De volta em linha reta

Os anos sem escrever parece não terem acontecido. Quando eu criei esse blog eu tinha uma única certeza: eu só existiria no mundo se eu nunca deixasse de fazer a única coisa que eu sempre soube fazer: escrever. Eu nunca fui boa com testes de matemática ou de lógica. Não aprendi a calcular e não sei gerir o meu dinheiro. Sou uma boa escritora, uma ótima conselheira e uma cozinheira mais ou menos. Com isso, queria sair pelo mundo como Bukowski, como Kerouac. Cheguei a planejar isso com um namoradinho aos dezesseis anos, mas aí eu pisquei e estava em um escritório, a placa colada na mesa tinha o meu nome e eu já falava coisas como “vou te dar um feedback” ou “tive aqui um insight”.

Eu deixei de existir. Parei de escrever. Dia desses, me apaixonei por um cara e tentei uma crônica sobre nós dois. Não sei se deixei de ver poesia no cotidiano, mas não consegui enviar nada pra ele. O pavor de parecer vulnerável e de mostrar o ser humano atrás das fórmulas do Excel congelou os meus dedos e aí já não dava mais. Eu sequer sei se minha letra é feia ou bonita, porque eu nunca mais senti necessidade de pegar um caderno e escrever: “Viviane, hoje no seu dia você conheceu alguém incrível”. Te juro, eu fazia isso quando era adolescente e, hoje, a maioria das pessoas incríveis que eu conheço estão descritas nesses cadernos. Como é que eu posso não conseguir sequer escrever uma crônica pra um novo amor? A ideia que me toma de assalto é que vou parecer ridícula. Porque aos dezesseis a paixão é avassaladora, e aos vinte e dois ela é só ridícula.

Eu entrei na faculdade pra ser socióloga e mudar o mundo. Agora eu queria ter dinheiro pra comprar um amaciante melhor, queria comer alguma coisa que não fosse frango e atum e queria que, por um único dia, eu pudesse tomar sorvete sem achar que é um capricho idiota que vai me custar no espelho amanhã. Eu gostava de Velvet Underground e The Smiths e mês passado fiquei feliz em um show do Wesley Safadão. Eu achava que nunca ia precisar dirigir, eu sei andar de bicicleta, esse é o século XXI e já inventaram o trem, o metrô, o avião. Essa semana me inscrevi na auto-escola porque não aguento mais pagar táxi pra ir ao médico em uma daquelas consultas de cinco minutos que me garantem até a próxima dor de cabeça que eu não vou morrer antes dos trinta.

Dia desses eu fui pra São Paulo e encontrei um cara com quem eu ficava no primeiro ano de faculdade. A gente ficou feliz em se ver e fomos beber uma cerveja. Falamos da vida. Do engenheiro e da socióloga. Por trás das máscaras, nada. Queria um assunto que não fosse sobre o que eu faço, mas sobre o que eu gosto de fazer quando não estou respondendo meus e-mails. Não deu. Depois de um tempo não existe mais eu, mais você, mais passado, presente ou futuro: existem as pessoas que nos tornamos e o que fazemos pra sustentar os traumas que Freud explica. O que vai pagar aquela camiseta que eu não pude ter, aquele sapato, aquele rímel… Não vamos perder nosso precioso tempo quebrando paradigmas e falando de coisas idiotas, como lidar com a velhice dos próprios pais, como sair de casa e não conseguir pagar o aluguel às vezes ou como ter medo da morte. Não dá tempo de falar de literatura, cinema, teatro. Vamos falar dos nossos projetos, dos treinamentos, das metas.

Parece que agora o mundo se divide em duas categorias de pessoas: as que vivem nas lembranças e as que, assim como eu, viraram só um fantasma daquilo que elas mesmas já foram. Eu não quero mais ser um fantasma. Eu sei quem eu sou, eu sei o que eu gosto de ouvir, os meus valores, os meus livros preferidos, o que me faz querer acordar amanhã. Eu quero existir. E pra isso eu tenho que escrever, tenho que enviar a crônica pro cara da paixão, tenho que manter esse blog. A despeito da placa na mesa eu sou um poema em linha reta.

 

 

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Líder aqui é palavra feminina!

Quero começar esse texto com um desabafo: fiquei todo o mês de Junho pensando no quanto eu gostaria de escrever algo novo (quiçá brilhante) nesse blog e me frustrei por não conseguir. O fluxo de trabalho – no novo emprego e na faculdade – não permitiram. E aí agora sou obrigada a voltar aqui no meio de Julho pra escrever sobre um tema que detesto: homens no feminismo.

