Monthly Archives: Outubro 2012

Entre Extremos

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Perus, São Paulo/SP

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Centro Acadêmico UNIFESP-EFLCH – Pimentas, Guarulhos/SP

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Piqueri, São Paulo/SP

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“Prédio Novo” – Escola de Filosofia Letras e Ciências Humanas, UNIFESP. Guarulhos/SP

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Memorial da América Latina. Barra Funda, São Paulo/SP

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O que acontece com quem ousa ser livre na Universidade Federal de São Paulo.

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Estrada entre Mogi das Cruzes/Bertioga – SP

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Quando você deixa de existir porque não pesa 50kg

Quando você deixa de existir porque não pesa 50kg

Seguia a minha rotina de analisar as revistas que chegam na biblioteca do meu trabalho. Uma, em especial, me chamou atenção. Entre todas as publicações de Direito, de Política e as específicas de orientações ao consumo, havia uma com um título simples: “Saúde”. Achei interessante. Geralmente essas revistas se chamam Saúde e Beleza, ou Beleza Saudável. Ou qualquer besteirol que diga sutilmente “você só é saudável se estiver no padrão vigente de peso”.

Abri a revista e fui folheando. Algumas coisas sobre leguminosas e suas vantagens pro funcionamento do intestino, algumas coisas sobre as vitaminas que se encontram na casca das frutas, algumas coisas sobre o excesso de sódio que traz malefícios ao funcionamento dos rins. De repente, essa imagem me saltou aos olhos.

Em destaque, a moça magra, seios fartos, cabelos alisados. E os dizeres “Acumule elogios e não gordura”. Acho que voltei no mínimo umas quinhentas vezes para reler a frase. Queria me convencer, inconscientemente que não estava sendo sugestionada por uma publicidade de remédios para emagrecimento, inserida em uma revista sobre saúde, que mulheres gordas não são passíveis de elogios.

Mas sim, está aí, vocês podem ver com seus próprios olhos. Estão disfarçando, sobre o pretexto de que é saudável, um velho conceito, um estigma que não passa de uma construção social torpe: estão te dizendo que se você não é assim, quase uma boneca recém saída da fábrica, você não serve pra nada. Você não agrada a ninguém.

Além da questão do peso, colocada como centralizadora pra sua boa vivência entre os seus pares e com o seu próprio espelho, me chamou a atenção a forma como “elogios” são pontuados. Além de não existirem elogios referentes à beleza de mulheres de outros biotipos, não existem elogios dirigidos à mulheres que não sejam sobre a aparência das mesmas. É como ler “Você está acima do peso que te dizem ser o ideal? Tome remédios querida, ou você não agradará ninguém de nenhuma forma, e visto que seu único papel é agradar os olhos alheios, emagreça agora!”.

Voltando à questão da saúde, deixo a pergunta pra vocês, amigxs: as fixações e traumas causados pela busca desenfreada desse padrão imposto, não são questões de saúde pública? Eu creio que sim.

Encerro dizendo que uma publicação que pretende dissertar sobre hábitos saudáveis, não deveria incluir em seu conteúdo uma besteira estapafúrdia que afirma que todas as mulheres devem ser magérrimas para serem desejadas e queridas. Tampouco, deveria incitar o uso de remédio sem prescrição médica para que essa meta tacanha seja atingida.

Repito o que já disse aqui: o machismo mata. A busca pelo corpo ideal é só mais uma das formas pelas quais esse caráter assassino e brutal se manifesta. Somos mulheres, não pedaços de carne. Somos reais, somos vivas, somos diferentes. E temos o direito de sermos. Em tempo: somos lindas, por mais que para efeitos de mercado não nos digam.

Meus parabéns e um viva para todas as mulheres, sobretudo as reais.

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A Democracia em Robespierre e Tocqueville: um comparativo

Em sua obra Virtude e Terror, Maximillen de Robespierre defende a instauração de uma democracia radical, a qual de acordo com seus preceitos é sinônimo pleno das designações de uma república.

