That joke isn’t funny anymore

Queria pegar um punhado dos meus comprimidos de epilepsia e engolir. Lentamente, um a um. Estar aqui, às vezes é só um fardo. É como se toda manhã fosse uma nova chance de perder um pouco mais a fé nas coisas que um dia cheguei a acreditar, e nas pessoas no geral. Nada em específico: nunca é nada em específico.
Naquele dois mil e nove, eu podia ter morrido. Mas apenas descobri que a doença que eu vou carregar comigo pelo resto da vida, condiz comigo e com a minha personalidade: ameaça, mas não machuca efetivamente. São só alguns dias passados, sem memória. São dias de felicidade, e eu sempre saio do hospital achando que sou uma pessoa boa e cercada de amigos, até viver uma semana na minha pele novamente e voltar a me lembrar de tudo.
Quando a memória vai voltando, ela vem aos poucos. Até que eu fecho os olhos, pesadamente e pá! Lembro de tudo. Tudo sempre começa a vir pelas brigas e pelos momentos ruins compartilhados com pessoas que eu gosto. Uma lindeza.
Ficou a chance dos comprimidos! Nunca mais eu teria de me lembrar que poderia ter sido uma grande bailarina, se não tivesse fodido os meus joelhos antes de completar o curso. Nunca mais vou ter de me lembrar das pessoas do ensino médio apontando o dedo pra mim e me seguindo a cada passo. Nunca mais vou ter de me lembrar da greve e das convicções que foram caindo, uma a uma. Nunca mais vou ter que ir até aquela Universidade, lembrar o quanto eu sonho baixo e fico feliz com pouco. Também não vou ter que me entristecer na minha mesa de trabalho, refletindo sobre a imbecilidade humana e sobre o egoísmo que nos circunda.
Toda essa minha avidez por liberdade, toda essa mania de querer fazer justiça, toda minha petulância de achar que estou correta, que conheço as pessoas… tudo isso vai embora de uma única vez. Não seria um alívio?
Pena que o fato de eu já ter mais de quinze anos, me tira toda a graça de ficar pensando como seria me jogar do viaduto do chá. É mais um medo de tentar morrer e amanhã, ainda estar abrindo os olhos. Então eu vou ficar, como sempre, assistindo os vídeos da época que eu dançava. Me lembrarei das pessoas do ensino médio e de todos os julgamentos que elas fizeram sobre as minhas atitudes – dignas ou não de aprovação social. Vou olhar fundo nos olhos dos amiguinhos grevistas e eles estarão lá, com aquela cara de que sabem de tudo e querem me contar que eu sou burra. Burra e pelega, alienada dessa verdade marxista surreal. Amanhã, ou talvez no máximo segunda, vou ter que pisar nos paralelepípedos pichados de “fora PM, fora Marcos Cézar, fora burguesia”. Lá, vou ficar na eterna reflexão sobre o que eu estava pretendendo na hora que decidi fazer Ciências Sociais. Não vou concluir nada, como de costume. Ainda tenho umas cinco horas antes de eu me levantar pra comparecer a minha mesa de trabalho a fim de ficar assistindo os meus pobres colegas chorando em silêncio sobre as suas vidas que não deram certo. Me aconselhando por crer veementemente que é possível que a minha existência um dia seja promissora e repleta de felicidade.
Talvez seja realmente tudo como me disseram há uns anos atrás… o que me disseram mesmo? Puta merda, sou epilética, não me lembro.

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