Pronto. Desabafo feito, é bom eu me explicar pra que vocês não me entendam mal. Não é que eu deteste homens no feminismo. O que eu detesto mesmo é debater o tema. O motivo? Vai ter alguém pra dizer que mulheres e homens merecem o mesmo espaço de liderança e o mesmo contraste entre suas vozes dentro do movimento feminista. E isso me irrita. Isso me faz arrancar os cabelos e pular em um pé só em cima de uma cama de pregos de tanto ódio. 

O primeiro motivo pra que eu refute tão veementemente essa ideia, é a meritocracia. Tudo na sociedade contemporânea funciona por esse sistema. Você tem um emprego porque merece, você tem um bom cargo porque lutou pra isso, você conseguiu entrar no curso mais concorrido de uma universidade pública porque é bom o suficiente. Quem questionaria isso?

Os movimentos sociais questionam. Porque esse sistema é falho e falacioso. A meritocracia é um sistema dos opressores para justificar suas opressões. É um sistema que ignora as forças histórico-sociais que agem à margem da realidade tangível. Dessa forma, a meritocracia ignora o racismo, o machismo, a homofobia e todas as demais dificuldades impostas a grupos minoritários, como se a sociedade agisse magicamente em prol do esforço, e não houvesse no seio da compreensão coletiva postulados que confrontam as capacidades de pessoas negras, de mulheres ou de pessoas da comunidade LGBT.

Desta forma, me soa absurdo dizer que um homem pode ocupar o espaço de uma mulher dentro do movimento feminista por ser um melhor orador, ou melhor-qualquer-coisa-que-seja. APENAS NÃO! O movimento feminista é sobre lutar para mulheres. É sobre transgredir as regras do patriarcado. Não é sobre uma reprodução da sociedade que está lá fora. Não é sobre dar visibilidade aos homens. 

E por falar em visibilidade dos homens…
Os homens tem construído todo o mundo. A História foi feita pelos homens. A Ciência foi feita pelos homens. Será isso uma coincidência? Será isso dado como prova da irrefutável proeminência do pensar masculino sobre o feminino? Será a mesma estranha força que age em prol dos brancos e confina os negros? 

Acho que se você se considera feminista, sabe que todas as respostas para essas perguntas são um sonoro e gritante NÃO. Os homens são os beneficiários diretos do sistema patriarcal. Sistema esse que nos coloca para competir em desvantagem com o gênero masculino. Esse sistema que é justamente o alvo do movimento feminista!

E é aí que está o ponto: se já temos um mundo de homens, feito por e para homens, discutido por homens, não precisamos tê-los liderando e ditando rumos nos nossos espaços. O feminismo é e deve ser um espaço autônomo de mulheres e para mulheres. Para subverter a lógica patriarcal, deve estar em íntimo contato com as mazelas femininas, afim de pensá-las coletivamente e solucioná-las.

Faça um exercício: quantas vezes por dia uma mulher é silenciada? Quantas vezes por dia uma mulher é coagida? Quantas vezes por dia uma mulher é violentada físico ou psicologicamente?
Não tenho dúvidas de que são muitas. Inúmeras. E pra quem desconfia disso, fikdik: O MACHISMO MATA. É só clicar no link e dar uma conferida no quanto. 

Portanto, enquanto suplência das nossas demandas, enquanto espaço para nos firmarmos, o feminismo precisa ser liderado por mulheres. Precisa que mulheres digam o que as oprime. Precisa que mulheres digam o que querem fazer, por onde caminhar e como lutar. Porque dizer o que mulheres devem fazer, é tudo o que os homens já fazem lá fora.

Mas aí vão me perguntar aquela clássica questão. Aquela, que faz os meus ouvidos arderem: “Viviane, mas e os homens?” (também conhecida como “Viviane, mas e uzomeeeee?”) Tá, dessa vez pela última vez eu vou responder:

Os homens não são meus inimigos. Os homens não são inimigos do movimento feminista. Os homens podem ser aliados, não protagonistas (como disse brilhantemente – Henrique Marques- Samyn – um homem, vejam só!)
Os homens podem pegar aquele espacinho que só eles podem ocupar, chamado resto do mundo, e fazer dele um espaço feminista. Podem doutrinar os amiguinhos. Podem conversar com os parentes. Podem ensinar em sala de aula. Podem falar no trabalho. Podem expor o feminismo por todo canto! Podem dizer em todo lugar o quanto valorizam e lutam pelas mulheres! 
Isso nos ajudaria muito e seria de grande valia, caras! Mas ditar suas regras no feminismo, tomando mais uma vez o espaço das mulheres, não soa por si anti-feminista? (atenção: essa pergunta é retórica.)

Assim eu decreto que na minha vida está encerrado o espaço para as male tears. Não vou parabenizar os homens que lavam a louça ou que não mexem com mulheres na rua. Não vou dar um biscoitinho por isso. É sua obrigação enquanto ser humano, portanto, continue cumprindo-a nos espaços onde você já é pleno de direitos, e deixe as mulheres construírem sua própria luta, pautada em nossas necessidades e demandas. 