Que tipo de governo pode realizar esses prodígios? Unicamente o governo democrático ou republicano: essas duas palavras são sinônimas, apesar do abuso da linguagem vulgar; porque a aristocracia não é mais república que a monarquia.  (ROBESPIERRE, Maximillien de. Virtude e Terror. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. PP. 180)

Esta democracia representa a retomada da experiência democrata greco-romana – ou seja – pressupõe que o coletivo deve sobrepor-se ao individual e valoriza a extrema participação política, atribuindo caráter de suma importância à esfera pública, nos moldes aristotélicos.

É importante ressaltar ainda, que na visão jacobina, a igualdade é preconizada, bem como o ódio à todas as desigualdades sociais; sobretudo as de nascimento, que caracterizam a aristocracia. A liberdade também é fundamental para a compreensão da perspectiva deste autor: para essa escola revolucionária apresenta-se obviamente, como uma liberdade republicana. Significa viver de forma autônoma, sem tirania ou dominação. Para Robespierre e seus seguidores, só há maneira de ser livre participando de uma organização política que se auto-governe.

Portanto, para a manutenção deste modelo de governo, o autor sugere aos cidadãos franceses da época independência política que estabeleça a lei como meio de garantia às condições supracitadas: liberdade e igualdade. Destaco o excerto:

A virtude pública que permitiu tantos prodígios na Grécia e em Roma, e que deve produzi-los bem mais assombrosamente na França republicana: essa virtude que não é outra coisa além do amor pela pátria e por suas leis. (ROBESPIERRE, Maximillien de. Virtude e Terror. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. PP. 181)

Embora a necessidade de leis possa parecer a grosso modo restringir a liberdade, em Robespierre esta condição é resignificada, pois seguindo sua linha de pensamento, a lei é feita por todos os concidadãos e se torna a maior garantia do coletivo sobre os usurpadores da liberdade nessa democracia.

Já em A Democracia na América de Alexis de Tocqueville, a problemática central é tomada a partir da visão de um conservador aristocrata que encara o avanço da democracia como algo divinamente providencial e sujeito a críticas pontuais que demandem mudanças nos moldes até então encaminhados na França. Nas palavras do autor:

Querer deter a democracia seria como que lutar contra o próprio Deus, e só restaria às nações acomodar-se ao estado social que lhes impõe a Providência. (TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010. Pp. 296)

De forma contundente, Tocqueville defende em sua obra que a democracia, enquanto forma de poder popular, legitima uma ameaça à liberdade humana, pois além de não apresentar nenhuma especificidade que possa engrandecer esta liberdade, apresenta sobretudo perigos únicos. Estes últimos, ligados a ausência de órgãos ou instâncias que delimitem a atuação do poder sobre a sociedade. Para o autor, a força e a legitimidade do poder popular tendem a suprimir este possível e necessário controle.

É suposto então, que a igualdade democrática demonstra-se como supressora da liberdade dos indivíduos, que se veem presos ao poder abstrato e intangível do social, perdendo-se na coerção exercida pelo mesmo.

Aquela mesma igualdade que o torna independente de cada um dos seus cidadãos em particular, entrega-o, isolado sem defesa a ação do maior número. Por isso, tem o público, entre os povos democráticos, um poder singular à ação do maior número. (TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010. Pp. 296)

Logo, a termos comparativos, é possível perceber que as ideias de Robespierre e Tocqueville destoam-se essencialmente ao que diz respeito as vicissitudes e benefícios da igualdade e da liberdade para os governos democráticos. A princípio, ambos mostram crer que os caminhos futuros levarão as sociedades à democracia. A adoção dos termos comuns sobre igualdade e liberdade também representam certa conversão.

Porém, a preocupação do primeiro é com a liberdade pública, a qual só é possível em sociedades completamente paritárias, onde o controle do poder governamental parte da própria igualdade e participação política dos cidadãos. Todavia, para o segundo, a liberdade de escolhas individuais se mostra mais presente, pois ao contrário de Robespierre, não existem as condições de patriotismo, amor a república e necessidade de bem-comum.

