Monthly Archives: Setembro 2012

O machismo deles é culpa do silêncio coletivo de vocês

Há algum tempo atrás, eu tive um namorado. Este, me punia com socos, puxões de braço e apertões. Dizia me punir quando eu bebia, quando eu gritava com ele ou quando eu chorava soluçando. Ele dizia que era irritante, que agredia os ouvidos dele, que o fazia passar vergonha na frente dos amigos. Eu me portava como uma vadia. Porque eu bebia, porque eu falava alto, porque eu chorava – chorava quando ele me batia. 
Os amigos desse cidadão assistiam a tudo. Parados, muitas vezes forjavam estar perplexos. Mas nunca faziam nada. Eu não os culpava, e por muitas vezes, não culpava o rapaz que diretamente me agredia. Eu pensava que talvez tivesse me portado como uma vadia, que talvez tivesse gritado irritantemente, que talvez meu choro fosse digno de punição. Eu pensava que deveria crescer, amadurecer, parar de fazer as coisas que eu fazia, por mais que fossem atributos da minha personalidade ou me dessem qualquer tipo de prazer.
Por muito tempo eu me proibi de questioná-lo. Por muito tempo, ele me deixou cicatrizes. Nas pernas, nas mãos, no nariz. O meu rosto é marcado por um homem que se sentia no direito de me punir porque eu não me comportava da forma como ele acreditava que uma mulher deveria se comportar. Mas depois de todo o tempo que passou, depois de compreender que eu não era uma vadia, nem deveria ser uma santa – que eu não deveria me privar de nada, e que eu posso me comportar como eu quiser e desejo que todos possam, eu entendi que ele não fizera isso sozinho. Ele fez isso com a ajuda de muitas mãos. Das mãos daqueles que assistiram a isso e não o condenaram. Desses que creram que apenas porque não estavam dentro dessa relação, não sabiam o que se passava nela. Culpa. Sim, culpa. Culpa dos que diziam que era uma questão íntima, dos que tiveram medo de vincular seus nomes a situação. Todos eles são machistas. Todos eles me bateram, me marcaram.
Agora, anos mais tarde, eu tenho outro namorado. Este é universitário, como eu. Por todo o tempo do nosso namoro, frequentamos festas e círculos universitários. Essas pessoas, nossos colegas, pareciam a olhos nus mais esclarecidos, orientados, conhecedores da vida, questionadores do status quo. Pois bem: talvez não o sejam. 
Ontem, estávamos em um desses milhares de inter-alguma-coisa que são promovidos nas universidades públicas. Presentes neste espaço feito para se jogar futebol, beber cerveja e falar besteira. Meu namorado aguardava por mais um dos jogos marcados para o time que defende, o time dos meninos de sua sala – ou seja, o time dos universitários, como nós. Foi ao fim deste jogo, após a derrota que os eliminou do campeonato, que uma das colegas de sala dele foi agredida. Há quem diga que ela gritou o nome do time na torcida adversária. Há quem diga que ela apenas estava comemorando um dia feliz. Não me importa. O que aconteceu não é de minha alçada. O que importa é que um dos presentes no recinto, homem, branco, heterossexual e universitário se dirigiu até ela e a derrubou no chão com a clara intenção de machucá-la.
O evento era sediado na Atlética da Universidade Federal de São Paulo e organizado pela Atlética da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ou seja – estávamos em um espaço público de um evento acadêmico público. E neste espaço, mesmo após o chamado para a polícia, nada foi feito para se fazer valer o que está escrito nas letras da lei. Nada.
No dia, insatisfeita, eu gritava ao meu namorado que deveríamos ficar pra ver, que deveríamos assistir o desfecho. Ele estava cansado, mas me garantiu “depois eu e os meninos resolveremos”. Resolveriam, se isso dependesse do meu namorado, feminista, consciente, com sede de igualdade. Foi então que eu descobri que isso não dependia…
Esperei pela nota em repúdio da ação com o nome do time. Esperei pela nota, com o fim assinalado “Unidos do Marlboro”. A nota não veio. Eu questionei ao Diego onde ela estava e ele resolveu abrir o facebook. Lá, li a discussão dos outros jogadores. Eles defendiam que o nome do agressor não fosse citado. O nome da vítima? Ninguém se importou com a exposição ou não. Creio que não tenham dito a ela nem que isso fora um despautério. Em meio a discussão, alguém diz: “não quero o meu nome vinculado a isso”. 
Pronto: eles também são homens que me bateram. Eles também marcaram o meu rosto. Eles me bateram junto com o meu ex, junto com os amigos do meu ex. Bateram em mim e em todas as mulheres já agredidas. Estupraram todas as mulheres violentadas. Colocaram fêmeas em cadeiras de rodas, as queimaram vivas, as enterraram enquanto ainda respiravam. E fazem isso todos os dias. Por que? Porque são mulheres, porque é problema delas, porque não querem seus nomes europeus – herdados de seus pais – vinculados a sujeira e ao sangue dessas mulheres. Devem preservá-los, mesmo que isso signifique preservar um status quo que diz que mulheres podem apanhar porque gritam, porque choram, porque são mulheres. O não questionar, o não vincular-se, o silêncio são pactos com tudo isso. Já dizia minha mãe: quem cala consente.
Ainda aguardo a nota da ECAtlética, da Associação Atlética Acadêmica da Unifesp e, é claro, do Unidos do Marlboro. A Marta não deveria ter apanhado, não porque ela é a Marta, ou porque ela é mulher – mas porque ela é um ser humano, mesmo que vocês não vejam isso dado a venda existente em seus olhos chamada patriarcado. Ou seja: calar-se não é livrar-se do problema: é apenas se esconder da realidade que grita aos seus ouvidos muito mais do que qualquer mulher. 