E tchau.

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Sobre sororidade: breve história de como me tornei feminista

*Prometi esse texto e estou cumprindo. Para a linda e brilhante Emmanuele Aldine, que tem muito de mim quando eu era uma menina, e tudo pra ser uma mulher melhor do que eu sou.

Na minha adolescência eu fui uma menina triste. Parei de dançar ballet lesionada aos 13 anos de idade. Dos 53 kg passei aos 65, e ninguém me contou o que era body positive nessa época. Não me contaram também que a sociedade era preconceituosa, e que cortar os meus cabelos bem curtos e pintá-los de roxo, depois de vermelho fogo, não ajudariam a evitar que eu ouvisse todos os dias alguma gracinha sobre a minha aparência.

Ninguém me disse também que decisões como começar/terminar um namoro, ou aderir a coisas ditas “masculinas” como gostar de rock’n roll ou jogar sinuca me tornariam uma “vadia”, e que por isso eu merecia ser xingada/hostilizada/escrotizada. Eu chorei muito. Eu só queria fazer coisas que eu escolhi pra mim, mas o patriarcado já agia sobre a minha vida, e eu já tentava resistir, dar de ombros. Parecia tão impossível e infindável…

Mas aos 17 anos, já universitária (já que me tolheram o amor próprio e a livre sexualidade em boa parte da minha vidinha, estudar foi uma grande saída), a primeira palestra de boas vindas aos calouros que fui assistir era sobre gênero. Até então tudo o que eu sabia sobre gênero era o famoso bordão “concordo em gênero, número e grau” e foda-se. Sentada na palestra, ouvi uma militante da Marcha Mundial das Mulheres falando sobre a sub-representação e a objetificação das mulheres na literatura, nos filmes e nas propagandas. Olhei a vida com uma abordagem mais crítica. Me culpei menos. Ela foi a primeira mulher que mudou minha vida, embora eu nunca mais a tenha visto.

Aí precisei ganhar dinheiro. Um amigo (salve Higor Valente!) me ligou em uma quarta-feira cinza pra caralha e falou “e aí, tô com um estágio, você topa?”. Eu topei. Era um estágio em um Centro de Cidadania da Mulher.

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(Eu e o Higor nos tempos de estágio. Lutando e construindo a igualdade de gênero.)

Lá, confrontei a minha realidade de mulher branca e pequeno-burguesa, com a realidade das mulheres negras e pobres. Vi a feminização da pobreza. Vi o racismo, a misoginia. Vi mulheres que jogaram água fervendo em seus maridos depois de vinte ou mais anos de agonia, sofrimento, dor. E no dia do meu aniversário, vi uma mulher entrar por aquela porta em meio ao sangue e sem lágrimas pra nos dizer “meu marido me esfaqueou”. Essa foi a segunda mulher que mudou a minha vida, embora eu sequer saiba o seu nome. Eu precisei me aprofundar no tema, porque minha concepção rasa já não era suficiente. Eu queria dizer algo mais que “espere o defensor público”. E eu consegui. Até o fim do meu estágio, várias vezes eu repeti: “você é capaz, todas nós somos”, e acho que essa era a melhor coisa que eu podia dizer naqueles momentos.

Depois do estágio, já me considerava feminista. Já tinha lido sobre o tema, mas eu ainda era solitária. Não tinha coragem de chegar em uma mulher e dizer “alô, você é minha irmã, vamos marchar pela nossa liberdade”. Me faltava coragem pra falar sobre as agressões físicas, verbais e psicológicas que eu já tinha sofrido em diversos espaços. Faltava gritar que meu corpo não é um espaço público, que não sou um espaço que tem como finalidade o prazer, e que não pedi a opinião de ninguém sobre meu peso ou minha depilação. Faltava orgulho de dizer que sim, uai, sou feminista, sou mulher, SOU LIVRE. Doa a quem doer e custe o que custar.

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Um dia, casualmente, fui a uma festa universitária. Lá, vi uma mulher apanhar. O agressor se “justificou”: ela gritava! Mesma justificativa que usaram pra me bater, há exatos cinco anos atrás. Me calei. Não enfiei as mãos na fuça dele, não a acompanhei a delegacia. Ela era Marta, a terceira mulher que mudou a minha vida, embora nunca tenhamos sido amigas íntimas.

Isso ficou martelando na minha cabeça: qual a finalidade do feminismo acadêmico, se ele não virar militância? Eu precisava ir pro espaço público. Eu precisava ocupar as ruas pra gritar que elas eram minhas. Eu queria e era uma necessidade, ajudar todas essas mulheres que fizeram algo por mim, mesmo sem saber. Pelas mulheres que lutaram por um futuro prodigioso e de auto-gestão pra mim e para todas as mulheres.