Pode-se dizer que a liberdade, representa para os dois algo essencial para a democracia mas, enquanto a igualdade legitima o anseio de Robespierre de coletividade de pares que fossem soldados do interesse público, para Tocqueville a igualdade representa um perigo vigente às vontades dos cidadãos e, uma genuína repressão aos que se destoam do coletivo.

Conclui-se portanto que a característica que difere essencialmente a linha teórica dos autores é a ideia distinta que fazem de bons governos democráticos, sendo Robespierre um defensor ferrenho do corpo social unido como forma única de democracia e Tocqueville, um admirador das instâncias associativas, locais e religiosas que podem, em sua opinião, elevá-la a um patamar de governo legitimamente libertário.

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Reticências

Diante de todas as coisas desconcertantes da vida sempre apresentei prontamente uma resposta. O silêncio falou por mim tão naturalmente que era como se eu não existisse. Eu não refutei, eu não me movi, eu não fiquei estarrecida. 

Nessa nova vida que começou sob premissas desconhecidas, e há de acabar de forma idem, eu tenho sentido uma necessidade ímpar de falar. Como se um impulso que outrora simplesmente não existia, estivesse surgindo de uma névoa de sentimentos apinhados e precisasse sair gritando: “eu estou aqui!”. 

Todo o fluxo de passados não apagados, de lágrimas não choradas, de palavras não ditas continua dentro de mim, corroendo de forma lenta e gradual as coisas bonitas que antes me significavam. E ao mundo exterior, continua sendo como se eu não existisse. Continua sendo como se eu fosse uma dessas pessoas nascidas para a dedicação e o sofrimento, para o amor ao próximo e o altruísmo. Quando o que eu sinto dentro em mim é apenas o pulsar do pensamento latente e pusilânime, de que na verdade dessa vez eu estou preocupada com a única coisa que sempre me pertenceu e me contemplou: eu mesma. 

Mas não importa, não adianta, não é funcional. Ouvir aos meus pleitos desesperados por migalhas de consideração não é interessante. E mesmo que eu repita um milhão de vezes que algo me machuca, que algo está doendo, que eu estou dilacerando de dentro pra fora, que o meu coração vai pular pela boca, parar na palma da minha mão e encher a calçada de sangue – ninguém me escuta. Continuam falando dos seus amores inexistentes enquanto seus egos enormes são perfeitamente visíveis a qualquer indivíduo que os olhe nos olhos. Continuam ecoando as suas ordens, os seus pedidos, as suas demandas. 

Ainda que eu queira provar para todo o mundo que eu sou um ser humano, já não é possível. Falta tempo hábil. Eu já fui muito polida, eu já forcei a educação, eu já forjei bom humor e tentei ser engraçada pelo medo de que em uma tentativa mais real e tangível de ser eu mesma, falhasse miseravelmente com o que eu desejava que fosse meu reflexo. Busquei nos mínimos detalhes parecer interessante, refinada, peculiar, enquanto eu só queria vestir minhas calças do pijama e beber um leite com chá-mate.

Todos estão surpresos, estão chocados. Agem como se estivessem sob a mira de um rifle porque de uma hora pra outra perderam seu muro das lamentações e ganharam uma chata, que lhes diz o que mais odeiam ouvir. Devem estar se perguntando, longe da minha vigília, onde se esconde sua sempre prestimosa amiga que em tempos não tão longínquos lhes diria que são incríveis e que o resto do mundo está errado.

Eu estou bem aqui, afirmando que não quero ouvi-los! Eu estou falando que eles me incomodam! Eu estou falando que são mentirosos, que são insensíveis, que me desrespeitam! Mas já entendi: É que uma moça como eu, que sempre engole o choro e fica com um sorriso pálido no rosto, não pode resolver deixar de ser uma máquina de fazer pessoas se sentirem melhores para de repente, querer ela própria se sentir bem. Não pode deixar de ouvir sobre a semana que vai mal, sobre o trabalho que não conseguiram terminar, sobre a garota estúpida que amam. Não pode refutar as qualidades incríveis e inigualáveis que possuem, não pode questionar a veracidade das coisas que sentem, não pode duvidar do caráter retilíneo que carregam, não pode discordar das posições políticas que são esfregadas em sua cara e despejadas ao vento como lixo. E essencialmente, não pode deixar de rir das piadas que consideram conceituais e inteligentíssimas.

