O machismo deles é culpa do silêncio coletivo de vocês

Há algum tempo atrás, eu tive um namorado. Este, me punia com socos, puxões de braço e apertões. Dizia me punir quando eu bebia, quando eu gritava com ele ou quando eu chorava soluçando. Ele dizia que era irritante, que agredia os ouvidos dele, que o fazia passar vergonha na frente dos amigos. Eu me portava como uma vadia. Porque eu bebia, porque eu falava alto, porque eu chorava – chorava quando ele me batia. 
Os amigos desse cidadão assistiam a tudo. Parados, muitas vezes forjavam estar perplexos. Mas nunca faziam nada. Eu não os culpava, e por muitas vezes, não culpava o rapaz que diretamente me agredia. Eu pensava que talvez tivesse me portado como uma vadia, que talvez tivesse gritado irritantemente, que talvez meu choro fosse digno de punição. Eu pensava que deveria crescer, amadurecer, parar de fazer as coisas que eu fazia, por mais que fossem atributos da minha personalidade ou me dessem qualquer tipo de prazer.
Por muito tempo eu me proibi de questioná-lo. Por muito tempo, ele me deixou cicatrizes. Nas pernas, nas mãos, no nariz. O meu rosto é marcado por um homem que se sentia no direito de me punir porque eu não me comportava da forma como ele acreditava que uma mulher deveria se comportar. Mas depois de todo o tempo que passou, depois de compreender que eu não era uma vadia, nem deveria ser uma santa – que eu não deveria me privar de nada, e que eu posso me comportar como eu quiser e desejo que todos possam, eu entendi que ele não fizera isso sozinho. Ele fez isso com a ajuda de muitas mãos. Das mãos daqueles que assistiram a isso e não o condenaram. Desses que creram que apenas porque não estavam dentro dessa relação, não sabiam o que se passava nela. Culpa. Sim, culpa. Culpa dos que diziam que era uma questão íntima, dos que tiveram medo de vincular seus nomes a situação. Todos eles são machistas. Todos eles me bateram, me marcaram.
Agora, anos mais tarde, eu tenho outro namorado. Este é universitário, como eu. Por todo o tempo do nosso namoro, frequentamos festas e círculos universitários. Essas pessoas, nossos colegas, pareciam a olhos nus mais esclarecidos, orientados, conhecedores da vida, questionadores do status quo. Pois bem: talvez não o sejam. 
Ontem, estávamos em um desses milhares de inter-alguma-coisa que são promovidos nas universidades públicas. Presentes neste espaço feito para se jogar futebol, beber cerveja e falar besteira. Meu namorado aguardava por mais um dos jogos marcados para o time que defende, o time dos meninos de sua sala – ou seja, o time dos universitários, como nós. Foi ao fim deste jogo, após a derrota que os eliminou do campeonato, que uma das colegas de sala dele foi agredida. Há quem diga que ela gritou o nome do time na torcida adversária. Há quem diga que ela apenas estava comemorando um dia feliz. Não me importa. O que aconteceu não é de minha alçada. O que importa é que um dos presentes no recinto, homem, branco, heterossexual e universitário se dirigiu até ela e a derrubou no chão com a clara intenção de machucá-la.
O evento era sediado na Atlética da Universidade Federal de São Paulo e organizado pela Atlética da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ou seja – estávamos em um espaço público de um evento acadêmico público. E neste espaço, mesmo após o chamado para a polícia, nada foi feito para se fazer valer o que está escrito nas letras da lei. Nada.
No dia, insatisfeita, eu gritava ao meu namorado que deveríamos ficar pra ver, que deveríamos assistir o desfecho. Ele estava cansado, mas me garantiu “depois eu e os meninos resolveremos”. Resolveriam, se isso dependesse do meu namorado, feminista, consciente, com sede de igualdade. Foi então que eu descobri que isso não dependia…
Esperei pela nota em repúdio da ação com o nome do time. Esperei pela nota, com o fim assinalado “Unidos do Marlboro”. A nota não veio. Eu questionei ao Diego onde ela estava e ele resolveu abrir o facebook. Lá, li a discussão dos outros jogadores. Eles defendiam que o nome do agressor não fosse citado. O nome da vítima? Ninguém se importou com a exposição ou não. Creio que não tenham dito a ela nem que isso fora um despautério. Em meio a discussão, alguém diz: “não quero o meu nome vinculado a isso”. 
Pronto: eles também são homens que me bateram. Eles também marcaram o meu rosto. Eles me bateram junto com o meu ex, junto com os amigos do meu ex. Bateram em mim e em todas as mulheres já agredidas. Estupraram todas as mulheres violentadas. Colocaram fêmeas em cadeiras de rodas, as queimaram vivas, as enterraram enquanto ainda respiravam. E fazem isso todos os dias. Por que? Porque são mulheres, porque é problema delas, porque não querem seus nomes europeus – herdados de seus pais – vinculados a sujeira e ao sangue dessas mulheres. Devem preservá-los, mesmo que isso signifique preservar um status quo que diz que mulheres podem apanhar porque gritam, porque choram, porque são mulheres. O não questionar, o não vincular-se, o silêncio são pactos com tudo isso. Já dizia minha mãe: quem cala consente.
Ainda aguardo a nota da ECAtlética, da Associação Atlética Acadêmica da Unifesp e, é claro, do Unidos do Marlboro. A Marta não deveria ter apanhado, não porque ela é a Marta, ou porque ela é mulher – mas porque ela é um ser humano, mesmo que vocês não vejam isso dado a venda existente em seus olhos chamada patriarcado. Ou seja: calar-se não é livrar-se do problema: é apenas se esconder da realidade que grita aos seus ouvidos muito mais do que qualquer mulher. 

 

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One thought on “O machismo deles é culpa do silêncio coletivo de vocês

  1. […] dia, casualmente, fui há uma festa universitária. Lá, vi uma mulher apanhar. O agressor se “justificou”: ela gritava! Mesma justificativa que usaram pra me bater, […]

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