Li muito. Conheci muita gente. Fui me infiltrando, quase que como uma formiga, nos grupos, nos coletivos, nas festas. Não me calei diante das outras violências de gênero que presenciei, e embora agora eu tenha quem me ameasse, me orgulho de assumir posições.
Então eu precisei de ajuda. Eu precisava chorar um tipo de situação que não se chora com qualquer pessoa. E essa foi a primeira vez que eu me senti fragilizada e podada como mulher. Essa foi a primeira vez que eu pensei “hoje eu preciso de uma feminista”. Liguei pra Carolina, e ela foi a quarta mulher que mudou a minha vida. Nunca tínhamos nos visto pessoalmente, mas no mesmo dia ela se materializou na minha frente como em um passe de mágica, e desde então, não quero (e não vou) desgrudá-la.

A partir daí eu ganhei a firmeza que me faltava pra entender que temos que estar na rua, e temos que estar na universidade. Temos que estar nas empresas, e temos que estar em casa. Temos que estar na Marcha das Vadias, e temos que estar nos grupos online. Temos que estar, enfim, EM TODOS OS LUGARES.

Porque a sororidade me salvou. Porque a sororidade me libertou, me engrandeceu e quebrou o meu silêncio sem nunca me cobrar nada em troca. E então quero poder dizer pra todas as mulheres que passarem pelo meu caminho: você se pertence.
Por isso nessa MdV 2013, escrevi no corpo apenas “SOU MINHA” – claro, simples, minimalista. Porque é sendo minha que posso ser de luta.
E se eu tenho algo a dizer, pra encerrar esse texto, é: LEVANTE, MULHER! Não tenha medo. Tenha empatia. Você é linda, forte, capaz e plena.

Imagem(Marcha das Vadias de São Paulo 2013, em companhia dxs lindxs do Machismo Chato de Cada Dia)

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Sentido Algum

Estava tentando me lembrar daquela frase do Milan Kundera sobre a vida ser como um script lido uma única vez pelo ator de uma peça, que é obrigado a executar sua estréia sem nunca tê-la ensaiado. Não me lembro de ter atribuído tanto sentido à Insustentável Leveza do Ser desde que tive quatorze anos, mas algo que corre por fora do curso da vida cotidiana me faz retomar ao clássico da minha adolescência conturbada e dificultosa, e questionar se por vezes, o melhor a se oferecer de súbito à sutileza da vida posta não é justamente a capacidade de nada oferecer.
Existe algo no meio-fio entre existir e dedicar-se à existência que paira sobre o âmago do que eu sou de fato e daquilo que esmerei me tornar. Voltar quantos anos parecem necessários a um passado que emana incertezas não é garantia de compreendê-lo, tampouco mudá-lo. E os ecos produzidos a priori por uma personalidade tão latente, vívida e impulsiva como a desta que vos fala é como compreender o sórdido, surpreendente e inevitável teatro em único ato da vida: não há chance pra dizer que a chance se fora.
Gostaria de poder dizer que teria feito diferente, a diferença e à diferença, mas sei que genuinamente reitero o que galguei, e estabeleceria duas vezes ou mais os mesmos axiomas, por mais estúpidos que o sejam.
Endosso o fracasso, a fraqueza e a franqueza, e por isso tudo me dói e quase tudo me custa. Mas deixo arder.

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Resenha: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo – Max Weber

Em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo’, Weber discorre sobre a relevância da reforma protestante para a formação do capitalismo moderno, de modo que relaciona as doutrinas religiosas de crença protestante, para demonstrar o surgimento de um modus operandi de relações sociais, que favorece e caracteriza a produção de excedentes, gerando o acúmulo de capital.

Há de se dizer, então, que o mundo outrora dominado pela religião católica, era também concebido a partir da cultura por ela promulgada. Isso quer dizer que o modo de vida pregado no catolicismo, era propagado para além dos limites da Igreja, perpassando a vida dos sujeitos. Entretanto, o catolicismo condenava a usura, e pregava a salvação das almas através da confissão, das indulgências e da presença aos cultos. Desta forma, o católico enxergava o trabalho como modo de sustentar-se, mas não via prescrição em também divertir-se, buscando modos de lazer nos quais empenhava seu dinheiro, e produzindo apenas para seu usufruto. Menos temerário ao pecado que o protestante, e impregnado pela proibição da usura, o católico pensava que pedir perdão a seu Deus seria suficiente para elevar-se ao “reino dos céus”. Assim, seguindo esta cultura religiosa, a acumulação de bens não encontrou caminhos amplos, e permaneceu adormecida.