É um teorema: ou eu me mantenho em silêncio pelo resto da vida escutando todas as imbecilidades da existência efêmera destes que se dizem meus aliados, ou resolvo por hora que também quero falar de mim. E que posição desconfortável! Se eu ficar com a primeira opção, fico calada para poder manter tudo neste padrão que se segue, quase arrastado desde sempre. Mas se eu ficar com a segunda, acabo calada porque estarei sozinha. Porque não haverá quem me ouça. Quem vai ouvir a única pessoa em quem se é possível debruçar e debulhar todos os problemas da vida? Certamente eu não conheço ninguém.

Resolvi, por bem, investir algumas tentativas. Mas desisti. Inevitavelmente, me dirão que a conversa se encerra por qualquer motivo idiota, e boa noite. 
Eu só conheço gente sem coração que se finge de depressiva pra masturbar o intelecto. É o mesmo tipo de gente que se sente ignorada porque eu passo sem óculos e com os meus cinco graus de miopia e não os vejo, mas não acha que eu me sinto ignorada quando eu grito que sinto dor, e não me pedem desculpas.

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Cuidado, mascu à vista: é proibido chupar sorvete. Para mulheres.

A história que vai ser contada se passou hoje, com 32º em São Paulo, tempo horrivelmente seco e uma distância de cerca de 10′ que separam a estação Barra Funda do meu trabalho na Fundação Procon/SP. Até lá, eu deveria percorrer os metros correspondentes ao Memorial da América Latina – aquele lugar enorme de puro concreto que inviabiliza qualquer sombra. Foi então que eu tive uma ideia genial: comprar um sorvete.

Parei em um boteco e pedi um daqueles sorvetes de morango, que vem com os pedaços da fruta picada. Saí caminhando, seguindo de abraço com a minha rotina e pensando na prova que mais tarde, eu entregaria ao meu orientador. Minha preocupação não era o sorvete. Minha preocupação não era a caminhada. Minha preocupação, naquele momento, não era o feminismo. Éramos só eu e o medo de ter escrito alguma boçalidade enorme na prova que deveria entregar pro cara que pode me separar da minha belíssima bolsa Fapesp.

Comecei a perceber um volume anormal de buzinas pra’quele horário. E a maioria dos homens por quem eu passava, me seguia com os olhos e com aquela feição que te faz se sentir um pedaço de carne pendurada no açougue. Eu parei de pensar na minha prova e olhei pra mim mesma, quase que instintivamente, checando a minha roupa, que estava perfeitamente limpa, seca e no lugar. Até que passei por um cidadão que me disse, como que se dirigindo à uma escrava ou a um objeto: “Me chupa como você está fazendo com esse sorvetinho, sua gostosa”.

Então eu comecei a andar mais rápido. Eu sentia tanto medo, eu sentia tanto nojo, eu sentia tanta vergonha, que eu não podia explicar. Ele continuou me seguindo, e de dentro do carro, continuava falando “Volta aqui, gracinha! Por que você tá fugindo de mim, ahn?” E ele ria de uma forma tão psicopata, que eu só sentia que ele podia se apropriar das minhas sensações e rir sadicamente de como ele era capaz de me acuar feito um bicho.

Coloquei os óculos escuros. Eu estava escondendo até os meus olhos pra poder fugir de um cara que achava que eu era uma coisa – e pior – uma coisa dele, sendo que sequer eu tinha o visto algum dia nessa minha vida. E ele continuou me seguindo: “Botando ou não esses óculos, você continua chupando. Como uma puta.” Pronto. Aí ele se fez entender, e aí eu respondi. Não porque ele chamou de puta. Mas porque foi aí que eu saquei que ele era só mais um machista da pior espécie, mais um fruto do patriarcado, que achava que por eu ser mulher, ele podia me ordenar qualquer coisa. E que se eu não fizesse, me chamar de puta me desqualificaria enquanto ser humano. Com esse tipo de gente eu posso lidar, afinal infelizmente minha cidade está impregnada deles. Gritei o mais alto que os meus pulmões puderam: “VADIA OU NÃO, EU SOU LIVRE.NÃO CHUPO VOCÊ PORQUE EU NÃO QUERO, PORQUE VOCÊ NÃO ME EXCITA, SEU BABACA. MEU CORPO É MEU, NÃO SOU PROPRIEDADE SUA, MAS SÓ MINHA!” O cara foi embora fugindo de mim, acelerando o carro o máximo que podia.