 

Anúncios
Com as etiquetas , , , ,

Pra que não haja dúvidas: o machismo nos OPRIME.

COPO DE CAFÉ

Domingo cinzento em São Paulo, domingo de jogos universitários. Ao longo do dia, jovens se reúnem para praticar esportes, torcer, beber, conversar, enfim, reúnem-se para se divertirem. Há aqueles que levem mais a sério os jogos, mas estes são minoria; o objetivo primário é a reunião, é passar um domingo agradável com os amigos. Este é o InterECA.

Em campo um time qualquer joga futebol contra o Unidos do Marlboro, time criado por estudantes de jornalismo (fumantes) em que cada jogador recebe um nome de consequência provocada por cigarro: Gangrena, Câncer, Morte, Sofrimento, Infarto, Dependência e Enfisema Pulmonar. Como ninguém quis ser a Impotência, esta é acabou sendo a fã número 1 da trupe. Uma forma descontraída de debochar do vício que todos sabem ser prejudicial.

O time, tão bom de futebol quanto os nomes de seus jogadores, perde miseravelmente de seu adversário mas na arquibancada a torcida é…

View original post mais 1.142 palavras

Fraternalmente…

Fraternalmente...

Eu estava idiotamente tentando escrever alguma coisa aqui. Primeiro, eu gostaria de contar algumas coisas – finalmente boas – que me aconteceram essa semana. Depois, eu queria publicar um conto antigo. Então decidi indubitavelmente que eu escreveria um resumo da Democracia na América do Tocqueville e deixaria aqui pra não perder, como de costume, uma semana antes da prova.
Mas aí eu achei essa foto e fiquei olhando pra ela bobamente até agora. Talvez porque ela reúna tudo: as coisas boas que já me aconteceram, o talento fraternalmente herdado pra escrita, e até mesmo as motivações que me fizeram parar na política. Essa é minha irmã há mais de dez anos atrás com o mesmo sorriso e a mesma alegria de uma vida toda. Saudades dos bons e velhos tempos.