Contudo, com o advento do protestantismo, a doutrina – e portanto, a cultura – católica modificou-se, e a salvação passou a ser para alguns, não mais passível de ser conquistada, mas sim uma providência divina, onde o trabalho era meio crucial para glorificar-se. Para o protestante, o trabalho enobrece o homem, o dignifica diante de Deus, pois é parte de uma rotina que dá às costas ao pecado. Durante o período em que trabalha, o indivíduo não encontra tempo de contrariar as regras divinas: não pratica excessos, não cede à luxúria, não se dá a preguiça: não há como fugir das finalidades celestiais. E, complementando toda a doutrina protestante, ainda é crucial pontuar que nesta religião não há espaço para sociabilidade mundana, pois todo o prazer que se põe a parte da subserviência a Deus, fora considerado errado e abominável. Assim, restava a quem acreditava nestas premissas, o trabalho e a acumulação, já que as horas estendidas na produção excediam as necessidades destes religiosos, gerando o lucro.

Portanto, quando se fala em uma concepção tradicional de trabalho, trata-se da concepção católica, que não acumulava e pensava o trabalho como meio de garantir subsistência. Já a concepção que vê o trabalho como fim absoluto, é a protestante, que enxerga no emprego de esforços produtivos a finalidade da própria existência humana, interligada com os propósitos providenciais de Deus.

Esta mudança no comportamento social, além do choque de culturas exposto nos parágrafos acima, suscita uma abrupta mudança no cenário econômico. Isso decorre do seguinte ciclo: O católico trabalha para viver, o protestante vive para trabalhar. O protestante gera excedente, e o acumula, investindo-o em cadernetas de poupança, gerando lucro. A finalidade protestante é salvar-se, e se o trabalho é salvador, empregar outros auxilia na salvação alheia. Logo, o protestante é dono dos meios de produção, detém os funcionários e acumula cada dia mais excedentes, gerando mais capital. E assim, a gênese do capitalismo moderno é concebida.

Conclui-se, portanto, que a cultura – segundo Weber um modo de ser que detém as práticas –  ao ser modificada, gera novos costumes, um comportamento inusitado, que embora não tivesse como objetivo estabelecer uma nova ordem econômica, e sim moral, passa a sustentar a essência do sistema.

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A gente não sabe militar

Uma garota branca, cissexual e moradora do estado mais rico da federação acha por bem criar uma página denominada “Feminismo de Redes Sociais”, na qual busca denegrir a imagem de um movimento que vem se construindo e superando barreiras. Deliberadamente, faz chacota envolvendo a sociedade patriarcal e sexismo, como se as militantes feministas fossem loucas, histéricas e exageradas.
Nada consta de novo nessa perspectiva, que é um clássico revisto do machismo tátil da sociedade. Mas algo ainda me surpreende: na descrição da página, a frase “nada contra o verdadeiro feminismo” salta à minha percepção. É claro, quem além de alguém que claramente nunca pesquisou sobre o tema, e que sequer se sente oprimido por estar imerso em um mundo cômodo de privilégios, poderia nos contar o que é o verdadeiro feminismo? A pretensão teórica, sociológica e política que tal frase carrega é uma insígnia de desconhecimento e não de desonestidade intelectual.

Concomitantemente, surge na minha timeline um colega de faculdade bradando contra os camaradas que compartilhavam em tempo real, imagens da Aldeia Maracanã e dos protestos em prol dos indígenas, expulsos de suas terras para a construção da Copa do Mundo de 2014.
O escrito dizia que nós, mulheres e homens da cidade grande, deveríamos nos preocupar com os bolivianos presos em trabalhos escravos, costurando para grandes marcas como Zara ou Marisa, e não com os índios, distante realidade.
Dessa vez, a contradição histórica exposta não é só desonesta, como reflete uma sugestão implícita: escolha um único tema e milite por ele. Porque é claro, lutar pelos índios te impede em completo de ser a favor da liberdade de bolivianos, você não sabia? (ative o alarme da ironia, por favor)
Mais uma vez, temos aqui uma falácia. Quem escolhe porquê e quando militar é o indivíduo, sujeito histórico imerso em seu tempo. E facilmente digo: quem detém o privilégio se mostra pífio quando tenta calar o oprimido.

Ainda no tema, venho relembrar o desfile de Ronaldo Fraga. Palha de aço na cabeça de modelos, em sua maioria brancas, e para o estilista, temos uma homenagem aos negros. Os negros não gostam dessa homenagem. Os negros se sentem ofendidos e eles tem licença para tal, porque qualquer pessoa tem, e com minorias não é diferente.
Mas a Revista Marie Claire não gosta que os negros não tratem como homenagem um ato que repete visualmente a ofensa que eles tem ouvido ao longo de toda a vida. E a revista, com seu público branco da classe média, resolve defender Fraga. Publica então que o movimento negro – movimento de lutas, de conquistas, de vitórias – cochilou durante todos esses anos em que modelos brancas estiveram nas passarelas. Como se o fato de elas estarem na passarela com bom-bril nos cabelos limasse o fato de elas estarem lá, e como se toda a luta para que os negros pudessem ocupar espaços antes meramente brancos (inclusive a moda!) não estivesse em curso há décadas e adivinhem: exatamente agora!