Ao contar isso pra um amigo meu, ouvi a resposta que me chocou mais ainda: “Relaxa, Vivi. Os homens tem tara por mulheres comendo coisas em formato fálico.” MAS O QUE? Tá. Então se hoje eu resolvo que uma maçã cortada ao meio, ou uma esfirra fechada parecem uma buceta, e entendo que homens comendo essas coisas me enchem de tesão, eu posso ver um cara na rua mordendo uma maçã e gritar pra ele “hey, gostoso, vem cá e me chupa igual você tá fazendo com essa maçãzinha”?!?!? Isso é objetificar pessoas. E por que isso só acontece ~curiosamente~ com mulheres? A resposta é tão óbvia, é tão clara que nem vale a pena comentar, né sociedade patriarcal?

Quanto a mim, estou feliz por ter amendrotado esse otário. Por ter feito ele se sentir como eu me senti, e como muitas mulheres se sentem todos os dias por culpa de machistas como ele. Mas eu queria não ter de fazer isso constantemente, não ter que relatar mais casos de violência contra mulheres. Estou chocada, porque a lista vem aumentando. Antes a gente não podia usar mini-saia, depois não podia usar mais calça jeans porque marcava demais o corpo. Aí descobri esses dias, que também não podemos beber ou dormir em festas, porque fora de nossa consciência o estupro passa a ser culpa nossa. E hoje, nesse lindo dia de céu aberto, descubro que temos uma nova convenção: é proibido chupar sorvete. Logo algum mascu propõe essa lei ao Kassab e ele a outorga, pra finalizar o mandato. Parabéns, sociedade… estamos indo bem… mal.

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Hessen, Durkheim e Morin e a Epistemologia das Ciências Sociais

1) Segundo Hessen, quais as duas vertentes da Filosofia e quais são as áreas / disciplinas relacionadas a cada uma? Qual é a importância de cada vertente para as Ciências Sociais?

Hessen define em seu texto a Filosofia como sendo a tentativa de compreensão da totalidade do mundo. Ou seja, aos filósofos é legada a tarefa de, partindo do amor ao saber, conhecer e buscar compreender todas as coisas que envolvem a existência em seu todo, sem recortes e com a supressão da busca pelas especialidades. Contudo, para Johannes Hessen, há uma clara dicotomia dividindo a filosofia entre dois polos de pensamento – a visão de si, e a visão de mundo.

Na visão de si, temos uma tomada das questões de cunho valorativo e das reflexões de espírito, enquanto na visão de mundo, vemos presente a pretensão de compreender a realidade coletiva. Podemos elucidar o conceito supracitado, observando as áreas atribuídas a cada seccional filosófica: à visão de si cabem os temas ligados a teoria do valor: a ética, arte e estética, tornando-a intimamente ligada aos temas que dizem respeito a questões valorativas como os conceitos de verdade e beleza. Já à visão de mundo, abarca as disciplinas correlacionadas com a teoria da ciência, a lógica e a teoria do conhecimento.

Entretanto, observando a premissa de que a Filosofia busca compreender o todo, conclui-se que as suas duas vertentes se entrelaçam, de modo que a visão de si parta para a visão de mundo, fazendo o coletivo compreender-se. Ou seja: olhar para si mesmo e para seus próprios valores designa nada mais do que a tentativa de entender a realidade na qual estamos imersos de forma associada. Ou nas palavras do autor:

A auto-reflexão do espírito é meio para se atingir uma imagem de mundo. Em conclusão, portanto, podemos dizer que a filosofia é a tentativa do espírito humano de atingir uma visão de mundo, mediante a auto-reflexão sobre suas funções valorativas teóricas e práticas (HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Pp 09)

Especificamente tratando das Ciências Sociais, devemos nos lembrar do embate clássico entre os estudos dirigidos às Ciências Humanas e as Ciências Naturais. Enquanto as segundas tem seu objeto de estudo distanciado do sujeito estudioso, as primeiras tem como objeto os próprios sujeitos, estando o cientista, imerso nas realidades e valores que busca estudar. Ou seja, pertence também a nós a tentativa de observar a realidade única enquanto seres para tentar compreender a coletividade do que temos por objeto de estudo: a sociedade.