Com as etiquetas , ,

That joke isn’t funny anymore

Queria pegar um punhado dos meus comprimidos de epilepsia e engolir. Lentamente, um a um. Estar aqui, às vezes é só um fardo. É como se toda manhã fosse uma nova chance de perder um pouco mais a fé nas coisas que um dia cheguei a acreditar, e nas pessoas no geral. Nada em específico: nunca é nada em específico.
Naquele dois mil e nove, eu podia ter morrido. Mas apenas descobri que a doença que eu vou carregar comigo pelo resto da vida, condiz comigo e com a minha personalidade: ameaça, mas não machuca efetivamente. São só alguns dias passados, sem memória. São dias de felicidade, e eu sempre saio do hospital achando que sou uma pessoa boa e cercada de amigos, até viver uma semana na minha pele novamente e voltar a me lembrar de tudo.
Quando a memória vai voltando, ela vem aos poucos. Até que eu fecho os olhos, pesadamente e pá! Lembro de tudo. Tudo sempre começa a vir pelas brigas e pelos momentos ruins compartilhados com pessoas que eu gosto. Uma lindeza.
Ficou a chance dos comprimidos! Nunca mais eu teria de me lembrar que poderia ter sido uma grande bailarina, se não tivesse fodido os meus joelhos antes de completar o curso. Nunca mais vou ter de me lembrar das pessoas do ensino médio apontando o dedo pra mim e me seguindo a cada passo. Nunca mais vou ter de me lembrar da greve e das convicções que foram caindo, uma a uma. Nunca mais vou ter que ir até aquela Universidade, lembrar o quanto eu sonho baixo e fico feliz com pouco. Também não vou ter que me entristecer na minha mesa de trabalho, refletindo sobre a imbecilidade humana e sobre o egoísmo que nos circunda.
Toda essa minha avidez por liberdade, toda essa mania de querer fazer justiça, toda minha petulância de achar que estou correta, que conheço as pessoas… tudo isso vai embora de uma única vez. Não seria um alívio?
Pena que o fato de eu já ter mais de quinze anos, me tira toda a graça de ficar pensando como seria me jogar do viaduto do chá. É mais um medo de tentar morrer e amanhã, ainda estar abrindo os olhos. Então eu vou ficar, como sempre, assistindo os vídeos da época que eu dançava. Me lembrarei das pessoas do ensino médio e de todos os julgamentos que elas fizeram sobre as minhas atitudes – dignas ou não de aprovação social. Vou olhar fundo nos olhos dos amiguinhos grevistas e eles estarão lá, com aquela cara de que sabem de tudo e querem me contar que eu sou burra. Burra e pelega, alienada dessa verdade marxista surreal. Amanhã, ou talvez no máximo segunda, vou ter que pisar nos paralelepípedos pichados de “fora PM, fora Marcos Cézar, fora burguesia”. Lá, vou ficar na eterna reflexão sobre o que eu estava pretendendo na hora que decidi fazer Ciências Sociais. Não vou concluir nada, como de costume. Ainda tenho umas cinco horas antes de eu me levantar pra comparecer a minha mesa de trabalho a fim de ficar assistindo os meus pobres colegas chorando em silêncio sobre as suas vidas que não deram certo. Me aconselhando por crer veementemente que é possível que a minha existência um dia seja promissora e repleta de felicidade.
Talvez seja realmente tudo como me disseram há uns anos atrás… o que me disseram mesmo? Puta merda, sou epilética, não me lembro.

Com as etiquetas , , ,

“suspeita de escrotice: há disponibilidade”

… I had tender feelings that you made hard,
But it’s your heart, not mine, that’s scarred.
So when I go home, I’ll be happy to go –
You’re just somebody that I used to know.

You don’t need my help anymore,
It’s all now to you, there aint no before
,
Now that you’re big enough to run your own show
You’re just somebody that I used to know.

I watched you deal in a dying day,
And throw a living past away
,
So you can be sure that you’re in control,
You’re just somebody that I used to know.

I know you don’t think you did me wrong,
And I can’t stay this mad for long,
Keeping a hold of what you just let go –
You’re just somebody that I used to know