Essa é a realidade: nós não sabemos militar. Nós não existimos.
Porque as minorias são ridicularizadas pelos “verdadeiros revolucionários”. Porque não basta não concordar, não basta refutar no nível das ideias. É necessário ridicularizar, é necessário ofender, é necessário fazer chacota.
Porque não é suficiente estabelecer considerações e contradizer argumentos. É necessário decidir pelo que, quando e quem pode defender algo.
Rever estruturas incomoda. Mexer no status quo deixa os brios em polvorosa. Mas o meu consolo vem na reflexão: a qualidade dessas declarações é tão fugaz quanto os privilégios: passa, se realoca e basta um pouco de conhecimento histórico para torná-los mentira e reduzi-los a pó.

A nós, mulheres, negros, índios e privilegiados em busca de um mundo sem privilégios, resta a luta. Porque ninguém decide por ninguém e não perco a chance de citar Beauvoir: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.”Imagem

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Sobre cansaço e solidão

A rua está vazia, o vento cortante e as pálpebras pesando sobre a íris dos olhos. Os livros a tiracolo, a echarpe insistindo em se espalhar pelo pescoço e os cabelos se emaranhando em si mesmos.

Apalpo o bolso e procuro um cigarro: havia me esquecido que não uso nicotina há dois meses e instantaneamente me desespero. Eu devo estar fazendo algo muito errado desta vida para estar aqui agora, sem um puto e sem Marlboro às vésperas de uma reunião importantíssima no partido e um ato decisivo para a militância. Mas que importa? Tenho doado a existência aos outros, mas essencialmente agora, quero encontrar algo que seja exclusivamente meu.

Penso em pegar minha bicicleta e pedalar por alguns quilômetros pra que a mente cheia de endorfina se esvazie das tormentas e para que o prazer dos músculos latejantes me faça esquecer que o peito também lateja, na ardência do meu coração vagabundo que insiste em tanto doar, sem nada pedir em troca. Lembro-me que a bicicleta foi vendida pra pagar uma dívida antiga, e me questiono o porquê gastei meu dinheiro, se ando economizando vida.

Ainda há a chance de escrever, porque essa é a última coisa que me resta. Talvez a única, dentre tantas minúcias furtadas da minha personalidade inventiva, que insiste em não condizer com o ego de quem quer ser único em um mundo de iguais. Pra ser sincera, sequer isso tem alguma importância agora.

O essencial é que na ausência dos cigarros e da bicicleta, escrever fosse suficiente. Mas infelizmente, o que me faria completa agora não figura entre as coisas tangivelmente tocáveis e eu me sinto pela metade. Sorrio ao pensar que assim sou completa: completamente dividida entre o vazio e o ser pensante que beira a esquizofrenia.

Sento de frente pra janela, e os carros continuam a passar. Sinto falta do imaginário furtivo que poria um futuro bonito diante dos meus olhos agora. Tudo o que vejo transcorrer é solidão, como se me olhasse no espelho dia após dia. A  solidão tem me impedido de ser narcisista.

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Filosofando

Depois da aula de Sociologia III, sobre Simmel e “a metrópole e a vida social”:

A superficialidade é impositiva e necessária aos homens das grandes cidades. São educados para aceitar o curso da vida social, pois a individualidade e suas manifestações causam um estranhamento objetivo aos já massificados indivíduos acostumados as aglomerações e equidades. Paradoxalmente, dada a amplitude de círculos sociais em constante mudança, é justamente a cidade que proporciona a maior possibilidade de liberdade individual subjetiva, já que é a única a abrir a possibilidade de mudança abrupta de estilo de vida e convivência.
Desta forma, as relações com as categorias de tempo e espaço se dão de forma abstrata, e essa abstração exacerbada é destacada pela superficialidade perceptível na impossibilidade de atingimo-nos de maneira profunda e com mutualidade. Sem querer, conseguimos atingir apenas o que está no nível do intelecto, do racional. Não perpassamos os terrenos do profundo e sequer nos interessamos por nossa própria profundidade, que intangível e suprimida, garante a sobrevivência coletiva.
É assim que o dinheiro – deus da modernidade¹ – pauta a abstração da cidade através da quantificação da vida. A condição monetária representa de forma instrumentalizada a futilidade, a equalização das relações e a condição superficial supracitada do homem urbano. Resgatando termos marxistas:  o equivalente geral² propõe a ideia de valor de uso e valor de troca³, e considera-se assim que o dinheiro é a representação exata do modo de vida social da metrópole: é o profundo que se torna raso, o sentimento que se torna exato e o sólido que se desmancha no ar⁴. 