Conclui-se, portanto, que seguindo a linha de pensamento de J. Hessen, na qual a Filosofia tenta compreender a totalidade a partir de suas partes, as Ciências Sociais tentam compreender seu objeto de estudo a partir da vivência do próprio sujeito, levando a visão de si para a visão de mundo ou os valores subjetivos para os valores objetivos, para a teoria do conhecimento.

 

2) Descreva brevemente os principais argumentos sobre a ciência presentes nos textos de E. Durkheim e E. Morin. Quais pontos de aproximação e divergência você vê entre eles?

Embora Durkheim e Morin estejam em acordo sobre a importância do todo para a ciência diferem nas formas de pensamento sobre qual método pode ser aplicado para a valorização deste todo.  Ambos os autores afirmam em seus excertos que o todo difere do agrupamento de partes. Ou seja, o coletivo é como um organismo vivo, e não apenas um amontoado de indivíduos e suas vontades.

Para Durkheim, a Sociologia é uma ciência com um objeto intrinsecamente específico e autônomo: a sociedade. O estudo deste objeto, por tanto, deve dar-se a partir do olhar sobre os fatos sociais, que representam na obra durkheimiana a barreira epistemológica entre a Sociologia e as demais ciências. Isto lega às outras ciências, como a psicologia, a responsabilidade pela análise dos fatos que provêm individualmente alheios ao andamento do coletivo, separando de forma clara e concisa o que representa um objeto de estudo do sociólogo e o que é pertencente aos outros campos do conhecimento. O que cabe ao sociólogo, deve ser coisificado para ser estudado e compreendido.

Que a matéria da vida social não possa se explicar por fatores puramente psicológicos, ou seja, por estados da consciência individual, é o que nos parece de todo evidente. Com efeito, o que as representações coletivas traduzem é o modo como o grupo se pensa em suas relações com os objetos que o afetam. Ora, o grupo não é constituído da mesma maneira que o indivíduo, e as coisas que o afetam são de outra natureza. (DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 3ª edição, São Paulo: Martins Editora, 2007.)

Já em Morin, é possível perceber claramente uma valorização da interdisciplinaridade. O autor propõe que a ciência deve ser dotada de um pensamento complexo – ou seja – os fatos devem ser compreendidos imersos em um contexto e não separados por um distanciamento do sujeito e do objeto, como o proposto em Durkheim. O autor demonstra, portanto, a impossibilidade de neutralidade nas Ciências Sociais, já que diferentes culturas interagem de diferentes formas. Destaco o trecho:

O conhecimento deve certamente utilizar a abstração, mas procurando construir-se em referência a um contexto. A compreensão de dados particulares exige a ativação da inteligência geral e a mobilização dos conhecimentos de conjunto. (MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, F. M.; SILVA, J. M (Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. 3. ed. Porto Alegre: Sulinas/Edipucrs, 2003. Pp. 12)

 Os valores não hão de ser variáveis ou os objetos neutros, dado o já pressuposto por quem pretende estuda-los. Afinal, se uma problemática é levantada por um cientista, em qualquer campo do conhecimento, é por consideração valorativa do que já se entende por problema.

Conclui-se, portanto que embora haja convergência entre as ideias de Durkheim e Morin, ao que tange o funcionamento da totalidade coletiva como vívida e dotada de independência. Todavia, a importância do contexto, exposta por Morin, refuta o que Durkheim acredita ser a condição sine qua non para se afixar a Sociologia como ciência: a neutralidade do cientista em relação aos fatos que serão estudados, apontando nesta direção o maior ponto de divergência entre os dois autores.

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