhecimento.

 

2) Descreva brevemente os principais argumentos sobre a ciência presentes nos textos de E. Durkheim e E. Morin. Quais pontos de aproximação e divergência você vê entre eles?

Embora Durkheim e Morin estejam em acordo sobre a importância do todo para a ciência diferem nas formas de pensamento sobre qual método pode ser aplicado para a valorização deste todo.  Ambos os autores afirmam em seus excertos que o todo difere do agrupamento de partes. Ou seja, o coletivo é como um organismo vivo, e não apenas um amontoado de indivíduos e suas vontades.

Para Durkheim, a Sociologia é uma ciência com um objeto intrinsecamente específico e autônomo: a sociedade. O estudo deste objeto, por tanto, deve dar-se a partir do olhar sobre os fatos sociais, que representam na obra durkheimiana a barreira epistemológica entre a Sociologia e as demais ciências. Isto lega às outras ciências, como a psicologia, a responsabilidade pela análise dos fatos que provêm individualmente alheios ao andamento do coletivo, separando de forma clara e concisa o que representa um objeto de estudo do sociólogo e o que é pertencente aos outros campos do conhecimento. O que cabe ao sociólogo, deve ser coisificado para ser estudado e compreendido.

Que a matéria da vida social não possa se explicar por fatores puramente psicológicos, ou seja, por estados da consciência individual, é o que nos parece de todo evidente. Com efeito, o que as representações coletivas traduzem é o modo como o grupo se pensa em suas relações com os objetos que o afetam. Ora, o grupo não é constituído da mesma maneira que o indivíduo, e as coisas que o afetam são de outra natureza. (DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 3ª edição, São Paulo: Martins Editora, 2007.)

Já em Morin, é possível perceber claramente uma valorização da interdisciplinaridade. O autor propõe que a ciência deve ser dotada de um pensamento complexo – ou seja – os fatos devem ser compreendidos imersos em um contexto e não separados por um distanciamento do sujeito e do objeto, como o proposto em Durkheim. O autor demonstra, portanto, a impossibilidade de neutralidade nas Ciências Sociais, já que diferentes culturas interagem de diferentes formas. Destaco o trecho:

O conhecimento deve certamente utilizar a abstração, mas procurando construir-se em referência a um contexto. A compreensão de dados particulares exige a ativação da inteligência geral e a mobilização dos conhecimentos de conjunto. (MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, F. M.; SILVA, J. M (Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. 3. ed. Porto Alegre: Sulinas/Edipucrs, 2003. Pp. 12)

 Os valores não hão de ser variáveis ou os objetos neutros, dado o já pressuposto por quem pretende estuda-los. Afinal, se uma problemática é levantada por um cientista, em qualquer campo do conhecimento, é por consideração valorativa do que já se entende por problema.

Conclui-se, portanto que embora haja convergência entre as ideias de Durkheim e Morin, ao que tange o funcionamento da totalidade coletiva como vívida e dotada de independência. Todavia, a importância do contexto, exposta por Morin, refuta o que Durkheim acredita ser a condição sine qua non para se afixar a Sociologia como ciência: a neutralidade do cientista em relação aos fatos que serão estudados, apontando nesta direção o maior ponto de divergência entre os dois autores.

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