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1) Deus da modernidade: expressão empregada por Simmel para tratar a especificidade do dinheiro na sociedade de sua época.
2) Equivalente geral: termo usado por Marx como sinônimo para dinheiro.
3) Valor de uso e valor de troca: Simplificadamente, é a explicação marxista para a funcionalidade do sistema capitalista de produção.
4) Sólido que se desmancha no ar: menção a frase “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, usada no Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels, bem como atribui título ao livro de Marshall Berman.

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Não tenha nojo. É só uma vulva!

Há algum tempo decidi que nos meus raros momentos livres, vou me dedicar a ler os blogs feministas que já sigo e a conhecer novas postagens sempre que possível. Depois que comecei a me engajar menos teórico e mais praticamente, conhecendo outrxs gurixs que lutam pela igualdade de gênero e não se escondem atrás dos papéis atribuídos ao feminino/masculino através dos séculos, tenho aberto a minha mente às militâncias diferentes das minhas e às concepções que por vezes eu não havia cogitado pensar.
Então hoje, decidi ir ao blog de uma feminista com quem briguei (é, não debatemos ideias, brigamos mesmo) pelo Twitter há alguns meses atrás. Ela é Nádia Lapa, (ou Letícia Fernandez, aos que gostam de homônimos) da página “Cem Homens”. Dei de cara então com um conteúdo que me chocou: apenas 1 em cada 5 mulheres recebeu sexo oral de seus parceiros no período de um ano, de acordo com a estatística veiculada por Nádia. Isso mesmo, vou repetir: UMA EM CINCO, APENAS.
Essa foi a hora que eu comecei a caçar mentalmente todas as experiências sexuais que já tive na vida. Não me lembrei (e sinto certo alívio, confesso) de ter tido sequer um parceiro que tenha se recusado a me fazer sexo oral. Diria até que nas relações heteronormativas que eu tive, a iniciativa para tal tipo de prazer sempre partia exatamente dele.
A comichão com a história do tabu do sexo oral acabou por me incomodar. Após uma reflexão intensa, algumas indicações de leituras e um pouco de debate e troca de experiências, concluí as razões para que essa prática seja incomum no universo cissexual, criando esse engodo, já que em média 70% das mulheres não atinge o orgasmo apenas com a penetração.
A primeira, por excelência, é a ideia da servidão feminina. Fomos educadas à cumprir deveres estabelecidos sob um papel de subserviência de nosso gênero ao gênero masculino. Desta forma, uma prática sexual que torna o homem o coadjuvante e a mulher o elemento central vem a ser uma possibilidade, mesmo que inconscientemente, degradante para o “macho-alfa”. Afinal, o oral exige um momento de dedicação e preocupação com o prazer do outro, e quando isso deve partir de um homem para uma mulher, é tratado com essa estranheza. Para comprovar, basta perceber a naturalização do sexo oral masculino. Qualquer televisão de motel nesta cidade está passando nesse exato momento uma moça com os lábios no falo de um rapaz. Difícil é encontrar um puto filme que mostre um homem lambendo as partes íntimas de sua parceira sem pudor e principalmente, sem nojo.
E por falar em nojo, o segundo motivo se disfarça através dele. Essa ideia de que o sexo oral seja nojento quando feito em uma vagina advém da misoginia propagada pela nossa sociedade. Crescemos absorvendo os mitos de que o órgão feminino deve ser escondido, de que é sujo e intocável. Assim, a mística criada sobre os fluidos e partes femininas como o leite materno, a menstruação e o líquido do período fértil, são estendidos ao próprio aparelho reprodutor feminino. Como tocar com a língua o que se aprende ser apenas para colocar o pênis? Como passar os lábios naquilo que não passa de um instrumento para o orgasmo? Sejamos sincerxs: os homens não vem sendo criados para gostar de buceta. São criados para sentir prazer com elas.
O terceiro, e último motivo que quero listar, é também parte da educação patriarcal e é absorvido essencialmente por nós mesmas. Demorei para concluir e para me lembrar dos primórdios das minhas experiências antes da emancipação feminista. Mas me lembrei: a regulação e o receio são comuns às garotas. Educadas para a discrição e não para o deleite,  treinadas para o pudor excessivo e não para a ostentação da sexualidade, encarnamos os mitos machistas que buscam suprimir e castrar psicologicamente os nossos corpos. Ostentamos os moldes patriarcais através da negativa do nosso prazer em detrimento do prazer do outro. A ideia do mau-cheiro, da feiura e da necessidade de oferecer prazer ao invés de recebê-lo perpassa nosso universo adolescente e, costumeiramente, estamos lá, negando o sexo oral. Esse receio que temos de nossas próprias partes íntimas nos torna escravas de um ritual de sexo onde o nosso gozo não passa sequer perto de ser relevante.
Portanto, chega a ser gritante a necessidade da quebra desses valores. Vaginas são diferentes em seus formatos, em seus cheiros, em suas necessidades. Clitóris precisam ser estimulados em suas potencialidades. E mulheres, é claro, são donas de suas vaginas, clitóris e desejos. Então, pra nos empoderarmos basta pensar que não é, e não dá pra ter nojo… é só uma vulva! E sexo não tem que ser nada além de reciprocidade e troca. Vamos chupar!