Com as etiquetas , ,

sobre os amores contemporâneos

O sangue escuro e denso se espalhava da rua até o final do cruzamento. Ela, com um sorvete em mãos, fitava-o, com aqueles olhos grandes como jabuticabas e brilhantes como um zênite. Procurando nas memórias do mais remoto passado, constatava a certeza de nunca ter visto tão desprezível homem. Contudo, pouco lhe importava a cena e nem sequer chegou a ver seu rosto coberto pela mistura do vidro estilhaçado e da massa disforme que até poucos minutos atrás era um não muito pensante cérebro.
Ele até o último segundo de sua vida havia esperado por esse dia. Fora mais alguém perdido na imensidão de concreto e mármore daquela cidade. Dada sua condição, sua falta de modos e suas poucas falas, poderia ter sido um rato – mas a vida lhe legou o fardo de ser humano e miserável, com sua pobreza refletida não apenas nas minúcias factuais de não possuir um teto ou não ter nada além de trapos para cobrir o corpo bem como em seu espírito cheio de fantasias que o faziam amargurar por dentro a cada aparição do luar.
Passou cada dia da existência sendo ignorado e ainda assim, sustentando seu desejo: tornar-se o amor da bonita moça da loja de perfumes da Avenida Central. Gastava seu tempo a medir cada detalhe daquele rosto, que embora imperfeito lhe remetia ao melhor pedaço do paraíso. Desprendia cada noite tentando traçar um plano incrível para lhe perguntar apenas o nome. Acreditava que o nome contemplaria o que ela tinha de mais belo: os olhos, negros, grandes – a porta de entrada daquela alma feminina e indubitavelmente generosa. Levou a vida toda consigo a certeza de que sua miséria e solidão só seriam sanadas se o nome dela fizesse jus ao belo par de íris com o qual ela fora contemplada pelo destino. Ah, o destino!
Pois que os dias, meses e anos puseram-se a gastar, corriam. Já conhecia toda a indumentária utilizada por ela e conseguira se apegar até mesmo ao velho relógio para o qual todos os dias ela insistentemente olhava, ansiosa pelo fim de seu expediente. Até que um dia, um ancião sentou a seu lado e lhe ofereceu um punhado de moedas: “Jogue-as ao vento e espere que o vento responda seu pedido”, disse.
Foi então que pensando pequeno como o habitual, ele apostou todas as moedas do velho na loteria federal. Na mosca: o bilhete foi premiado. Pensou então como era sábio, como procurando pouco, achou quarenta e cinco milhões de reais. Todavia, esqueceu-se de algo crucial: quem busca pouco, pouco encontra e quem vem do pó, ao pó retornará, como anunciam as profecias. E mesmo com todo o dinheiro do mundo, o lugar de quem rasteja é insistentemente o chão. Logo, podendo ele ganhar o mundo, tomou como sua prioridade imbecil, saber o nome da garota que tanto desejava.
Arrumou-se. Comprou a ela um novo relógio, novos sapatos, um vestido, flores. E sorridente, esqueceu por aquele único dia que na velha cidade, tudo em volta está sempre pronto para nos engolir.
Então, atravessando a rua que idiotamente tão bem conhecia, cometeu seu velho erro: olhou demais pra ela e esqueceu-se de tudo em volta. O ônibus pronto a parar no cruzamento, como todos os dias, passou por cima dele quase sem que o motorista percebesse.
Dispensada de seu dia de trabalho, ela comprou um sorvete e parada no asfalto quente, lançou o único olhar de sua vida na direção dele. Um olhar rápido e singelo. E saiu, caminhando calmamente até o fim do cruzamento, na linha reta em que seguia o sangue escuro e denso.
Seu nome? Cecília… do etrusco: cega.

Com as etiquetas , ,

Para os recomeços interessantes

Ninguém sabe a epopeia que foi até essa página ganhar vida.
Quando eu tinha doze anos, eu comecei um caderno. Hoje, aos dezoito, eles já são mais de vinte. Preenchidos de ponta a ponta com todos os tipos de coisas que vocês puderem imaginar.
Uma vida toda dedicada a sujar páginas (algumas vezes com chocolate ou lágrimas, e ridiculamente confesso).
Vir pra cá não foi fácil. Sair dessa coisa intimista e pessoal que é pegar um caderno em mãos e poder rabiscar e riscar e oitenta milhões de vezes, se necessário, arrancar a página e recomeçar.
Mas com o tempo eu aprendi que recomeçar nem sempre é o melhor caminho. E certamente, não o é para a escrita. Há de ser sincero e há de ficar para a posteridade, mesmo que não haja razão para ter surgido e mesmo que não haja quem prestigie. Então escolhi esse blog, para recomeçar a escrever e a sentir que expurgo os meus próprios fantasmas.