sobre os amores contemporâneos

O sangue escuro e denso se espalhava da rua até o final do cruzamento. Ela, com um sorvete em mãos, fitava-o, com aqueles olhos grandes como jabuticabas e brilhantes como um zênite. Procurando nas memórias do mais remoto passado, constatava a certeza de nunca ter visto tão desprezível homem. Contudo, pouco lhe importava a cena e nem sequer chegou a ver seu rosto coberto pela mistura do vidro estilhaçado e da massa disforme que até poucos minutos atrás era um não muito pensante cérebro.
Ele até o último segundo de sua vida havia esperado por esse dia. Fora mais alguém perdido na imensidão de concreto e mármore daquela cidade. Dada sua condição, sua falta de modos e suas poucas falas, poderia ter sido um rato – mas a vida lhe legou o fardo de ser humano e miserável, com sua pobreza refletida não apenas nas minúcias factuais de não possuir um teto ou não ter nada além de trapos para cobrir o corpo bem como em seu espírito cheio de fantasias que o faziam amargurar por dentro a cada aparição do luar.
Passou cada dia da existência sendo ignorado e ainda assim, sustentando seu desejo: tornar-se o amor da bonita moça da loja de perfumes da Avenida Central. Gastava seu tempo a medir cada detalhe daquele rosto, que embora imperfeito lhe remetia ao melhor pedaço do paraíso. Desprendia cada noite tentando traçar um plano incrível para lhe perguntar apenas o nome. Acreditava que o nome contemplaria o que ela tinha de mais belo: os olhos, negros, grandes – a porta de entrada daquela alma feminina e indubitavelmente generosa. Levou a vida toda consigo a certeza de que sua miséria e solidão só seriam sanadas se o nome dela fizesse jus ao belo par de íris com o qual ela fora contemplada pelo destino. Ah, o destino!
Pois que os dias, meses e anos puseram-se a gastar, corriam. Já conhecia toda a indumentária utilizada por ela e conseguira se apegar até mesmo ao velho relógio para o qual todos os dias ela insistentemente olhava, ansiosa pelo fim de seu expediente. Até que um dia, um ancião sentou a seu lado e lhe ofereceu um punhado de moedas: “Jogue-as ao vento e espere que o vento responda seu pedido”, disse.
Foi então que pensando pequeno como o habitual, ele apostou todas as moedas do velho na loteria federal. Na mosca: o bilhete foi premiado. Pensou então como era sábio, como procurando pouco, achou quarenta e cinco milhões de reais. Todavia, esqueceu-se de algo crucial: quem busca pouco, pouco encontra e quem vem do pó, ao pó retornará, como anunciam as profecias. E mesmo com todo o dinheiro do mundo, o lugar de quem rasteja é insistentemente o chão. Logo, podendo ele ganhar o mundo, tomou como sua prioridade imbecil, saber o nome da garota que tanto desejava.
Arrumou-se. Comprou a ela um novo relógio, novos sapatos, um vestido, flores. E sorridente, esqueceu por aquele único dia que na velha cidade, tudo em volta está sempre pronto para nos engolir.
Então, atravessando a rua que idiotamente tão bem conhecia, cometeu seu velho erro: olhou demais pra ela e esqueceu-se de tudo em volta. O ônibus pronto a parar no cruzamento, como todos os dias, passou por cima dele quase sem que o motorista percebesse.
Dispensada de seu dia de trabalho, ela comprou um sorvete e parada no asfalto quente, lançou o único olhar de sua vida na direção dele. Um olhar rápido e singelo. E saiu, caminhando calmamente até o fim do cruzamento, na linha reta em que seguia o sangue escuro e denso.
Seu nome? Cecília… do etrusco: cega.

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