*Link para o texto da Nádia Lapa: http://cemhomens.com/2013/01/oral-so-em-uma-a-cada-cinco/mens/
*Link para o texto da Thaís Campolina, que me ajudou muito nessa publicação: http://ativismodesofa.blogspot.com.br/2012/06/menstruacao-autoestima-e-odio-ao.html
*Agradecimento mais do que especial à todas que trocaram ideias e me inspiraram imensamente no Machismo Chato de Cada Dia: esse texto é, sobretudo, uma homenagem pra vocês.

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Velhos textos – parte I.

Já não faço a mais remota ideia de que dia ou mês nós estamos. Sei o ano, porque é o ano em que nos conhecemos, e não me lembro de ter rompido nenhuma fase importante ou crucial desde a primeira vez que os nossos olhos se cruzaram.

Eis o primeiro engano desta carta: desde a primeira vez que nossos olhos se cruzaram eu já consegui saber seu nome, te dar um beijo e te perder. Devem ser fases importantes, mas nenhuma delas teve champagne pra comemorar. Na verdade, sequer você me pagou uma cerveja, porque pelo que percebo agora, no auge dessa lucidez incômoda, eu não valho mesmo nenhuma aula de Política desperdiçada na mesa do bar da esquina.

Engraçado. Antes eu achava que aquele bar sujo e os meus amigos revolucionários da Vila Madalena é que estavam longe de merecer a sua presença, que quase brilha e ofusca as demais coisas. Mas depois de ter a minha visão quase cegada pelo anel prateado que você leva novamente na sua mão direita, só me restaram mesmo as bebidas baratas do bar do Luizão, e aquele rádio velho disputado entre os estudantes e os bêbados para ver quem consegue ser mais pedante escolhendo uma estação FM.

O que sei é que neste mês desconhecido, neste dia desconhecido, estou comemorando a minha falta de emprego, de dinheiro pra pinga com canela e essencialmente de você, com o pouco de chocolate que minha irmã deixou na geladeira e com Shakira tocando nos auto falantes. Ela pergunta: “who would have thought that you could hurt me the way you’ve done it?” e eu não sei responder.

Porque quando você ficava me prendendo entre um corredor e outro de uma aula e outra, você parecia bastante satisfeito com a minha presença. E quando você sussurrava aquelas coisas indecentes no meu ouvido, e beijava os meus seios, parecia de fato que você gostava de mim. E agora eu sei que eu sou jovem e burra demais pra distinguir os olhos de paixão dos olhos de libido.

Então que culpa eu tenho, também, se todo o resto do universo fez um pacto de mediocridade contigo, e ninguém me contou que eu era apenas o seu brinquedo, enquanto ela era nada menos que a sua mulher? Ninguém me contou que você notava em mim a beleza de uma menininha de dezessete anos, e nada mais.

E a própria música autodestrutiva responde: “you don’t even know the meaning of the words ‘I’m sorry’” e eu chego à conclusão de que é isso: você não tinha como me pedir desculpas por não querer estar comigo. Não tinha como me pedir desculpas por ter uma vida ao seu redor, enquanto tudo o que eu tenho pra mim são meus adesivos colados no armário e as minhas cópias de clássicos teóricos que aprendi a ler há pouco. Acho que devo encarar as coisas como elas são e não mais como eu queria que fossem, e com um pouco de tequila pra dentro, decidir sozinha e por nós dois que isso não foi, nem pôde ser uma história a ser dividida. Essa é a história que eu queria ter construído, mas você não. É algo novo pra mim, mas não pra você.

Doeu, dilacerou, e está me matando por dentro. Te ver todos os dias é o tipo de tortura lenta e dolorosa, que dá prazer a quem faz. E eu vejo o prazer nos seus olhos quando finge que me quer por um segundo, só pra me obrigar a lembrar que eu não tive e nem nunca terei você por inteiro.

Freud deve explicar. É uma pena eu ter deixado de ir às aulas de filosofia da memória nas últimas semanas apenas pra não te encontrar assim, logo na segunda-feira.

Felicidades, é o que eu te desejo. A música acabou e as últimas palavras que ouvi, antes de pular entre os meus travesseiros e odiar você, sua cidade, essa rotina e a minha vida, foi “should be illegal to decive a woman’s heart”.

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